Quem ainda não se avexou ao se cruzar, pelas ruas, com duas meninazinhas de mãos dadas.
Ou se beijando em vias públicas. Fazendo de conta de que o mundo só a elas pertence.
Ignorando os comentários maldosos que pululam as suas costas. Indiferentes se as águas correm pra frente ou pra trás.
Pra aquelas duas a vida é tinta em cores de amores. Mesmo que este tipo de amor faz ruborizar os não acostumados a esta forma de contato entre duas pessoas do mesmo sexo.
Como se estivesse escrito em algum livro que homem com homem só pode sair lobisomem. E que mulher com mulher atrai bicho de pé.
Como urologista praticante estou acostumado a ter defronte a minha cadeira um casal de garoto com outro simpatizante. São dois mocinhos esbeltos e bem apessoados amantes tresloucados. Que fazem questão de adentrar a minha sala de mãos dados ao outro.
São via de regra excelentes pacientes. Que não só pagam a consulta sem pestanejar como são dóceis e pouco exigentes aos tratamentos propostos. Quando se trata de uma doença sexualmente transmissível como a condilomatose peri anal ou outra qualquer.
Ao levar um parceiro da dupla a sala de exame percebo-os contrafeitos antes de se desnudarem por completo. Mas assim que o fazem não se avexam em se deixar examinar nus em pelo.
Quando a um deles indico a operação de fimose eles não relutam em agendá-la.
E as categorias antigas, como veados, transviados, gays, boiolas caíram em descrédito.
Agora se usa homo ativo. Homo passivo. Transexual. E coisa e tal.
E eles deixam meu consultório exultantes. Bons amantes. Generosos distribuindo gentilezas com sorrisos francos aos passantes. Sem se importarem com o conceito pouco elegante de aqueles tolos. Os quais têm pudor de considerar os homo afetivos como cartas fora do baralho. Mas eles não são damas de espadas ou reis de copas. E sim gente como a gente. Os quais os pais encomendaram um enxoval de cor azul. No entanto a cor exata era cor de rosa choque.
Sair do armário é fundamental aqueles pretendentes a serem felizes tendo como companheiros outrem do mesmo sexo.
Ontem, na parte da tarde, assim que retornava ao meu apartamento. Quase aqui defronte a minha oficina de trabalho. Deparei-me com uma mocinha encantadora tentando localizar alguém no meu prédio de nome Leblon.
Por sorte dela era eu o endereçado a receber uma mochila vazia. Bem guardada numa sacola com as cores do arco íris.
Como tenho a chave do portão não foi difícil me apresentar como doutor Paulo Rodarte. Médico urologista praticante. Escritor ainda pouco conhecido fora da linda serra da Bocaina. Um doutor pouco exigente com as preferências sexuais de quem me procura.
E elazinha, a moreninha de raros cabelos se mostrou receptiva a minha prosa boa.
Não me recordo seu nome. Muito menos o sobre.
O fato é que proseamos a fala solta.
E ela me disse que gostaria que eu entregasse a mochila a sua namoradinha já conhecida como Totó. Mais explicitamente Vitória. Seu amor; não de verão. E sim por todas as estações do ano.
Estendemos a conversa por quase uma hora inteira.
E a namoradinha da Totó meu deu provas contundentes que o verdadeiro amor não se identifica pelo sexo ou pela cor dos olhos e dos cabelos.
Ele tanto acontece pelas ruas ou avenidas. Como existe o amor pão tônico nascido numa padaria. Ou até mesmo aquele amor sem regras prescritas.
E, na próxima vez que observar duas mocinhas de mãos dadas caminhado intimamente unidas não vou perguntar quem é quem. Simplesmente irei deixar o amor florir. Como uma rosa em botão prestes a se abrir em rosa flor mulher.