Quem ainda não vestiu uma roupa pelo avesso deve andar sempre nu em pelo.
A vida de muitos sempre é vista pelo avesso.
Eu mesmo sou avesso a trocar de roupa a cada dia. Do cabide do meu quarto de dormir retiro de lá a mesma roupa que foi dependurada no dia de ontem. Ao chegar do consultório antes das quinze horas. Já que acordo sempre a mesma hora. Todos sabem que durmo pouco. Pois não só a madrugada me inspira pois já aprendi que velho dorme menos. Pois tem muito anos. A vida ou a morte inteira pela frente. Para dormir depois de morto. Um sono diferente. Quando a gente. Se acordamos. Não sabemos pra onde vamos ou se ficamos por aí e por acolá. A puxar os pés dos desafetos ou daqueloutros que nos fizeram algum mal.
Pátria de chuteiras é um livro escrito pelo romancista, cronista, como eu, o grande e irreverente Nelson Rodrigues.
A expressão pátria de chuteiras foi cunhada por ele mesmo. Escritor, jornalista, tudo aconteceu durante o regime militar. Ela surfou na onda e ganhou forças na copa do mundo de 1970. Na intenção de fazer uma campanha que buscava unir o Brasil em torno da seleção brasileira de futebol.
Depois de então, pelo mundo inteiro, a imagem que o nosso amado país estampa é um par de chuteiras de traves gastas. Um sambinha regado à cerveja. E mulatas desfilando na avenida com o bum bum de fora. E a falta de seriedade de quem nos dirige acobertada pela nossa. Se tudo isso não bastasse as nossas riquezas são decantadas. Pena que os países ricos dizem que a Amazônia pertence a eles.
Confesso-me estar nutrindo, por dentro, neste interregno da copa do mundo da Fifa, um sentimento misturado entre deslumbramento e perplexidade.
Sempre uso os pés e as pernas para andar pela nossa cidade. Pelos carros não tenho a menor simpatia. Esse costume já vem de longa data. Como sou médico escritor. E amo me comunicar com meus munícipes. Sempre levo no meu alforje marrom os derradeiros livros de minha lavra. Ontem mesmo tive sucesso na minha empreitada.
Subindo ao alto da cidade. Caminhando sempre. Tentando me esquivar da turba ululante (muitos não votaram no Lula). Já os ditos mais inteligentes votaram no Bolsonaro rsrsrs.
Com a mesma pasta recheada de dois dos meus livros recentes – Por quem os sinos não dobram e Leia com meus olhos. Passei por um velho amigo de reconhecida amabilidade. Jarbas, ex oficial de justiça, com quem sempre mantive uma sólida relação de amizade, foi o primeiro a me permitir carregar um peso a menos. Ele comprou e pagou em espécie meu Leia com meus olhos. A seguir fui ter à loja onde se vende tênis. De nome Mix Tênis. Com duas unidades em nossa Lavras. Foi lá, na Otacílio Negrão onde fiz a primeira catira. Na orelha. O simpático e cordial proprietário. Cujo primeiro nome se escreve Geraldo. Acabou sendo convencido a trocar meu Leia com meus olhos com um par de tênis novinho. Extremamente confortável e macio. Agora mesmo estou calçando-o.
Desci a rua sem um exemplar sequer na minha pasta amarronzada.
Na caminhada passeio afora percebia, olhos atentos, uma multidão vestindo as cores da bandeira de nosso amado Brasil.
Até parecia que a única cor existente seria o amarelo. As outras estavam extintas.
E as lojas sorriam mostrando a nossa banguelice banguela. Locupletando-se deste momento único.
E as camisetas eram vendidas sem esquentar os cabides. As vitrines das lojas feericamente decoradas com esta cor de canarinho da terra depois de deixar de ser pardinho.
Foi quando a minha mente fértil como a terra recém adubada, regada pela chuva que está caindo, avoou pra longe.
O que significa patriotismo? Eu pensava que seria o sentimento de orgulho, amor, devolução e devoção à pátria, aos seus símbolos e ao seu povo. É razão do amor aos que desejam servir ao seu país e ser solidário aos seus compatriotas.
E o tal se manifestava ruidosamente pelas ruas das cidades. Empunhando bandeiras. Trajando verde e amarelo. Entoando cântico de louvor a nação brasileira.
No entanto outro sentimento estranho e não compreendido me molestava.
Por que somente em tempos de copa do mundo o patriotismo se manifesta? Não seria ideal todos os dias? Seriamos, em verdade, uma pátria de chuteiras? Como deixou escrito o grande jornalista Nelson Rodrigues?
Por que somente agora as camisetas amarelas saem das prateleiras para se deixarem ver no corpo dos ditos patriotas. Pra mim o certo seria que as usássemos todos os dias.
Aqui a gente troca tudo. Pena que muitos brasileiros trocam de país por sonharem com uma vida melhor. E por vezes dão com o burro n´água.
E as traves de nossas chuteiras se mostram cada vez mais gastas. Pois elas correm por campinhos não com o gramado tão perfeito como no Catar.
Melhor seria, no meu modesto modo de pensar, que nós, brasileiros e brasileiras. Angariássemos fama ou notoriedade pelo modo de nos conduzirmos com ética e decência. Não nos submetêssemos a desgovernos nada éticos. Onde a máxima de levar vantagem em tudo não fosse o certo.
Pena… Não de galinha ou de frango caipira.
Pena sim. Que inda somos considerados pelo mundo todo o país do carnaval e do futebol.
Melhor seria se fossemos exemplos de cultura e educação.
E fica ao final um singelo se. E se a gente for eliminado da copa? Se a nossa seleção não ganhar as partidas e voltar pra casa sem o caneco?
Seria o fim do mundo ou um recomeço? Eu torço pelo BRASIL. Em maiúsculo sim. Não pela seleção de atletas milionários. Que moram em mansões paradisíacas. Que esbanjam dinheiro enquanto a maioria dos nossos patrícios passa fome.
Pátria de chuteiras trocadas….
Vamos trocar de camiseta sim! Nada contra o amarelo ou o verde. E sim contra tudo que me afronta os olhos e me fere a dignidade.