Voar ou avoar?
Ambos exibem o mesmo significado. No entanto a grafia preferencial é voar.
Antes se imaginava que voar, ou avoar, seria para os pássaros.
Ícaro tentou voar primeiro usando asas de penas coladas com cera.
Ao se aproximar do calor do sol as penas se soltaram por causa da cera que se liquidificou.
E o corajoso inventor foi ao chão espatifando as asas frágeis como sualma sedutora.
Mas o homem não se conformava em admirar a azul tinto do céu e a ele não atingir.
E movido por este desejo intenso acabou idealizando um pássaro alado. Que subiu aos céus não sem antes beijar o solo. E mortes e ferimentos se sucederam. Até que o tal pássaro movido a querosene empreendeu seu voo solo. Comandado por um piloto e copiloto. Encurtando distâncias inimagináveis desde Paris a Nova York. De Roma a Ijaci (se espichar um cadiquinho mais chega-se à roça do doutor Paulo Rodarte metido a escritor).
E muita gente amiga. E desafetos. Passamos a viajores compulsivos. A exemplo cito minha pequena jornalista, seu marido Daniel Reis. Que hoje cedo infelizmente levam dois de meus netinhos ao sul do país. Imagino os olhinhos inquiridores do querido Dom a admirar as luzes acesas de Gramado. Assim que naquela cidade gaúcha aterrissar.
Muitos colegas de farda, médicos, como ainda me considero, usam em suas oficinas de trabalho plantas verdes floridas ou apenas enverdecidas, na tentativa de colorir o nosso ambiente de trabalho. E torná-lo mais atraente não só aos olhos dos pacientes como aos próprios.
Eu tenho aqui pertinho de onde escrevo um elefantinho de tromba empinada. Com a patinha da frente levantada. Trazendo no seu bojo uma moita de bambuzinho.
Minha esposa acha de péssimo alvitre ou de mau gosto. Já a minha querida secretária Zaninha cuida tão bem da moita de bambuzinhos que ele resiste e se mantém de um verde luxuriante. Poda as folhas semi mortas. Troca a água da barriga do elefantinho periodicamente. E impede que este adereço. O qual considero que me tem trazido um dedinho de sorte. Seja intimado a voar pela janela do sétimo andar do meu consultório e aterrisse na rua Misseno de Pádua 352. Quase defronte ao colégio Nossa Senhora Aparecida. Pena que nos tempos de hoje esse educandário. De tantas histórias pra contar esteja em ruínas.
Outro vaso verde repousa em outro canto desta sala enorme.
Ontem fui fazer uma consulta de rotina a um colega o qual considero um dos baluartes da medicina não só em nossa cidade como em todos os estados brasileiros.
Foi ele quem me deu trote assim que entrei na mesma universidade onde nos graduamos. Há quase cinquenta anos atrás.
Doutor Fernando Augusto Batista é um gastroenterologista respeitado e respeitador.
De máscara a encobrir-lhe o sorriso tímido ele me atendeu no último horário da tarde de ontem.
Da gaveta de sua escrivaninha antiga ele já ostentava a minha ficha. Já sou seu paciente desde quando ainda era um jovem esculápio.
As minhas queixas eram quase as mesmas.
Depois de um exame meticuloso. De auscultar-me os dois pulmões. Não sei se ele pediu para que eu dissesse trinta e três. De apertar-me o barrigão. De me lembrar que eu deveria ter feito a tal colonoscopia de tempos em tempos. Já que fora apenas uma vez apenas que a fiz.
Ele me levou a sua sala. Sem tirar a própria máscara. Eu, relapso não a usava. Doutor Fernando Batista pediu mais uma vez o tal exame difícil de ser encarado de frente já que uma mangueira não muito fina entra meu anus adentro. E sobe saracoteando intestino grosso acima até parar pertinho de minha boca falante.
Antes de adentrar a sua sala. Na antessala da sua linda secretária. Uma lourinha extremamente simpática. Pude observar. Pela janela semi aberta. Que dá para esta mesma rua. Só que mais acima. Uma samambainha arfante. Quase cianótica. Tentando respirar.
Do outro lado da salinha acanhada. Onde os pacientes esperam sem se cansarem. Outra samambaia mãe olhava de soslaio a filhotinha.
Esta estava mais viçosa e sorridente. Apesar de nunca ter visto um vaso de samambaia sorrir.
Como era o derradeiro cliente a ser examinado tive tempo de trocar meia dúzia e meia de palavras com a samambainha arfante. Pálida e sofrendo por ali estar sem poder avoar.
Foi essa a nossa conversa. Se não acreditarem na minha narração que perguntem a samambainha. Já que a Lilian não estava presente.
“Boa tarde. Pequena menina. Você é filha da samambaia que mostra suas folhas verdes logo ali? Se não. Desculpe-me a pergunta. Deveria endereçar a questão a outra que está logo a minha mão direita. Suspensa em um suporte de vaso de ferro tinto em cor negra. Ao vê-la arfante olhando pela janela. Entre as folhas desta persiana. Percebo-a tristonha. Me parece que a senhorita não se sente muito à vontade presa como um condenado neste lugar escuro e triste. Tenho ou não razão de em assim imaginar”?
“Sim senhor. Como me descobriu aqui? Nunca um paciente reparou na minha pessoinha humilde. Só olham para minha mãezona. Mais linda que uma arara azul. O senhor me parece um médico que muitos pacientes tentam evitar ao chegar a certa idade. Ao passarem dos quarenta e cinco anos. Não é? Tudo que falaste é verdade. Sou infeliz aqui. Vejo passarinhos voarem. Percebo, cá, entre as folhas desta persiana, crianças alegres passarem a caminho de casa. Aqui defronte existe um ponto de ônibus circular. Namorados se beijam. Se despedem. Antes do embarque. E euzinha não me resta outra alternativa senão aqui ficar. Sofro de asma brônquica e falta de ar no verão. E como apreciaria poder daqui, deste vasinho mixo, me desprender, criar asas como os passarinhos. E depois de sair desse ninho. Bater minhas asinhas imaginárias e ir pelos ares. Ai que saudade sinto dos tempos em que sonhar era permitido. E eu sonho tanto. Tanto que quase não durmo”.
Ao sair da sala do doutor Fernando não mais vi a infeliz samambainha. Em seu lugar um bilhete de despedida: “doutor Paulo Rodarte. Obrigado por me escutar. Aquela samambainha triste e cianótica não existe mais. Agora virei um passarozinho de cor azul. Se por acaso o senhor olhar para o alto poderia me ver de novo. Sob outras roupagens. Sou aquele assanhaçozinho avoante. A procura de uma assanhaçazinha que queira me amar de verdade”.
Sonhar é preciso. Ser infeliz não nos cabe. Cada um tem o destino que merece.
Aquele da samambainha não era ser um vaso de samambaia como sua mãe samambaia. E sim um pássaro qualquer. Se elazinha escolheu ser um assanhaço que bom. Já eu não desejo alçar voo como esta plantinha infeliz que ontem encontrei na antessala daquele consultório.
Contento-me a permanecer por aqui. A inventar causos e loisas como essa crônica de hoje cedo. Aqui eu avoo sem sair do lugar.