Se um dia me perguntarem…

Até os meus mais de setenta anos quantas perguntas a mim endereçaram.

“Onde você vai, meu filho. Não se atrase muito pois você tem de ir à escola? Não fique chateado com aquela nota baixa em matemática? Na próxima prova você deve se dedicar mais aos numerais. Embora saiba que você aprecia mais as letras que os números eles também são importantes para a vida que o espera. Uma vez que, neste país onde creio que você não escolheu para nascer talvez fosse outro onde o prazer que a leitura enseja seja mais enraizado no cérebro de seus concidadãos. Mas, os nomeados números são essenciais para fazer contas que tudo vai bem. Embora saibamos que nem tudo que reluz é doirado como ouro. E, por certo, você deve estar pensando, quase um mês depois das eleições. Quando o seu candidato foi preterido e acabou vencendo o disputado pleito exatamente um outro de menos capacidade para gerir os destinos do seu amado Brasil. Mas, a voz do povo deve ser ouvida. O clamor popular fez ganhar o tal Lula. Que seja feita a vontade do bom Deus e daqueles eleitores que cultuam a cor vermelha. Meu filhinho adorado Paulinho. Não se apoquente com as derrotas que pela vida afora a você impingir. Assim caminha a humanidade. Entre sucessos. Entremeado de derrotas a gente vai levando a vida pelo cabresto. Como aquele potrinho meio arredio que lhe demos de presente quando você contava com apenas doze anos. Que algumas vezes o mandou ao chão. Ainda não tanto manso como deveria estar depois de ter sido amansado pelo seu tio avô. Na rocinha da Cachoeira fincada aos pés da serra do Peão. Município da linda cidade de Perdões onde se preserva o casario antigo. Terra dos Alvarengas. O sobrenome de sua mãezinha adorada de nome Rute. Que nos dias de hoje foi levada a morar no céu junto ao seu querido pai Paulo José de Abreu”.

E assim as perguntas foram tiquetaqueando vida afora. E até agora elas continuam sendo feitas a sua pessoa. A qual muitos consideram erudita.

Bem sei que você tem passado por uma crise de identidade. Não se convenceu de quem em verdade és. Se um médico especialista em rim e vias urinárias e genitais. Um escritor que ainda não é tão conhecido fora dos limites lindos da Serra da Bocaina. E, mais ao norte, pois o Sul por aqui fica a mão direita.  E o Norte exatamente onde antes existia uma ponte famosa que nos permitia atravessar as águas revoltas do Rio Grande. Que nos tempos de agora cercearam-lhe o desejo de ir adiante sempre. Embora sabido e ressabido que as águas de um rio não retrocedem. E seguem em frente no intento de chegar ao mar. Que faz parte do oceano.  Esse mesmo lago imenso como ainda lhes são as dúvidas. De quem porventura eu ainda não sei nada do que serei de hoje ao minuto seguinte. Na ocasião. Que seja num futuro longínquo. E não numa data próxima. Estarei a me despedir da vida. Dando adeus a essa vida maravilhosa que tenho levado.  Uma benção que não me canso de repetir “obrigado meu bom Deus”.

Se um dia me perguntarem onde gostaria de ter nascido responderia.

Seria nesta cidade tão linda? Conhecida pela alcunha de cidade dos ipês e das escolas.  Ou noutra cidade que me viu nascer. Foi numa cidade imortalizada por Lamartine Babo na sua linda canção Serra da Boa Esperança. Esperança que encerra o coração do país um punhado de serra…

Exatamente em sete de dezembro de 1949 minha mãe me acolheu nos braços eu menino. Choramingas como até hoje sou. Mas, por pouco tempo ali fiquei. Até quando. Em 1955 para aqui me trasladei. À minha Lavras onde a Tipuana ainda me encanta mesmo amuletada. Tendo raízes firmemente inseridas na praça Augusto Silva. Nos dias de hoje bem cuidada pela nova administração municipal.

