“Se tudo que você ofereceu não adiantou, ofereça a sua ausência”.
Foi assim que passei ontem a noite. E metade da metade do final de semana que ainda não terminou.
Bem cedinho fui ter à roça. Cheguei a Ijaci e as padarias ainda nem abriram as portas. Era num sábado. Cinco de novembro.
Novembro mal começou e estou prestes a inaugurar idade nova. De hoje a um mês estarei setentaitreisanando.
Parece muito né? Pra mim a idade não conta. Desde que nos sintamos com a mesma idade de quando menino. Só não faço as mesmas traquinagens. Não corro mais atrás das mocinhas casadoiras. Aquelas de mini saias saidinhas. Já aprendi a andar de bicicleta sem as rodinhas. Mas não me apraz pedalar. Prefiro usar as pernas para correr ou entrelaçá-las as de minha adorável esposa. Ou caminhar por toda a cidade. Usando agora um par de suspensórios como usava meu avozinho Rodartino. Pra me rodartear por completo só me falta o terninho azul marinho como riscas brancas de giz. E usar por debaixo do paletó do terno uma camisa branca mal passada. E nos pés a mesma sandália de couro cru na cor desbotada de um marrom esquecido.
Na noite de céu estrelado e a lua lá no alto passei-a em minha casa à beira da represa do Funil. Não fosse pela presença do amigo Tom Zé não sei o que haveria de ser da fome que ronronava dentro da minha barriga. Foi mais uma vez ele mesmo quem preparou um delicioso macarrão ao alho, muito bacon, e azeite e sal a gosto. Foi do meu exato gosto que mandei boca adentro aquele manjar dos deuses. Acompanhado de uma cervejinha Itaipava. Duas latinhas foram suficientes para deixar-me prontinho. Depois de me refrescar nas águas límpidas de minha piscina azul da cor do céu que hoje amanheceu ventoso. O romance Rakel vai de bem a melhor. A personagem principal da minha história. Encontrada casualmente há anos antes. Dormindo debaixo de uma marquise aqui pertinho de onde moro. Que não só me atraiu a atenção pelo aspecto esdrúxulo de como ele, ou ela, era. Se do sexo masculino ou ao revés. Fiz-me aproximar-me sem querer tirar-lhe o sono. Era uma garota vinda de longe. Uma andarilha que já tinha percorrido meio mundo sem pagar passagem de avião ou pedindo carona nas asas de um urubu avoante. Seus modos de vestir. Seu cabelo cortado ao estilo moicano. Seus traços que perfeitamente poderiam se encaixar num índio de pele vermelha. E mais. Segundo consegui sucesso. Durante a nossa curta prosa. Assentados a um banco da sala de espera da Santa Casa. Onde tentei. Debalde. Ao pedir a enfermeira chefe delicadamente se a minha personagem. Mal sabia eu que ela iria ser a musa de mais um romance. Ali tomar um banho. Já que ela não o fazia há dois dias inexatamente. Depois de receber um não retumbante. Seria muita pretensão minha se ela permitisse. Ofereci-lhe uma nota de vinte reais. Em troca de minha gentileza ela recitou um poeminha de sua autoria. O que me deixou mais intrigado com aquela garotinha. Viajora. Andarilha. Cidadã deste nosso mundo sem porteiras ou fronteiras. E como eu aprecio viajar nos meus escritos. Tanto, tanto, que nem sei dizer o quanto.
Voltando à minha crônica domingueira. Depois de uma noite em companhia de mim mesmo. E da Rakel protagonista do meu novíssimo romance. Em sonhos. Transcritos noutro computador que agora acaba de ser ligado defronte a onde estou. Na minha oficina de trabalho.
Um amigo novo, Tales. Marido da Menina Seriema. Pai dos lindos garotinhos gêmeos iguaizinhos Matheus e Rafael. Somente edificados por uma pinta na face. Me perguntou. No momento que caminhava junto aos meus dois cãezinhos o Clo e o Robson. Se iria dormir só. Foi quando a ele respondi: “quer melhor companhia que um computador”?
Não sei o que pensam vocês? Se sabem ou não ler. Ou até mesmo tem o saudável e enriquecedor costume de passarinhar os olhos num bom livro. Ou melhor, ainda, escrever?
Antes, quando estava em construção a minha linda casa banhada. Lá embaixo. Pelas águas do rio Grande. Agora que não mais escorre solto pelas pradarias. Já que o ser humano. Carente por energia elétrica. Cercearam-lhe a liberdade interpondo barragens em seu percurso rumo ao mar.
Num barranco. Antes esculpido por uma máquina engolidora de terra. Descobri um ninho de Tico tico.
Um passarozinho de duas ou três cores. Com um topetinho da mesma cor de suas penugens de baixo do corpicho pequenino. Simpático e acolhedor. Que usa fazer seu ninho num local qualquer. Ou num galho fino de uma árvore de rica copa. Ou até mesmo num buraco daquele barranco detrás da minha casa. E, tão pronto o ninho termina. Quem vai usar o mesmo ninho? Se pensam ser o casal de ticoticozinhos está redondamente enganado.
Dali se serve outro casal alado. Um pássaro preto o dobro do tamanho do casal que batalhou trazendo gravetos. Palha de alguma coisa macia. E, depois de dias de intensa labuta o aconchegante ninho ficou uma belezura.
Mas, não sei se por cortesia ou imensa bondade. O casal ticoticoso abandona a casa feita com todo capricho. E, sem pagar aluguel ou mensalidade. Por mais irrisória que seja. O casal de pássaros pretos. Chamados em verdade Godero. Ali a fêmea deposita seus ovinhos. E, tanto o macho quanto a mulher pássara se revezam na choca.
E como é divertido observar um filhotão preto que nem piche. Ser alimentado pelo casal de tico ticos. Até aprender a voar pelas próprias asas. Inseguras a princípio. Mas hábeis com o passarinhar dos dias.
Na varanda de minha casa a cada dia. Mesmo usando a vassoura. Não tenho como me livrar das cacas dos passarinhos que no telhado constroem seus ninhos.
São passarinhos de várias espécies. Pardais viralatinhas são os mais sujões. Canarinhos da terra. Pardinhos ainda ou já amarelinhos cantores. Assanhaços azuis. Outros que desconheço quem sejam. O fato é que não tenho mais visto tico ticos.
Ou mesmo os pretinhos por eles criados. Entendam que não são pássaros pretos e sim goderinhos.
Aquelezinhos que se empoleiram na cerca de arame farpado tentando se aquecer ao sol.
Os tico ticos sumiram.
Será, por acaso do descaso; a espécie está prestes a ser extinta?
Espero que não.
O que está reservado ao futuro dos pássaros pretos? Quem os irá criar?
E quem vai fazer os ninhos para os filhotes pretões nascerem?
Tomara que os tico ticos não desapareçam tao prematuramente.
Se assim acontecer o que poderemos esperar da humanidade.
Com esta desumanidade que campeia mundo afora.
Os tico ticos são como pedreiros construtores de casas. Que, uma vez prontas nunca mais serão convidados a nelas entrarem para um simples café da manhã.