Não por desejar beijá-la agora. Já que o motivo é ser hoje carnaval. E não me leve a mal. E aquele riso. Aquela alegria. Arlequim estava chorando pelo amor da Colombina. Devido a ela ter morrido. Em seus braços. Devido a Covid por não ter se vacinado.
“O silêncio é a única resposta a dar aos tolos. Porque onde a ignorância fala a inteligência não palpita”.
De vez em sempre tentar argumentar com fanáticos. Intolerantes. Com certas pessoas que se acham a última e única bolacha de um pacote repleto de outas iguais. É como se eu fosse um menino. O mesmo que costumava jogar pedrinhas na superfície de um lago. Para ver elas repicarem. Irem saracoteando. Causando um rebuliço naquelas águas plácidas. Até ir ao fundo. E, entretanto, este mesmo lago mostrava no fundo um barro grudento. Um lago vazio. Onde peixinhos tentavam respirar pondo pra fora do barro suas boquinhas ávidas por um cadinho de oxigênio.
Nunca me senti confortável quando, numa parede qualquer, que fosse branca ou tinta de outra cor. Ali estava pregado um cartaz. Um aviso qualquer. Onde a palavra Obrigado tentasse nos impingir uma ordem de comando. Já que, em tempos idos, quando ainda sem saber qual caminho seguir. Passei menos de uma semana numa escola na cidade de Barbacena. Onde esperava, um dia aprender a ser piloto de um caça de um jato que avoasse pelos ares numa velocidade supersônica. Ou mesmo ser comandante de um avião comercial. Com aquele uniforme admirado pelos viajores. Cercado de belas aeromoças. Tendo a enfeitar-me os ombros aqueles riscos em dourado. Indicando se eu seria um comandante ou um reles comissário de bordo.
Na EPCAR. Que ainda existe naquela cidade, passei apenas uma semana.
Não me dava bem com a rigidez do regime militar. Obedecer a ordens sem refutar. Enfrentar filas ao sol para poder me alimentar naqueles restaurantes onde a comida era servida em bandejões. Bater continência ao passar um superior. E me calar sem protestar,
A palavra Obrigado nunca me soou bem aos meus ouvidos escutadores. A ela prefiro uma outra que se escreve Liberdade.
Há tempos lutamos contra esta doença que tem ceifado vidas pelo mundo inteiro.
Parece que ela teve inicio na China. Não sei ainda se fabricado, este vírus mutante, em laboratório ou não. O fato é que a Covid parecia ter seus dias contados. E poderíamos respirar livremente boca afora. Sem podermos mostrar o nosso sorriso mesmo se fossemos desdentados.
Mas, cepas novas de vírus eram noticiadas. E novas vítimas se sucediam. Covas nos cemitérios eram feericamente abertas. Túmulos se amontoavam tristemente.
Enfim apareceu esta vacina milagreira. Uma, duas doses, três, até quatro picadas eram dadas em nossos antebraços. Eu, devido a minha idade e profissão, fui um dos pioneiros, em nossa Lavras, a receber a tal vacina. E, ainda temeroso, como quando menino, perguntei a enfermeira se aquela picada iria doer. Foi um chiste. Não doeu nadica de nada.
Usei máscaras até mesmo quando corria na esteira da academia do meu querido LTC. Era um desconforto danado. Meu fôlego de gato o qual dizem ter sete vidas parecia ir ao solo quando um lutador de MMA recebe um direito direto no queixo e vai a nocaute.
Nas áreas reservadas à saúde já estava acostumado a usar máscara. Não aquela máscara negra dos bailes carnavalescos. Aquela que tentava beijar a Colombina me desculpando por ser hoje carnaval. Não a outra que o mocinho Zorro usava para tentar esconder a identidade.
Aquele personagem era de fato um dos meus heróis. Não os jogadores de futebol que são idolatrados. Seus nomes estampam o verso das camisetas dos rapazolas de nossos tempos atuais. Eu não teria coragem de desfilar pelas ruas vestindo uma camiseta com um nome: por exemplo de um Romário, Edmundo, ou outro qualquer ícone dos pés de barro.
Seria pra mim uma afronta aos verdadeiros heróis anônimos que nem são mencionados nos anais da nossa história.
Voltando ao uso de máscara. Neste vai e vem da moda. Ou se usava mini saias ou saias abaixo do joelho. A tal máscara de repente é desobrigada. Nas ruas ou em lugares fechados.
Numa reviravolta ela aparece de novo. Num vai e vem que me causa pruridos.
Creio que há dois dias apenas o uso de máscara voltou triunfante a ser obrigatório em clínicas ou locais onde aglomerações se dão. Em elevadores concordo em usá-las.
Assim aconteceu com minha pessoinha no dia de ontem. Passei a usar máscaras doadas pelo simpático porteiro do Edifício das Clínicas onde tenho meu consultório. E subi pelo mesmo elevador com duas mocinhas desmascaradas.
Tentei convencê-las da necessidade de tapar a parte de baixo do rosto. E elas troçaram de mim. Ao final de nossa subida juntos. Elas pararam num andar de baixo. Ainda, pela derradeira vez interpelei-as para não se esquecerem de esconder o riso. Pra mim se trata de uma medida preventiva. E as duas ainda me chamaram de mal educado.
Mas, no entanto, parando nos entretantos, a partir de hoje, nesta manhã ensolarada desta sexta-feira, anúncio de mais um final de semana. Se alguém tentar me obrigar a usar máscara bato o pé e recuso. Empino e jogo o cavaleiro ao chão.
Que me perdoem as lindas Colombinas dos meus passados bailes de salão. Que os Pierrôs não se entristeçam pois recém terminou o carnaval. Que aquela linda Máscara Negra não se sinta ofendida.
A partir do dia de hoje. Dezoito de novembro. Conclamo a todos concidadãos que. Se quiserem usar máscaras que o façam. Mas a mim não me intimem jamais a ter de esconder o branco meio encardido da minha linda dentadura. Pela qual paguei um montão de reais.