E, se ainda me perguntarem onde gostaria de ter nascido. A resposta seria dúbia. Seria aqui mesmo? Ou na Boa Esperanca onde assisti. Ainda de olhinhos semi fechados. A beleza do mundo aqui de fora do útero de minha saudosa mãe.

Lavras de fato é uma bela madrasta. Que acolhe os forasteiros com a mesma hospitalidade mineira dos que aqui nasceram.

Mas, como em todas as cidades Lavras tem defeitos e virtudes. Aqui o ensino e a educação recebem um tratamento digno de aplausos e não de apupos. Que o tráfego congestiona como se fossem duas narinas entupidas pelo secume do ar. Sua localização é privilegiada. Onde não caem geadas maltratando os cafezais.

Embora tenha aqui vivido os melhores anos de minha existência de Lavras não tenho queixumes. Ao revés. Cá quase tudo me causa encantos. Desencantos são raros.

Mas, quantos mas ainda virão.

Quando aqui em definitivo conferi minhas nádegas ao assento. Finquei os pés e o bisturi. Quase do lado de cá não saí. Em algumas ocasiões fui à congressos de minha especialidade. Mas logo retornava ao seio maternal. Já com imensas saudades.

No entanto. Se me perguntarem. De novo. Onde gostaria de ter saído do ovo?

Diria e repetiria mil vezes. Seria na linda cidade vizinha de nome Ijaci.

Se contasse nos dedos das duas mãos quantas vezes já fui àquela cidade de imenso potencial turístico. De uma topografia plana. Ao fundo emoldura-a uma linda serra. Tanto ou mais bela que a nossa Bocaina. Perderia a conta de quantas foram.

Foi lá. Na zona rural pensei que todo médico poderia ser fazendeiro. Sem bem entender a razão de o leite ser branco mesmo egresso de uma vaca pretinha. Se por acaso vaca de três peitos dá leite como as de quatro tetas perfeitas. Se quando a égua dá cio ela pisca a vagina. E, mais ainda. Que vaca quando pare verte a cria num lugar escondido. E quantas mantas eu levava na troca e destroca de rezes paridas ou em vias de. Aprendi muito com gente da roça. Não só que lá um aperto de mão tem mais valia que mil notas promissórias. Que uma folha de cheque em branco vai ser preenchida com o valor comprometido. Que em gente vinda da cidade se deve duvidar. E tantas coisas e loisas que tenho aprendido até nos dias de agora que meus dedos todos das duas mãos inteiras não dão conta de contar ou recontar cada momento divino ou de constrangimentos ali passados.

Se um dia me perguntarem onde gostaria de ter meu umbigo enterrado decerto seria na bela Ijaci. Debaixo da sombra de uma jabuticabeira cheinha de frutinhas madurinhas. E, do alto de um galho fino. Chupando jabuticabas me equilibrando para não cair. Disputando as mais graúdas e doces com marimbondos e abelhas abelhudas. Aí sim. Não me tirem de lá jamais.

Foi em Ijaci que aprendi a ter verdeiros e confiáveis amigos. Vou citar alguns. E me perdoem se me olvido de outros.

Primeiro foi meu ex retireiro Custódio marido da dona Hilda. Famosa nos arrabaldes por fazer goiabada no tempo das goiabas. Ele se aposentou depois de anos e anos de trabalho mole. E ainda vive na sua Ijaci querida. Numa cidadezinha anexa que herdou o nome de Pedra Negra.

Não poderia deixar de falar o nome de seus quase oito filhos. Pois até hoje com alguns deles convivo. Em raras ocasiões.

O obeso Flávio se foi para sempre? Não sei se o para sempre é forte demais. Era um belo cozinheiro. A derradeira vez que o vi foi aqui pertinho do meu consultório. Depois me disseram que o amigo velho havia partido.

Era, e ainda sou vizinho de uma fazendona enorme de um senhor da bela Nepomuceno. Foi lá que, pela vez primeira tomei de amizade verdadeira com o velho amigo Betão. Pai de quatro filhotes. Duas mulheres hoje mães. E dois rapagões que mais se parecem dois armários de portas abertas.  Fortes como cerne de amoreira. Em pleno viço. Antes que os cupins e traças se apoderem de sua madeira nobre.

