Ou magnanimidade. Como queiram.
Definida como todo aquele que se dispõe a sacrificar os próprios interesses em beneficio de outrem. Ou seja. Estas palavras unidas subentendem bondade. Amor ao próximo.
E a tal generosidade vem de onde menos se espera.
Como eu não esperava vender meu livro num supermercado da zona norte de minha cidade. Onde geralmente pessoas de menor poder aquisitivo frequentam. Onde pensava prevalecer a incultura. E frequentado por gente mais humilde.
Ao revés de quando almocei no restaurante do meu amigo Emerson.
Local frequentado por pessoas de maior poder aquisitivo. Pessoas sobre as quais imaginava terem o hábito da leitura entre seus prazeres prediletos.
E como a gente se equivoca. Pensa ser uma coisa e aparece outra completamente distinta.
Esse defeito carrego comigo desde que assumi meu lado apressado.
Meu filho advogado. Leitor compulsivo. Que defende seus pontos de vista como uma leoa defende suas crias dos predadores. Um dia. Num comentário sobre um dos meus livros. Deixou grafado: “meu pai é uma pessoa hiperativa. Não consegue ficar um dia sequer sem deitar no papel crônicas ou romances que irão compor livros de sua lavra”.
Isso em parte explica a opinião intempestiva que faço de meus símiles.
Ai! Como por vezes me dá uma vontade imensa de retornar. Em marcha-a-ré. Aos meus cinco anos. Ou menos dois aninhos como dois de meus netinhos. O Dom e o Gael.
E em muitos janeiros já deixei poeira naquela tenra idade.
Já passei dos vinte. Os trinta se foram. Os quarenta passaram-se sem que eu percebesse a feericidade do tempo.
Ao teclar esse meu novo computador o faço com tal velocidade que de vez em sempre as teclas se encavalam. E de uma linha salto para outra. Sem querer.
E entre meus três netinhos me sinto como se tivesse menos de sete aninhos. Pena que no próximo sete de dezembro salto aos setenta e três. E felizmente ignoro quantos anos mais me restam. Melhor nem pensar. E viver o agora. O momento. As horas que o relógio mostra. Já que o que conta é o presente. O passado passou. E não podemos nos transportar a ele numa máquina do tempo.
Há anos tento transformar minha rocinha antes prejuizenta num paraíso.
Aquelas terras de boa qualidade. Mas bastante acidentadas. Onde antes pensava.
Quando aqui apeei. Vindo de terras d’além mar. Que todo médico poderia ser fazendeiro. Mal sabia que vaca não dá leite de graça. Tem de tirar. Assentar-se àquele banquinho tosco. Equilibrando-se para não cair. Tentando equilibrar as contas tomando-se em conta o preço baixo do leite na entressafra. Que retireiro é figura quase extinta. Que não se contenta em receber de salário menos de dois ou três mínimos. E assim fui.
Aos trancos e desbarrancos. Por mais de trinta e cinco anos. Acumulando prejuízos. Levando manta nas catiras. Levando na caçamba da minha caminhonetinha sofrida pelos buracos na estrada ração de dar as vacas. Pela poeira amarela nos tempos de seca. Pelo barro grudento na estação chuvosa.
Até passar a entender que vaca só dá leite aos olhos do dono. Que fazendeiro do asfalto corre o risco de tombar o veículo. E o caminhão leiteiro não chega.
Foi então que uma feliz ideia me assaltou não de revolver em punho. Arrendei meu pedaço de chão a um amigo.
E ele foi capaz de metamorfosear a minha rocinha antes improdutiva em produtora de leite branco. Não como esses leites comprados em supermercados. Onde os conservantes são usados na tentativa de aumentar-lhes a durabilidade. Para que esse leite não azede. E dele não exale uma fedentina de defunto morto e apodrecido.
Foi então que as águas da represa do Funil me tomaram parte das minhas terras. E transformou aquele local em um mar de água doce magnifico.
Agora creio estar prestes a ultimar meu paraíso. Mas a cada dia esse dia se alonga mais e mais.
A cada hora aparece uma coisiquinha a ser feita. O píer não termina. As formigas continuam a devorar as flores da minha Rosa.
E a estrada tem de ser refeita por motivo das águas de novembro.
Sempre fui um apaixonado por cavalos e suas fêmeas.
Amo cavalgar e olhar a paisagem idílica das águas barrentas. No tempo de chuva. Da represa do Funil.
Hoje, prestes a inaugurar idade nova. Tenho um cavalinho mansinho. E duas éguas. Uma delas a ser mamãe. E a terceira a ser amansada totalmente.
Uma delas se chama Felicidade. A de maior custo. Ela é pampa em branco e castanho escuro.
O cavalinho mansinho foi comprado pela minha Rosa ao meu amigo caseiro novo Tom Zé.
E a última. Que vai chegar amanhã à minha rocinha. A que foi catirada em troca do meu cavalo Theo. Que já estava bem velhinho. Como eu. É de pura marcha. Registrada em cartório como Sandrelle.
O cavalinho. Da mesma cor da Felicidade. Ainda não tem nome.
Hoje, à hora do almoço. Almoçávamos no restaurante A casa da Thais.
De repente perguntei ao meu netinho mais novinho de nome Dom.
“Qual seria o nome que ele gostaria de dar a este lindo cavalinho. Se ele seria chamado de Dom ou Gael”?
Ele, sem desgrudar os olhinhos do seu prato de comida logo respondeu: “Gael”.
A isso chamo generosidade. Com uma pitadinha de amor e amizade.
Sentimentos peculiares à infância. Pena que a minha se foi tão distante. Que nem me recordo quanto.