“É assustadora a forma como uma das dores maiores pode transformar nossa vida. Quem diz que a dor não muda você é por que certamente nunca teve um momento ruim a ponto de não se reconhecer mais e de se questionar sobre tudo. Pois existem dores que tiram tudo de você. E depois delas você nunca mais será a mesma pessoa”. Jay Leonardo
Hoje, depois de um almoço nas barbas vizinhas da linda Macaia. Num restaurante que leva o mesmo nome daquela cidadezinha que quase foi engolida pela represa do Funil. Como sempre faço levo a minha pasta recheada de meus novos lançamentos livrescos. Não na intenção de me pavonear. E sim de passá-los adiante. Já que, no meu entender, de nada vale escrever uma montanha de livros e vê-los tristonhos enfileirados apertadamente na minha estante que fica por detrás de onde escrevo.
Naquele belo restaurante. De propriedade do meu amigo Emerson. O mesmo que me presenteou com um cãozinho filhote batizado pelo nome de Clo. Em homenagem a amigo pau pra toda obra de nome Clodoaldo.
A mesma pasta ficou menos pesada. Um livro foi dado de presente a uma sua cozinheira que neste domingo estava ausente. Mesmo assim meu Mugido de Vaca e Cheiro de Curral ali ficou.
Não consegui vender mais nenhum exemplar. Minha pasta cor de burro fugido foi comigo a um supermercado na zona norte da cidade que tem o nome da linda BH.
Ao passar pelo caixa onde idosos têm preferência. E eu e minha esposa esperávamos noutra fila pequena. Havia um casal de idosos. Um senhorzinho e uma senhora. Pelos meus cálculos sempre imprecisos julguei tratarem-se de marido e mulher. Acertei na mosca. Não um tiro de espingarda. Foi sim um belo tiro a queima d´olhos. Já que aquela idosa. De cabecinha branca como a do seu bom velhinho. Ao ver os meus dois livros optou por adquirir o de crônicas.
Sob o título de Leia com meus olhos.
E ela pagou à vista em cash. Não fez pix como a maioria faz.
Antes de voltar ao meu apartamento. Minha estimada Rosa. Usando-me com chofer e pagante de nossas compras. Me fazia ver que estava apressada. Como via de sempre.
Fomos à casa da dona Valda. Uma simpática senhora que mora bem distante do centro da cidade.
Ela faz goiabada mesmo fora do tempo das goiabas. Não sei como ela consegue. Na sua residência moram não sei ainda quantos filhos ou netos e até mesmo aparentados.
E lá não vi nenhuma goiabeira. Mangueiras sim. Ela tem aos montes. A casa da dona Valda mais parece uma fazendinha.
Não uma rocinha prejuizenta como a minha. Pra onde desejo morar na maior idade. Não sei quando isso será. Já que nela estou faz um tempão.
Logo à entrada. Passando por um velho portão de lata.
Uma penca ainda por madurar de pixotes jogando bola. Se contasse daria um time inteiro de futebol e ainda sobravam mais de dez para o segundo tempo da partida.
Um delezinhos me chamou a atenção.
Ele ia de vento a proa numa motinha de rodinhas meio tortas.
Com a cabecinha encoberta por um pano de cor laranja da ilha. Será que existe tal cor?
Não tive como não me esquivar da sua pessoinha com traços inequívocos da trissomia do cromossomo vinte e um.
Ele nem tchum pra mim. Partiu acelerando sua motoca a vinte por hora.
Uma vez dentro da casa da fazedora de goiabada mais dez ou mais pequenitos ali estavam.
Depois da compra feita. Por uma quantia modesta. O que tinha na carteira ainda dava para comprar dois ou mais quilos.
Foi seu filho. O mesmo que, da vez anterior me passou seu zap. E como ele entende de celular.
Quase tanto ou mais que eu entendo de Urologia ou da língua portuguesa. Tão mal falada e vilipendiada em nosso perdido Brasil.
Foi quem me disse esta frase: “sabe. Meu amigo doutor. Aquele meninozinho nasceu com atrésia de esôfago associado a outras patologias próprias do mongolismo. Ele passou quase um ano inteiro na capital do nosso estado. Teve de ser operado incontáveis vezes. Depois de ter recebido alta elezinho ainda nos dá trabalho. Sofremos com ele. Eu e nossa familia. Manezinho. Não sei exatamente qual o seu primeiro nome. É nosso motivo maior de sofrimento e de alegria ao mesmo tempo. Não sei o que seria da gente sem ele”.
De lá saí imaginando o impossível.
Como podem coexistir. Lado a lado. A dor e a felicidade ou alegria ao mesmo tempo.
Ao ver o Manezinho sorrindo não meu coube outra conclusão. Pode sim. E muito…