Pra que tudisso dotô?

Entre patriotismo e fanatismo um abissal abismo os separam.

Fanatismo político seria uma doença? Moshé Bergel diz que sim.

“Cada comportamento que gera danos físicos e mentais a si próprio e a terceiros não é uma característica de transtorno mental? Não se trata de uma psicose? Um comportamento que destoa do padrão e oferece riscos ao individuo que se comporta de maneira tão ardorosa e, por vezes inconsequente se trata de uma enfermidade sim. Fanatismo político, uma defesa obsessiva, acrílica e apaixonada por uma crença ou comportamento na qual não se admite o contrário. Isto é, refutação. Dá pouca abertura para a tolerância e ideias contraditórias. O fanático em verdade passa do ponto. E enfrenta sérias dificuldades para se conter ou não consegue mudar de assunto”.

E esse psicanalista paulista vai além. Leiam na íntegra o que ele diz.

Já o verdadeiro patriota é todo aquele que oferece a própria vida ao seu país. No nosso caso. O Brasil. Ele veste verde e amarelo. Sabe de cor e salteado cantar cada verso do hino nacional.

Pode entrar em conflito com quem fala mal de nosso país. No entanto raras vezes vai às vias de fato. Entre ele e o fanático existem limites superáveis.

A gente pode ser chamado de patriota sem absolutamente ter como fanatismo o nosso dogma.

Não precisamos ir às ruas. Em atitudes de protesto ensandecidas. Ululando ou bolsonariando em quem votamos. Digladiando-nos como as pugnas que a história nos conta nas arenas como o Coliseu. Entre gladiadores e feras. E, a plateia louca varrida. Ou levanta o dedo dizendo que o derrotado deve morrer ou ser poupado.  E o vencedor recebe uma coroa de louros. E recebe o veredicto: a Cezar o que é de Cezar. Roma é a capital do mundo. Fica cá uma observação pertinente. Desta vez a belíssima Itália foi eliminada da copa do mundo de futebol. Quem sabe da próxima vai ser campeã.

Ontem de tarde. Quase noite. Ao descer a pé em direção ao Tiro de Guerra. Na intenção de assistir ao filme Wakanda. Ou como preferirem o Pantera Negra. O segundo da série. Já que o primeiro ator principal partiu rumo a outra Hollywood em dias passados. No passeio próximo a Selt uma barraca improvisada estava armada. Não com armas como defende o presidente a ser deposto. E sim abrigados das intempéries um grupinho animado proseava. Por ali passei a passos apressados. O horário do filme estava prestes a começar.

Depois do final da sessão voltei pelo mesmo passeio.

A mesma tenda ali estava. Creio que com outros patriotas em atitude pacífica de protesto contra o presidente eleito. E eles se revezavam.

Na noite de ontem entre eles parei um cadinho. Já conhecia alguns deles. Trocamos duas dúzias de palavras. Apresentei-me como um patriota não fanático. E não disse a eles que o assunto política não me interessava. Já havia virado a página ou mudado o assunto.

Desde quando adquiri bom senso e um bom tirocínio assuntos como- politica, futebol e religião prefiro ficar alheio.

Se apreciarem discutir sobre assuntos da minha especialidade estou à disposição. Assim como a literatura me seduz.

Em menos de cinco minutos após me despedir daquela turma animada cheguei ao meu apartamento.

Dormi mais ou menos. Numa cama macia ao lado de minha querida esposa. E eles, os tais patriotas fanáticos se revezavam entre eles em vigília cochilando num colchonete mole cobertos por um lençol improvisado. Não sei se nesta hora cedo a mesma barraca ainda está armada.

Foi quando me lembrei do meu cumpade Cícero. Cumpade memo. Pessoinha sem defeitos. Um dia perguntei a ele: “Seu Cícero. Qual o seu maior defeito”?

E ele me respondeu: “bondade dimais”.

Aquietei-me, pois, eu tenho defeitos a encher mais de dez latões de leite pelas bocas.

Num dia. Era uma sexta-feira. De tarde. Quase noite abrindo a boca de sono.

Ao passar junto a porteira onde costumava se assentar meu cumpade Cícero.

Parei um cadiquinho para jogar conversa fora.

Contei-lhe o causo do grupo de patriotas que faziam um protesto pacífico tentando anular o resultado da última eleição. Da qual foi vencedor um candidato condenado por crime de corrupção ativa e formação de quadrilha. Não aquelas quadrilhas que se formam inocentemente nas festas juninas. Só no Brasil mesmo isso acontece.

Depois de comentarmos sobre o tempo. Sobre a vaca Braúna que pariu a noite passada. Debaixo de uma tempestade tempestuosa. Sobre o precinho mixuruca pago pelos laticínios justamente na entressafra.

Ao falar sobre o último pleito. Comentando an passant sobre o nosso presidente que vai ser empossado no próximo janeiro.

O cumpade Cícero coçou a barba pioenta. E disse, pitando um paiero apagado: “pra que tudisso dotô. Num vai diantar nadica de nada. U home vai sê presidente. Que doa o dente de quem duer”.

É. Concordo em número e degrau com o cumpade Cícero. Pra que tudo isso? Aceita que dói menos.

 

 

 

 

 

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