“Mas o que me importa mesmo é ter você junto de mim.”
Hoje, seis de novembro, dia que começou ventoso e nevoento, fazia frio ao amanhecer.
Lá pelas onze e meia bateu-me uma fome. Uma danada vontade de comer.
Estava mais uma vez solitário em meu apartamento. Como ontem à noite na minha casa naquela rocinha há sete quilômetros de terra. Isso contando os dez de asfalto. São ao todo dezessete o percurso exato. E, quando se prefere ir pela estrada de terra. Passando pelo caminho dito antes que nos levava a velha ponte que o passado submergiu. São menos dois quilômetros de estrada boa. Percurso este que, num passado não tão distante, costumava ir às carreiras. Num trote cadenciado como usa trotar um cavalo manco.
Fazendo as contas. No que não sou especialista como a minha Rosa. Perfazem, aquela corridinha amalucada, inexatos vinte e três quilômetros de chão batido. E corria serelepezinho. Como um garotinho peralta. Pulando amarelinha ou jogando bete e finca.
Ainda me faz lembrar por onde andariam os meninos da Costa Pereira?
O Cosme perdeu o irmão Damião. As irmãs cajazeiras só andam em parceria. O Lázaro já foi levado ao céu dos anjos. O Tarcísio ainda resiste estoicamente. O mais jovenzinho, de nome Pedrinho, não o tenho visto por aí. Eram ao todo dezesseis ou dezessete filhos da dona Ester do Buraco. Uma senhora boa parideira. Que foi casada com um tal de Pedro.
E os outros meninos da rua do Cascalho eram, além de amigos de verdade, catadores de bolinhas de tênis quando disputava partidas aguerridas em dupla com meu saudoso pai.
Éramos bastante e unidos amigos. Independentes de cor ou credo sempre nos reuníamos naquela mesma rua. Cujo nome vocês já conhecem. E descarece repetir – Costa Pereira.
Não foi por vontade ou desejo meu que o tempo passarinhasse veloz como uma flecha que felizmente não atingiu o peito descoberto de penas da pobre pombinha cinzenta que há dias atrás foi encontrada morta aqui pertinho do meu beco.
Ainda hoje a vi sem pelo menos ter tido um sepultamento decente. Ah! Seu eu pudesse restituir-lhe a vida decerto o faria.
E como seria bom ver de novo a mesma pombinha avoando pelos ares. Ou, melhor ainda chocando seus ovinhos. E vendo eclodir dos ovos alguns novos plumbídeos novinhos. Os quais espero não terem o mesmo fim da mãe morta.
Voltando a mesma praça. Não ao velho banco onde uma ou algumas vezes apenas comecei um namorico com minha atual esposa. Ao atual jardim central da nossa Lavras querida. Hoje bastante remodelada. Exibindo um calçadão novo em folha. Flores vivas. Camélias cor de rosa, azaleias multicores, petúnias cheirosas, margaridas de tons sur tons. E uma linda fonte luminosa onde jorram águas bailarinas. Num balé bem ensaiado por nossa prefeita Jussara.
Bateu onze e meia e a fome me fez ronronar os intestinos.
E daqui do apartamento saí impontualmente as onze e vinte e cinco.
Já na rua. Aqui pertinho, deparei-me com uma procissão de carros. Até parecia a semana santa tamanha a quantidade de passantes.
E como me sinto bem andando pelas próprias pernas. Carregava ao pescoço a mesma pasta contendora de livros meus.
Quem sabe algum esfomeado tivesse a ventura de encher a barriga com as minhas palavras cheias de letras miúdas. E confesso que meu livro não os faria ter indigestão.
Fui caminhando, esquivando-me da turba enfurecida. Até parecia um protesto pela derrota do Bolsonaro.
Gostaria e quebrar o desjejum no restaurante da Thais.
E, em lá ancorar os pés encontrei uma fila de dobrar quarteirões inteiros e ainda iria sobrar pelos cotovelos.
Ao ser informado que a minha espera iria durar quase um ano inteiro dobrei nos calcanhares.
E escafedi-me dali como o diabo preguiçoso do serviço duro.
Voltei pela mesma praça. Não vi o mesmo banco onde conheci a Rosemirian. Ou Rosa. Como queiram.
Tive de enfrentar a fome. De me consolar com a barriga vazia. De esperar sem me cansar.
Até que fui levado pelas circunstâncias até uma barraca onde se vendiam pasteis e refris.
Fui logo encomendando dois. Um de queijo e outro de fubá recheado de carne de panela.
Foi um velho conhecido quando ainda morava no condomínio Jardim das Palmeiras. Onde não mais canta o sabiá que ali gorjeava.
Ele mesmo. Um em sobrepeso. Dono da lanchonete mais ao sul da cidade. Nas barbas daquela outra pracinha a qual chamava de enjeitada. Agora remodelada como a sua irmã mais velha. A famosa Praça Augusto Silva. Onde inda mora a velha Tipuana.
A espera foi bem mais curta. Nunca senti tanto prazer em comer dois pasteis.
Só um pequeno detalhe me passou desapercebido. Como estava uma multidão tumultuada. Filas quilométricas se formavam,
Sai sem pagar a conta.
Já quase na minha rua, confrontante com as ruinas do Colégio Nossa Senhora Aparecida, apareceu a aparecida.
O de mal com a balança veio me cobrar os dois pasteis e o refrigerante.
Paguei sem protestar não por ser protestante. Cada um tem a fé que professa.
Já aquela mesma praça. Onde não mais existe aquele banco. Daquele mesmo jardim.
Não é mais o mesmo dos meus bons tempos de criança,
Dá pena. Não digam que sou saudosista que eu respondo um palavrão: “sim”.