Viagem pelo campo santo

Cemitério é uma palavra meio sombria. Mesmo que faça um dia de sol.

Mas, sem dúvidas vai ser a nossa última morada.

Onde nos vai receber um ataúde. Negro quando os restos mortais do falecido. De mais idade. E reconhecido.

Branquinho quando se trata do corpo de um anjinho. Uma criancinha que Deus levou pra junto de si por ter saudade de um netinho.

Num tom amarronzado ao se tratar de um fulano qualquer.

Embora nunca tenha visto um ataúde amarelo. Creio que dentro dele deve estar em seu descanso final um patriota brasileiro.

Caixões azuis devem ser de exclusividade de pessoas que de fato creem que o céu seja azul.

E que por cima do manto azul celestial devem morar anjos e seres alados. Não da negritude dos urubus.

Caixões cinzentos são moradas de gente que deve ter passado a vida em nuvens cinzas.

Já esquifes cor de rosa são próprios daqueles que em vida foram anjos. E, na minha crendice foram pessoas solidárias. Que só praticaram o bem.

Féretros verdes musgos são indícios seguros que ali morreram gente que preza a natureza. Ou melhor dizendo. Os caixões de pessoas amantes do verde das matas. Da penugem das maritacas. Do amarelo das flores dos ipês.  E estas pessoas, uma vez mortas, devem preferir outro tipo de ataúde não feito em madeira. Pois são preservacionistas. E amam em verdade a natureza para fazer mal a alguma árvore que porventura tenha experimento o aço cortante e frio de um machado ou de uma moto serra qualquer.

Jazigo de cor vermelha indica que o defunto foi morto de forma violenta. Ou a facada. Ou até mesmo por arma de fogo. Numa briga por causa desconhecida. Trivial. Já que a violência se encontra tão banalizada que se mata ou se morre por coisas banais.

Caixões na cor roxa são inerentes a mortos em consequência de tristeza ou depressão.

Pois, que eu entenda quando, por qualquer motivo. Um simples e singelo esbarrão alguns logo apresentam uma mancha roxa. Principalmente quando a idade avança. Já que a epiderme do idoso é frágil como um pergaminho que se esboroa a um simples assopro de um vento.

E os féretros furta cores? Seriam indícios seguros que o defunto foi morto pelo simples fato de ter furtado a alguém? Nem sei dizer. E quem saberia me responder…

Hoje, dia de finados, dois de novembro, feriado. Fui fazer uma visita ao campo santo.

Como de vez em quando faço. Sinto-me confortável e em paz naquele espaço. Onde, fora o dia de finados o silêncio predomina. Visito alguns túmulos. Oro. Principalmente no de meus pais.

Ali o tampo do jazigo tem a cor cinzenta. Cinzento como é o dia de hoje. Um dia frio e nublado. Tomara chova durante a noite.

Naquele túmulo coberto por uma lápide cinza. Além dos meus pais foram sepultas mais duas pessoas. Ou seriam mais?

Anexo à lápide cinzenta constam dois nomes: Ricardo e Frederico. Ah! Perdoem-me o logro.

Aparece também o nome Priscila. Desconheço-lhe a identidade.

Fui eu quem gravou a frase inscrita em bronze numa placa grudada no mármore cinza antes da inscrição do meu pai.

“Rute Rodarte de Abreu (minha mãe). 07 06 1923 – 23 11 2005 e vai escrito logo abaixo – um dia a terra a acolheu. E com ela o melhor do meu eu. Saudades – seus filhos.

Logo ao lado deixei gravado: Paulo José de Abreu. 01 08 1923 – 09 02 2000. Vidas passam. Exemplos permanecem. Saudade de esposa e filhos.”

Ali deixei, além de ramos de crisântemos amarelos lágrimas e orações.

Depois tentei encontrar, em vão, onde estariam sepultados meu avô Rodartino e a minha avozinha Belica. Acredito que, no mesmo jazigo deveriam estar meus tios Francisco Rodarte e o tio Rui. Minha querida tia Cida decerto faz companhia aos seus queridos irmãos. E o primo Pedro? Sei que ele está no céu. Ao lado do primo Ricardo. Mas suas ossadas e restos mortais não fazem parte do mesmo saco preto. Eles jazem em túmulos distintos.

Dei mais uma voltinha pelo campo santo. Confesso ter me alongado mais do que deveria.

Também. As saudades são tantas que não cabem em milhares de sepulturas. Um dia ali repousarei da mesma forma. Só não sei quando.

Andando um cadinho mais observei, noutro sepulcro, esta inscrição: foi no jazigo de um ex colega de farda. Foi ele quem me operou as amígdalas e as adenoides. O inesquecível doutor Geraldinho Vilela. Morto a poucos anos atrás. “Pálida sombra dos amores e santos! Passa quando eu morrer no meu jazigo. Ajoelha ao luar e entoa um canto…Que lá na morte eu sonharei contigo” Álvares de Azevedo.

De fato. Por vezes tenho sonhado com a morte. Que a mim me parece pálida e sombria. E, se a morte morreu de amores por alguém? Que este seu amor deve se ajoelhar ao luar e entoar um canto triste.

Como eu chorei. E ainda choro. Não apenas quando vou ao campo santo. E me recordo dos meus pais.

 

 

 

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