Lembranças…
Coisa esquisita.
É como se o passado nos acenasse e dissesse: “de nada adianta passar uma borracha em mim. Eu volto”.
Não adianta.
Por mais que meu desejo ditasse. Por mais que minha vontade me impelisse adiante. Eu sempre volto. E esse fato não me causa revolta. Pois sou todo saudade.
Ainda me lembro…
Quantas e quantas vezes assim comecei uma crônica. Lembranças.
Daquela casa onde cresci. Dos pais que me deram a vida e eu não os escolhi. Mas se pudesse eleger outros pais não pairam dúvidas sobre quem seriam.
Paulo José de Abreu e Rute Rodarte de Abreu. São figuras perenes embora agora ausentes.
Mas jamais deixaram de ser entronizados bem aqui. No meu âmago. Aqui dentro desta cavidade. Chamada de mediastino. Que guarda o coração e dois pulmões. Lado a lado. Juntinhos.
Lembranças da minha infância. Passada mais da metade dela naquela mesma rua que daqui se avista pelos fundilhos.
Agora reduzida. Por infelicidade minha. Do meu irmão Fred e da minha querida irmã Rosinha.
A um lote baldio. Fechando-lhe a boca um tapume metálico.
Lembranças de quando tinha a idade dos meus três netinhos. Theo já quase aos sete. Prestes a percorrer o mesmo caminho que seu avô. Sua colação de grau acontece no dia do meu aniversário – sete de dezembro próximo de acontecer. No primeiro degrau de sua escada íngreme e tortuosa. Ano próximo Theozinho começa o primeiro ano do primeiro grau. Ai que saudades me toca da querida e saudosa Dona Beliza.
Já o Gael, embora mais distante dos seus priminhos. Quando com eles se encontra tenho de sair de baixo. Pois senão serei atropelado não pelos seus corpinhos. E sim pela vontade que as lembranças de mim. Quando na idade deles. Brincava por aquela mesma rua. Quantas vezes citada nos meus textos diuturnos.
Lembranças são perenes. Por vezes doídas.
Ainda me lembro daquele fatídico embora esperado dia do passamento do meu saudoso pai.
Ele se despediu de nós em meus braços inermes de médico. Depois de um sofrimento mais nosso do que dele. Já que a enfermidade de Alzheimer causa mais dor à família do que no próprio paciente.
Lembranças…
Umas melhores outras ruins. Ainda me recordo de um Natal passado. Não sei precisar qual foi aquele ano. O fato que a arvorezinha. Enfeitada de bolinhas coloridas. De estrelinhas que mais pareciam vagalumes piscantes. Era um pinheirinho ainda verde prestes a murchar. Aos meus pais doado por um comerciante amigo dono de uma quitanda perto de nossa casa. E com que felicidade. Quase não cerrei os olhos durante aquela noite. Ao desembrulhar os presentes. Ainda cria que eles vieram de trenó do polo norte. Trazidos pelo bom velhinho. Que ronronava como um gatinho fanho. Deixando escapar de sua boca cheinha de dentes brancos aquele sonoro “oh oh”. E, num grande pacote encontrei aquela bicicletinha de rodinhas amarelas. Das quais me desvencilhei aos cinco anos. Depois de colecionar não figurinhas de jogadores de futebol e sim incontáveis galos na testa ancha que sempre tive. Que logo desincharam depois de um beijinho açucarado dado por minha mãezinha Rute.
Lembranças vão e vem…
Daquela bola de capotão. Toda remendada. A mesma que uma vez furada rodopiava por aquele campinho cambeta. Traves tortas e feitas de dois bambus equilibristas. Que iam ao chão depois de uma ventania. Não gramado com capricho como os estádios do Catar. E sim de terra batida. Que quando chovia se transformava num charco alagadiço. Igualzinho a um brejinho que, nos tempos molhados, lá pertinho da casa amarelazul. Cenário do meu romance Madest. Onde veio a se despedir prematuramente da vida o meninozinho Claudinei. Aos dois anos incompletos. Filhinho mais novo do meu ex retireiro Custódio e de dona Hilda.
Lembranças fugidias e ainda presentes no meu presente.
Dos amigos da Costa Pereira. Melhor chamada Rua do Cascalho. Onde aqueles moleques arteiros catavam as bolinhas de tênis no LTC. Quando eu disputava partidas memoráveis em dupla com meu pai de um lado. Doutro lado o professor Louzada. Em parceria com a dona Nieta Moreira. Ou com o Yan Van Den Berg (o veio do rio). Que inda vive. Meu amigo do Face. E quem vencia a disputa? Creio que tanto nós quanto eles.
Lembranças ensartadas no meu peito…
Como um punhal de fio afiado. Que, uma vez penetrado não sangra. Nem mata. Mas me causa lembranças. De quando era criança. Saudosas vogais e consoantes.
Só que pena! A vida não me permite viver apenas de lembranças. Mas elas estarão sempre presentes. Já que o passado ainda me pertence. O presente o tenho como uma coisa boa. Já o que o futuro tem a incertitude um acontecimento indefinido.
O tempo não consegue apagar memórias. Ainda bem.