Home num chora

Já derramei muitas lágrimas vida afora.

Ainda me lembro da primeira vez.

Foi quando. Num Natal há anos passados.

Depois de procurar. Em vão.

Aquela bicicletinha de rodinhas verde maritaca. Presente que encomendei. Na minha cartinha naquele caderninho pautado. Aquele Papai Noel de barbas nevadas. No qual cria em menino. E até hoje acredito. Embora com menos fé. E ela não me foi dada. Foi então que chorei. Chorei copiosamente. Gotas de um líquido salgadinho. Como até agora amo comer petiscos salgados. Como a mesma carne de churrasco feita no dia de ontem pelo meu amigo Tom Zé. Por ter errado a mão no temperar a carne de primeira que levei à minha rocinha.

Se home não deve chorar pergunto a vocês. Por que não?

Pois um chorinho mansinho. Como eu bebê chorava. Uma vez quase. Quando procurava minha querida mãezinha. Ela se fazia ausente do meu quartinho. Todo enfeitado. Paredes tintas como se fosse uma marina. Com barcos com velas desfraldadas ao sabor do vento. E as ondas do mar me levavam a imaginar até quando teria meus pais a me engambelar. A cuidar deuzinho. Até quando eu aprendesse. Uma vez saído daquele ninho. Daquela mesma casa. A qual hoje apenas povoa os meus sonhos. Já que ela foi demolida. Reduzida a um lote vazio. Onde, em breve um prédio será erguido.

Se me indagarem a razão de um home não poder chorar. A vocês indago. Por que não?

Se. Uma vez não mais criança. Passada a minha infância. Quando me pisaram no calo quase. Ao enfrentar o agressor. Um rapagão bem maior que meu tamainho. E ele se desculpou por não ter sido um pisão intencional. Que foi por um acaso do descaso.

Home não chora? Por que motivo não nos é permitido?

Por sermos do sexo masculino? Pois machos deveriam ser realmente valentes. E temos de enfrentar as adversidades estoicamente. Sem medo ou temor. Sem nos dobrarmos como arbustos ao vento. Sempre sonegando sentimentos. Pois quando acontecem as lágrimas elas não escorrem pela nossa face em vão. Elas têm uma razão de existir. Ou alguém nos machucou o cerne. Mesmo que sejamos duros como o âmago de uma amoreira. Árvore muito usada na roça para fazer mourões. De vez em quase sempre choramos.

Que seja por um motivo qualquer. Quando perdemos os nossos amados pais. Quando um amigo se vai. Ou até mesmo naquele momento. Como nesta manhã de hoje. Quarta-feira. Que sucede o feriado na proclamação da república brasileira. Dia cinzento. Parece que no debrum da tarde pode chover novamente.

Se me disserem que home não chora logo contra argumento. Por que não?

Se ontem mesmo chorei. Não aquele choro compulsivo quando bebê chorão. Abria os meus bracinhos na tentativa. Por vezes inglória para que minha mãezinha me pegasse no colo. E me embalasse. Não como se faz com presentes. E sim para me ninar. Contar pra mim historinhas como o do lobo mau que ia pela estrada afora para tentar comer a menina do chapeuzinho vermelho. E ele só não a comia pois ela corria pela estrada afora. E o deixava a comer poeira de tanta pressa que ela tinha.

Home não deve chorar? Se até hoje meus olhos lacrimejam chorosos. Por qualquer motivo. Este fato de chorar muito atribuo ao meu excesso de sensibilidade. Sentimento inerente a poetas e escritores. Pessoas dotadas de sentimento. Que tentam mudar o mundo substituindo as guerras por uma bandeira branca de paz.

Home não chora? Se já chorei tantas e tantas vezes. E continuo um irreparável chorão.

Não apenas e tão somente acontece alguma tragédia neste mundo afora. Como o recente ataque russo a um país da Otan.

“Hoje aqui, oiando pra vancê, meu pai, chorei. Foi durante uma queda que ele me disse: oia, meu fio, se levanta, vorta a se erguer. E nois foi se oiando. Oio nos oio. E um abraço se deu. E um disispero foi tomando conta e mim. Pois naquela noite vancê se foi. E me disse: home num chora não. Anus dispois minha mãezinha se foi. E eu chorei. Embora vancê. Muitas vezes me tenha dito: home não chora. No que agora não acredito. Pois memo home feito. Deixado de sê minino. Choro e rechoro. Como o queijo ressora. Si fresco deixado fora da geladeira. E eu me alembro. De quando minino. Minha galinha franguinha Filó. Sumiu do galinheiro. E, dias dispois foi encontrada dela só penas e o bico. Tarvez tenha sido comida pelo gavião come pintos.  O mesmo marvado que escapou de um istilingada que acabô errano no arvo. E como chorei. Memo seno home. Quase feito”.

Home num chora?

Ah! Agorinha memo tô prestes a chorar. Por que motivo?

São tantos deles que esta foia de paper não dá conta de deixar iscrito.

Pois minhas muitas lágrimas irão deixar um borrão moiado.

Nessa foia de paper. Neste teclado do meu computador negro cumo uma noite iscura. Que me fazia mijar na cama quando criança minino.

 

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