Façam o que quiserem. Mas não deixem de fazer.
Um dia uma meninazinha pequenina perguntou a sua mãe: “mãe, pra onde ele foi”?
Se quiserem que eu responda penso antes de assim o fazer.
Se alguém ousar responder antes da minha resposta oiço a versão do outro. Em sepulcral silêncio. Emudeço-me. Calo-me. Guardo-me dentro de minha pequenez. Antes de tentar impor àquela meninazinha com quem está a razão.
Mas, se for a pergunta uma questão de vida ou de morte, aí a tal resposta deve ser bem pensada. Já que até a presente data não se sabe se existe em verdade vida depois da morte.
Ainda me lembro de quando meus pais morreram.
Numa casa abaixo da nossa, onde morava meu tio Chico Rodarte, e sua esposa tia Sonia, com sua ninhada de filhos, meus primos, são quatro. Nem sei se no jardim, pois lá não havia um jardim. Pois a casa beirava o passeio. Existia sim uma grande horta.
Ali moravam várias árvores de densa copa. Era uma hora ensombreada. Não tinha um só pé de jabuticaba como na horta da casa de cima. Onde meus pais, meu único irmão Fred, minha querida irmã Rosinha, e eu morávamos.
Mas, parece que naquela horta havia um jardim mal cuidado. Não tão lindo e bem cuidado como na casa dos meus avós Rodartino e vó Belica. Que cultivava rosas amarelas naquele jardim suspenso. Pois a segunda casa da Costa Pereira. Depois da velha caixa d’água da Copasa ainda permanece no mesmo lugar inapropriado. Onde meu pai edificou o prédio de mesmo nome do meu avô. Daqui pode ser visto pelos fundos. Ainda hoje. Nesta quinta ensolarada. Um dia não apropriado para morrer.
Retrocedendo um cadinho. Ao parágrafo anterior. Quando eu escrevia sobre a tal flor azul. A mesma citada na crônica de ontem. Os agapantos. Ou flor de defunto. Pois ela floresce nas proximidades do dia de finados. Agora cedo. Ao chegar a minha oficina de trabalho. Ao abrir o WhatsApp. Lá encontrei uma mensagem falada da minha tia Sonia.
“Paulinho. Na minha velha casa. Hoje reduzida a um lote vazio. Havia várias flores de agapanto. Meu marido. Seu tio Chico. Quando se avizinhava o dia de finados levava flores dos agapantos a enfeitar os túmulos do campo santo. E ia distribuindo flores azuis pelos túmulos dos aparentados. E, aquelas florzinhas azuis logo murchavam. Pois elas não eram bem cuidadas como as roseiras de rosas mescladas entre amarelas e lilases de sua avozinha Belica”.
Voltando a pergunta anterior. Feita pela meninazinha a sua mãe. Pois crianças têm a curiosidade de um escritor. Que ama bisbilhotar sobre a vida de outrem. Ou cria histórias. Verdadeiras ou fantasiosas. Para comporem seus livros. Da mesma forma que um pintor tinta em seus quadros paisagens magníficas. Nascidas ou não de cenas verdadeiras ou resultados de sua mente criativa.
“Mãe. Pra onde ele foi”?
Eu logo responderia, caso fosse um caso de morte. “Minha querida filha. Não sei”.
Pois cada vez mais penso que sei logo me vem à cabeça tantas coisas que não sei.
Ignoro se exista vida após a morte. Se me perguntarem onde hoje moram meus pais. Declaro que provavelmente habitam lá no alto. No céu azul que hoje amanheceu.
E se me questionarem a razão de existir a tal palavrinha saudade. Digo logo. Sem titubear: “ela foi criada para definir sensibilidade. Uma coisa que sentimos e não sabemos o porquê”.
E se porventura da desventura alguém quiser fazer de mim um ícone da literatura. Que o façam em vida. Já que depois da morte pra mim de nada adianta tecerem encômios ao meu defunto. Eu não saberei idenficar quem chorou a minha ausência. Reticências…
Se, palavrinha de natureza interrogativa. Que enseja tantas coisas e lousas. Que tanto pode ir por um caminho ou se perder nalguma encruzilhada.
Se quiserem fazer de mim só tecendo qualidades sobre a minha pessoinha. Pra muitos inexpressiva. Já para meus pais tão importante pois eles me brindaram com a vida e ensinamentos. Que o façam enquanto estou por aqui. A admirar a beleza e magnitude deste dia que nasceu de um céu azul de me fazer deslumbrar. Mais tarde pode chover. E o mesmo céu ensombrear. Como as árvores da horta do meu saudoso tio Chico Rodarte davam sombra aos agapantos. E eles carecem de algumas horas de sol para conferir a cor azul de suas flores.
Se por acaso quiserem dizer de mim que eu seja um homem muito à frente do seu tempo. Como disse a minha filhota pequena jornalista Bárbara. Que o façam no momento presente. Pois palavras elogiosas não só nos enaltecem a minhalma como da mesma forma as considero um presente.
Ontem subiu ao céu um homem a quem admirava muito. Rolando Boldrin se foi.
Um grande poeta e um narrador genial. E foi ele quem me inspirou a escrever esta crônica de hoje cedo. Naquele poema de Vinicius de Morais – “ser seu amigo”.
“Se não quiser chorar não chore. Se me elogiarem demais corrija o exagero. Mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo. Se sentir saudade e quiser falar comigo fale com Jesus. Foi meu amigo. Acreditou em mim. De vez em quando dê uma espiadinha na direção de Deus. Você não me verá. Mas decerto estarei juntinho Dele. Amizade só faz sentido se trás o céu pra mais perto da gente. Eu não vou estranhar o céu. Por ser seu amigo já é um pedaço dele.”
Se quiserem fazer comigo alguma coisa de mais valia. Façam-me um favor. Que falem não somente bem de minha pessoa. Que enalteçam não apenas as minhas virtudes. Mas não deem tanto valor aos meus defeitos. O que diferencia as boas pessoas das más são as ações e reações que porventura deixaram gravadas aqui na terra. Em vida.
E, por último. Se quiseram fazer da minha imagem uma estátua. Que seja em bronze. Não de gesso. E que a minha estátua fique fincada à sombra de uma árvore de rica sombra. E que tal um pé de jabuticaba? Onde crianças ou adultos. Que sejam velhos como eu. Se deliciem com aquelas frutinhas doces quando maduras. E não deixem as maritacas sem seu sumo doce. E não permita que os marimbondos ou abelhas fiquem de fora desta disputa acirrada. Uma jabuticabinha madura para os marimbondos. E aquelas que sobrarem encham o balaio para presentear aos meus netinhos.