Já se passaram tantos retireiros por minha rocinha. Antes prejuizenta e agora em mãos que entendem de vacas e suas crias ela passou a não mais prejuizenta. Creio que o Betão agora tem lucro com a sua atividade leiteira. Embora muitos pensem que vaca dá leite de graça. Saibam que não. Pra ter renda com retiro tem-se de não tirar os olhos das ruminantes. Nem durante a noite ou ao raiar de um novo dia.

Se um dia me inquirem se em qual comarca gostaria de despontar rumo à vida diria. Por certo seria na zona rural de Ijaci.

Nas bandas de lá tenho vizinhos pelos quais tiro o chapéu. Seu Zé Antonho. Pai e avô de uma penca de filhos e netos. Não sei se ele tem bis. É um destes senhores por quem tenho a maior admiração e estima. Ele já me inspirou tantas crônicas que nem sei quantas serão.

E o Tiãozinho do Aristeu. Marido da trabalhadeira Vanda. Pai da Vanessa. Da Valéria e do Gilmar. Homem valente e trabalhador que. Infelizmente um acidente fez com que ele perdesse uma perna. Que, em absoluto não lhe faz falta. Pois ele vive sorrindo de dentes brancos e perfeitos como se nada houvesse acontecido.

Um cadinho mais adiante da rocinha do personagem antes citado mora o meu novo caseiro Tom Zé. Filho do Pedroso, velho amigo, que gosta de uma boa prosa. Tom é pau pra toda obra. Tira leite de pedra. Faz cada cerca de arame farpado que nem mosca passa. Embora seja um resmungão confesso por ele tenho verdadeiro afeto. Ainda vou arrumar uma tampa para a sua panela vazia. Já que hoje vive solitário naquele velho casarão, carecendo de remodelação premente.

Todos ali são aparentados no Córrego do Paiol. Um amontoado de sitiozinhos à beira da estrada que leva a minha roça encantada.

Já na cidade da bela Ijaci coleciono novas amizades.

Vou declinar apenas alguns nomes. Os demais não foram esquecidos. Apenas não tem mais espaço neste texto para falar seus nomes de batismo.

O Bruno da Padroeira, uma loja perto de um posto de gasolina. Merece menção não somente por sua idoneidade nos negócios e na presteza com que ele atende aos meus pedidos. Não existem. Mesmo na minha Lavras, quem se rivalize com seus precinhos camaradas.

Já o Max, da casa de material de construção costuma levar para a minha rocinha sacos de cimento. Areia e brita. Com a mesma cordialidade costumeira. Um defeito grave na sua índole é que ele sempre me diz. Quando a ele mostro um livro novo na intenção de vendê-lo. Ou fazer uma catira com um de seus produtos. Ele me afirma não saber ler. Palhaço.  Sabe sim. Sabichão que sempre foi.

Outros amigos velhos ou neófitos ficaram de fora dessa minha crônica de hoje. Uma sexta-feira linda e ensolarada.

Ah! Não poderia jamais deixar de fora outros novos amigos.

O Giovani Bambu já foi jogador do Fabril Esporte Clube. E agora ainda joga um bolão nos píeres que faz com maestria de maestro regendo um coral bem ensaiado e afinado.

E o Tonho? Pedreiro que se faz acompanhar de seu sogro. De repente não me lembro seu nome. Peço humílimas escusas ao sogro do assentador de bloquetes que no dia de hoje deve terminar o serviço.

Já que tinha dúvidas sobre minha verdadeira identidade. Já que de tanto usar o dedo indicador da mão direita perdi a digital.

Agora não mais me restam deudas sobre em qual cidade gostaria de ter nascido.

Indubitavelmente a minha cidade berço seria no município. Melhor dito- zona rural de Ijaci.

 

 

 

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