Agaprantos

Prantos me lembra perdas. Mortes. Saudades.

Já disse antes: “não tenho a quem prantear a não ser a mim mesmo”.

Já perdi meu pai. Minha mãe se foi alguns poucos anos depois.

Podem dizer que você ainda tem muitas pessoas junto a sua que podem lhe confortar. Perdas são inevitáveis.

Saudades são decorrências naturais delas.

Relembrar o passado indica sensibilidade. Sentimento inerente aos puros. Aqueles de coração aberto aos sentimentos. Resultado de uma pureza d’alma. Coisa de poetas e trovadores. E romancistas ou cronistas também são capazes de experimentar tal coisa que pode nos machucar o íntimo. Como se um punhal nos fosse ensartado dentro do peito. Atingindo órgãos vitais. Tais como o coração. Assim como o pulmão. E o mediastino que acolhe ambos em seu domínio.

Agapanto. Uma flor típica que floresce no mês de novembro.

Agapantus africanus é uma herbácea pertencente a familia Amaryllidaceae. Nativa da África do Sul, perene, ereta, rizomatosa, acaule, de 40 a 80 centímetros, podendo chegar a um metro de altura.

Muitos a comparam a flores de defuntos. Pois o dia de finados acontece dias antes. No começo de novembro.

Já eu as acho lindas. Elas proliferam em pleno sol. E precisam de seis a oito horas de sol por dia.

Trata-se de uma planta venenosa se ingerida. E pessoas com pele sensível devem usar luvas no seu manuseio.

Agaprantos eu intitulei este texto dessa tarde de nove de novembro. Dia cinzento. Choveu durante a noite inteira e um cadinho durante o dia. Agora um azulzinho tímido se mostra no alto. Mas deve continuar a chover a noite e no despertar do amanhã.

Já disse. E não me canso de repetir: “não tenho a quem prantear a não ser a mim mesmo”.

Já uma florzinha de agapanto. De caule verde e flores azuis. Com a qual me deparei na tarde de hoje. Sentia-a derramando um líquido cristalino escorrendo-lhe flores abaixo.

Parei defronte a ela. Curioso por descobrir o que seria aquilo. A mim me pareciam lágrimas chorosas.

E foi então que entabulei uma conversa entre mim e a flor.

“Por que choras flor mimosa. Estás tristes? Por acaso do descaso perdeste alguém? Foi um amor? Outra flor de agapanto que por ventura não lhe quis? Um amor incorrespondido? Um coração partido? E qual outra flor, por acaso de outra cor, não a viu com amor nos olhos? E, se porventura foi apenas uma aventura que não deu em nada. Entre você, agapanto azul. E outra flor parecida. Só que de outro tom sur ton. Que a ti não quis dar amor e sim uma paixão de momento. Que acabou em ressentimento. E ti, linda flor de agapanto azul, por que não procuras outro amor em outra flor igual a ti. O sentimento tem de ter ida e retorno. Quando se ama e não tem volta pode causar sim. Revolta e reviravolta em sua pessoinha cheinha de sentimentos. Bem sei que muitos pensam que flores não tem amores. Ledo engano. Flores sentem amor de verdade pelo jardineiro que delas cuida. Podando-a no momento preciso. Regando-a à falta de chuva. Ou estercando-lhe o canteiro com o adubo chamado amor. Não pranteies linda flor de agapanto. Sorria, pois, depois da chuva vem o sol. E nada melhor do que a chuva para adubar a terra. Pois ela já vem misturada ao adubo certo. Na medida exata para nada lhe faltar. E, se por acaso lhe faltar amor? Procure outra flor de agapanto. Que seja de outra cor que não a sua. Não sei se existe flor de agapanto amarela. Ou vermelha. Que seja lilás. Mas não chores amiga flor. Agaprantos não são próprios de flores tão belas e viçosas. Eu não tenho a quem prantear. Já tu, linda flor de agapanto. Olhe ao derredor de ti. Lindas flores iguais a ti florescem nesta época do ano. E não digo que sejam flores de defunto. E tu, não tens motivo para agaprantear”.

Dali saí mais feliz de quando vi a flor de agapanto. Creio que ela entendeu o meu recado.

E juro que vi a flor de agapanto de cor azul sorrir pra mim.

 

 

 

 

 

 

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