Que dia é hoje? Alguém perguntou a um menino.
Este menininho era o Toninho.
Em verdade seu nome inteiro de batismo era – Antônio José Pedroso.
Filho do veio Pedrosão e da dona Pedrosa.
Seu pai ainda é vivo. E sua zelosa mãe a ele faz companhia.
E, quando o tempo a ela permitia a esposa do veio Pedrosão. Lá ia ela em visita ao seu filho amado. O qual vivia como um eremita na casa antiga da fazenda herdada do pai do seu paizão.
Faltava ao já adulto Tom Zé a tampa da sua panela.
Segundo ele me disse. Já que ele aprendeu a cozinhar. A faxinar. A ser um faz tudo.
Já que a solidão era a sua única companhia fosse no frio inverno ou no escaldante verão.
A sua ex esposa e companheira. Segundo me disseram os boateiros.
E como a fofoca anda mais veloz que o casal de seriemas correndo pela estrada. Quando um carro passa.
As boas e não tanto línguas mais afiadas que o fio da faca recém amolada no esmeril.
Costumam dizer que as disparidades entre meu amigo Tom e sua esposa eram tão avassaladoras quanto a tempestade descendo montanha abaixo. Levando tudo de roldão. Enchentes de aluvião. Causadores de desastres em tempos chuvosos. E ao mesmo tempo a mesma chuva mansa faz tão bem à terra ressequida nos tempos de seca. Quando o fundo do açude trinca e deixa ver peixinhos saracoteando no barro mole. E muitos morrem por falta de oxigênio.
Aquele consórcio matrimonial não durou mais que a florada dos ipês.
E ela deixou meu amigo Tom de calças sem lavar. Cuecas furadas sem cerzir.
A comida esfriar na trempe do velho fogão a lenha. E em companhia dele só.
Foi então que o nomeei meu caseiro. Já conhecia seu bom humor. Sua capacidade laboral.
E sua idoneidade moral.
Sabia também que ele de quando em sempre falava pelos cotovelos. E tinha acessos de ira. Mas nunca dele soube que Tom houvesse faltado ao respeito a qualquer patrão que me antecedeu.
Um dia, já estava em falta de um amigo que cuidasse do meu Solar Paulo da Rosa fui à porta da casa do Tom Zé que bati. Na esperança que ele desse conta de fazer. Nas horas extras.
Um servicinho na parte que me coube na minha rocinha hoje arrendada ao amigo Betão.
E entramos em acordão. Não acordeon como ele costumava dizer.
E acertamos o valor do salário em um mil e duzentos reais.
E Tom não carecia cumprir oito horas exatas de trabalho. Bastava manter a minha parte de dentro da tela arrumadinha. A grama bem aparada. Os meus dois cãezinhos bem alimentados e saudáveis. A piscina mais ou menos limpa. Faxina dentro da casa não fazia parte do trato.
Mas, como atividades extras. Já que não sei cozinhar. muito menos faxinar, acabaram sendo inseridos na pauta em questão. E como Tom Zé cozinha e faxina muito bem.
Já hoje, dia quinze de novembro, feriado nacional, dia da proclamação da república brasileira, fui até ao meu solar na intenção de consolar o amigo Tom.
Ele estava meio taciturno e cabisbaixo. Amuadinho mesmo.
Senti pena dele durante a nossa conversa ao celular.
Ao chegar por lá. O céu nublado em alta temperatura. Indicava mais chuva ao cair da noite.
Tom Zé já estava com a sua motocicleta meio atolada no barro.
Foi custoso desatolá-la.
Depois de ir até o curral. E ver o Betão, sua esposa e o Binho ordenhar a tratar das vacas leiteiras. Fomos. Tom Zé e eu até a minha casa à beira da represa do Funil.
Levei carne de primeira para uma churrascada. E cerveja da minha preferência. Suadinha saída do congelador.
Tempos depois chegou. Não para continuar o serviço do píer o Giovani Bambu.
Com o seu sorriso de orelha a orelha. Com o seu bom humor costumeiro.
O churrasco era da incumbência do amigo Tom. Ele errou no tempero.
Quando saiu a primeira remessa o alegre Giovani não suportou o excesso de sal. E acabou dando aos dois cães do amigo Tom Zé.
E como o bem humorado Tom sentiu-se desconfortável com a sua errata. Churrasco em definitivo não era da especialidade do não tão jovem Tom.
Por azar maior. Quando o péssimo churrasqueiro deu uma mordida num pedaço de picanha ele escafedeu-se de nossa vista.
E dois dos seus dentinhos da frente pularam fora de sua boca.
Ficou tal e qual uma pessoa com aquele sorrisinho um mil e um.
Antes de partirmos de volta à cidade perguntei ao Tom como seria a república onde ele gostaria de morar. Já que na data de hoje celebra-se a nossa proclamação.
E ele, com aquele jeitinho banguela, me confessou, entre dentes faltosos: “quer mesmo saber? A minha república teria outro nome. quem sabe – Felicidade. E outro tipo de gente a morar com a gente. Seria uma república de verdade. Não uma republiqueta de fundo de quintal. Onde de fato predominasse a verdadeira democracia. Onde o nosso presidente não metesse a mão na cumbuca e dali tirasse propina e entrasse dinheiro a rodo. Na minha hipotética república o povo seria ouvido e nossas opiniões respeitadas. Não existiriam distinções raciais, de credo ou condição social. E a gente fosse considerado. Além de nossas fronteiras um país sério. Igualitário, fraternal, cada um cônscio de suas responsabilidades. É esse o país com que sonho e almejo. Não este que me causa vergonha quando daqui me ausento. Que pena” ….