Por todos os lados se veem protestos. Caminhões a impedirem o trânsito. Barricadas feitas de pneus incendiados. Gente empunhando bandeiras brasileiras tentando demonstrar seu patriotismo em atitude de desagravo pela vitória do barbudo no qual falta um dos dedos.
Saques. Revoltas. A maior parte dessa gente bagunceira nem memo sabe o motivo de ali estar.
Em Brasília o presidente derrotado permanece emudecido. Aparentemente convencido que deve esperar quatro anos para tentar se reeleger.
Seus apoiadores não entendem como um homem como aquele. Falastrão e metido a valente. Não vai às turras com o Supremo Tribunal Federal e exige novas eleições por achar esta fraudulenta. Ou até mesmo coloca seus colegas de farda nas ruas. O exército em movimento.
Ou usa a sua patente de capitão para capitanear um golpe. Pondo fim à democracia. Extinguindo arbitrariamente as duas câmaras e o senado federal. E, indo mais adiante, mandando os juízes principais irem tomar banho de água fria. Para não só esfriar as cabeças não pensantes. E usarem as suas togas pretas para avoarem como urubus.
E, ainda mais. Tentar voltar ao cargo à força dos canhões. Usando a esquadrilha da fumaça para botar fogo na trapaça feita pelo candidato que teve uma vitória de Pirro. E, ao revés de voltar ao planalto ir de volta ao Paraná. Onde esteve encarcerado como bandido. E ainda tem quem duvide disso?
Ao fim de todas estas conjecturas. As quais acabou de inventar. Um meu amigo petista fanático. Ciente da vitória inarredável do seu candidato. Quando eu estava nadando na piscina do Ltc. Ele, saindo do banho. E me vendo ali. Disse em alto de bem tom: “aceita que dói menos”.
Eu já aceitei. Inclusive. Num texto anterior intitulei – Vira o disco.
Só que, meu amigo Sô Zito, recém chegado de férias neste dia três de novembro. A mesma hora em que abria a porta de blindex do Edifício das Clinicas. Sempre andando. Lá da sua rocinha. Vindo a pé mesmo. Já que deixou sua mula manca amarrada num pé de aroeira. E como coçava a coitada. Pois seu couro era alérgico. Não só a manifestações de desagravo como estavam acontecendo por todo o país. E também a tal aroeirinha arbusto. Cujas folhas rajadinhas. Se encostam na pele causam calombos e são pruriginosas.
Foi essa a nossa prosa amistosa. Já que a um mês inteiro não nos víamos.
“Sô Zito! O senhor parou em protesto pela derrota do presidente deposto? Ou continuou na sua lida costumeira. Acordando ao cantar do galo e se deitando ao cacarejar das galinhas? Levando cascavel na canela fina. Tendo de procurar a vaca parida sumida desde a semana passada? Já que a danada da Braúna. Que dantes se chamava Brasília. E acabou mudando de nome por causa de o senhor achar que todos na capital Brasília sejam em verdade cupinchas ou meliantes de verdade. E, por acauso o senhor parou? Manifestou-se contrário ao resultado imprevisível das eleições. Que muitos confundem com ereções. Por não darem conta de namorar aquela capim novinha. Que acabou por perder o selo da castidade num matel matinho qualquer. Na sua rocinha perdida nos cafundós dos Lulas. Logo o senhor que não tem parança. Irrequieto como desde quando o conheço. E olha que faz muitos anos, não anus, que muitos confundem quando lhes pergunto a idade. Pois anos se refere à idade. E anus dá no mesmo que c u. Por onde entra o dedo do urologista quando quer investigar a saúde da próstata. Antes de ver o senhor recomeçar o seu novo trabalho. Já que vosmecê já foi retireiro. Entendedor e entendido da razão de o leite ser branco mesmo saindo das tetas de uma vaca preta. E que vaca quando pare se amoita num matinho. Escondendo a sua cria com medo dos predadores. Os mais perigosos e perniciosos somos nós, humanos. Me confessa. O senhor parou de exercer sua função de gente de mãos caludas e tez tostada pelo sol. De carpir mato alto. De ter de plantar milho. Na intenção de fazer silagem a dar as vacas. De remendar cerca de arame farpado. De tirar vaca do brejo num momento de descuido dela. Me diga. Amigo veio. O senhor parou ou não”?
Foi neste momento fugaz. Já que meu relógio mostrava quase seis meia da manhã. Dia um depois do feriado de finados. Que Sô Zito me respondeu. Com uma risadinha de mofa: “quer mesmo saber? Eu num paro nunquinha. Mesmo que a minha Braúna tussa. Já que ela esteve resfriada. Com as duas narinas entupidas. Eu tenho mais o que fazer do que parar em protesto. Impedir o direito de ir e vir de quem carece de trabalhar. Atear fogo em pneus. Fazer fumaça onde o fogo deve ser apagado. Saquear supermercados. Eu? Jamais. Um dia vi uma carreta enorme tombar no acostamento de uma rodovia importante. Sabe qual era a carga? Livros. E não apareceu nenhures para afanar um livro que fosse. Se fosse celular. Carne de primeira. Cachaça. Com certeza acorreriam milhares de saqueadores. Em nosso malfadado Brasil não se tem o costume de roubar livros. E os pobres cultos escritores sofrem para vender a sua lavra. E a maioria acha caro pagar por um bom livro a quantia de sessenta ou cinquenta reais. Quando para quem o escreveu a editora cobra mais da metade desta quantia. E seu lucro se reduz a menos da terça parte. Se algum baderneiro me intimar a parar de trabalhar eu lhe cuspo na lata. E lhe digo sem pestanejar: vai trabalhar vagabundo”.
E, da mesma maneira. Se alguém vier me convocar a uma paralização dos meus escritos digo que prefiro a morte. Morte e vida Severina. Quer livro melhor?