A vida é entremeada de descidas. Subidas. Depressa ou devagar no caminhar. Andar no plano ou no altiplano. Fazendo ou não planos. Já que muitos deles não passaram de múltiplos desenganos. Sonhos não concretizados. Devaneios muitos inimagináveis. Tristezas alternadas por átimos de felicidade. Já que a mesma não acontece a todas as horas e sim em instantes fugazes.
E, hoje, na maior idade. Já ultrapassados os setenta. Em um mês e pouco estarei subindo mais um degrau da minha serra. Ou posso dizer ter vencido mais um degrau de uma escada.
Antes era capaz de saltar um ou dois deles. Pensando no que haveria de ser o amanhã ou o depois. Subir no pé de jabuticaba todo serelepezinho. Garotinho traquinas que fui. Durante uma chuvadonha sem temer tanto picadas de marimbondos. Sem medo de me escorregar num galho escorregadio e ir ao chão cheinho de jabuticabas maduras. Naquele chão apetitoso de rocinha de minhas tias avós. Ai que saudade das tias Mariana e Leonor. Que me davam banho. Ou seria meio. Numa baciona enorme. Quando as minhas perninhas branquinhas ficavam metade do lado de fora. E o resto do meu corpinho envergonhado tentava esconder o piupiuzinho. Mas não tinha como. E uma delas. Que se revezavam a hora do meio banho. Passava a bucha feita de uma esponja felpuda. Ensaboando as minhas partes baixas. Com um sabão preto feito de gordura de porco. Morto por ocasião das festas de final de ano. Um capado gordo que grunhia feroz ao pressentir que o seu final se avizinhava. E eu, sem nunca me esquecer do tio Júlio. Pois foi através dele que acabei tomando gosto pela vida na roça.
Tudo começou ali mesmo. Na fazendinha da Cachoeira. Zona rural de Perdões. Cidade vizinha a nossa. Que tem por costume preservar coisas velhuscas. Casarões antigos são vistos como novos na praça principal daquela velha cidade. Onde vivem até hoje os Alvarengas e outros sobrenomes mais.
Aqui, na nossa amada Lavras, emoldura-a a serra da Bocaina. Como se fosse uma linda moldura de um quadro que me falasse fundo do meu passado. Vivido e vívido nas minhas saudades tantas. Naquela mesma rua por onde passo ao cair das tardes.
Pena que as tardes de trasanteontem. Ou me alongando um cadinho mais. Muitos tras tras e outros tras antes de ontem. A eles acrescento outros anos mais. Se tornaram tao díspares dos dias de agora. Quando as famílias da Costa Pereira ou se mudaram de vez pro céu. Sem endereço certo. Mais certo é que estejam morando ao lado do papai do céu. Que recebeu na pia batismal o nome de Senhor Nosso Deus.
Já a serra onde passei parte da minha infância, na fazendinha de umas tias avós. Que hoje mudou de dono. E nunca mais pisei por lá. E, disseram-me que a velha casinha pequenina. Onde nasceu o meu amor pelas vacas e galinhas poedeiras. Pelas maritacas palradeiras. Pelas éguas cupinzeiras. Uma delas. Se não caduca a memória, se chamava Antonina. Era uma eguinha mansinha. De diminuta estatura. E, quando eu, menino, recém desvendada a minha venda sobre a palavra sexo. Hormônios em ebulição como um vulcão prestes a entrar em erupção. Assim que chegava à serra do Pião. Como se chama até hoje a mesma serra que emoldura a linda Perdões dos meus ancestrais Alvarengas. A Antonina levantava o rabo. Olhava com seus olhos sedutores na minha direção. E, mesmo montando a pelo. Íamos em marcha cadenciada para um matinho ensombrado. Onde, como não dava altura suficiente usava um cupim morto para servir de escada na intenção de fazer de conta que a eguinha Antonina era uma mulher da vida.
Estou prestes a subir uma subidona na minha epopeia chamada vida.
Dizem que até passar dos oitenta tudo vai mais ou menos.
Uma vez ultrapassada a serra dos mais de oitenta começam as desventuras inerentes à idade madura.
A próstata já deve ter sido operada. Caso tenha sido uma hipertrofia benigna melhor ainda.
Ou, caso contrário, se a tal glândula for de natureza maligna. Caso operada em tempo hábil melhor ainda. Pode-se obter a cura total.
Já, aos oitenta, à beira do precipício dos quase noventa. Se a gente ainda estiver vivo devemos sempre. A cada ocasião ou momento. Levantar as mãos pro céu e darmos graças por ainda não nos tornamos um peso morto a nossa família. Um traste inútil. Um sapato velho e furado na sola. Sem direito de ser meia solado ou remendado. Pois aquilo que não tem remédio irremediável se torna.
Já estou quase no alto da serra. Que seja na serra da Bocaina ou naquela que emoldura Perdões.
De lá só me restam descidas. Que não sejam tão íngremes como foi a subida.
Que não me falte fôlego ou um restinho de saúde para chegar ao baixio da mesma serra.
E que vista maravilhosa posso mirar daqui de cima. E que belo horizonte se descortina aos meus olhos ainda enxergadores como os tenho no momento presente.
E, quando não me restar outra alternativa. E eu cair enfermo. Ser asilado num asilo ou casa de idosos qualquer. Ter de me apartar daqueles a quem amo. Não por mim. E sim por eles.
Para não ser considerado um traste inútil. Ou um peso morto sem ainda vislumbrar o capim pelas raízes. Num sepulcro qualquer.
Eu lhes peço. Encarecidamente. Não preencham o meu caixãozinho negro com flores de defunto.
Cerquem-me de um monte de livros. Podem ser livros recheados de poemas de um Mario Quintana qualquer. Ou de crônicas de Rubem Alves. Ou romances que eu ainda irei terminar.
Nesta minha existência errante. Quando eu passo por uma crise de identidade.
Se sou um cronista? Um romancista? Um poeta sei que não sou. Embora tente. Se ainda sou médico urologista ou um entendedor de idiomas. Vários nos quais me faço entender. Se em verdade seja um andarilho ou um arremedo de corredor. Nadador tento ser. Atleta diziam. Quando ainda morava no condomínio Jardim das Palmeiras. Os garotos de lá me chamavam poeta atleta.
Só sei que cada vez nada mais saberei.
Sei, em verdade verdadeira. Que estou subindo a serra. Degrau por degrau. Tentando chegar ao seu final sem arfar demais.
Espero. Quando chegar a minha hora de ir embora. Que eu não tropece nalguma pedra que encontrar durante a minha descida da serra. Que seja a serra da Bocaina ou a do Pião.