Quem sou eu. Com minha prosa insossa. A fazer frente ao lirismo dos seus versos?
Não fui acostumado a poetar. Cronicar sim. É de meu costume.
Mas, depois de receber, de uma grande amiga, a dona Nagila, a oração do matuto. Não tive como não responder à altura. Só que minha pequena envergadura não me permite bater asas mais alto do que o céu. Onde mora o pai de todos nós. Nosso Deus. E os pais que já nos deixaram órfãos. Infelizmente. Fatalmente. E amanhã, dois de novembro, é o dia de finados. De irmos ao campo santo. E, sobre as lápides cinzentas ou que cor forem. Depositar flores. Pena que elas duram tão pouco. Como a tal criança que não durou mais que as flores dos ipês.
“Valha-me meu bom Deus por ter-me presenteado com pais que me deram tudo.
Só que a eles faltei. Principalmente ao meu saudoso pai. Quando ele mais precisava.
Já acamado ao leito. Com a consciência túrbida como um pobre ribeirãozinho poluído pelos dejetos humanos. Por vezes me falta a exata definição do que seja humano. Ao ver tanta gente endinheirada passando pelas calçadas. Usando sapatos de grife. Ternos de alto valor. Em contrapartida ao baixo valor de seus sentimentos. Que não se enternecem ao ver um pedinte estendido no passeio. E pulam sobre aquele corpo inerme. Com cara de nojo. E nem bem conseguem depositar naquela mão estendida. Suja e encardida. Uma moedinha que seja. Um auxílio que fosse. Ou até mesmo um bom dia ou boa tarde. Que seja noite. Já que á noite todos os gatos são pardos.
Valha-me meu bom papai do céu. Que não se deixa ver mas creio que esteja em todas as partes. Já que eu vejo Deus na copa das árvores. No verde das matas. No riacho que chora. No vento que assopra pra longe as boas lembranças. E as más ele ignora.
Valha-me meu bom paizinho que estais no céu. Seja num céu azul. Ou vestindo a sua roupa cinzenta. Seu traje domingueiro. Ou até mesmo esfarrapado como dantes vi um pedreiro saindo do serviço.
Valha-me meu Senhor Nosso Pai. Que tanto tem poder sobre a chuva que cai. Sobre as flores que desabrocham. Ou até mesmo que tenha a capacidade de acalentar. Ou acarinhar aqueles que sofrem sem saber a razão.
Que me valha meu Senhor. Se me ouves me escute. Rogo a ti. Mesmo não estando na sua casa. Que muitos chamam de igreja. Seja de qual credo for.
Valha-me meu bom pai do céu. Diz-me se em verdade. O inferno existe? Se porventura. Ou desventura há vida após a morte. Já que nascemos. Espichamos um cadinho. Tornamo-nos adultos responsáveis ou não. E um dia abengalamo-nos. Alquebrados ficamos. Até que uma carruagem vinda de não sei onde. Puxada por corcéis negros como a noite escura. Nos leva à última viagem. A um lugar pra mim desconhecido. Mas que existe eu creio nele.
Valha-me minha Nossa Senhora. Mãe de Jesus Cristo. Dizem. No que acredito. Apesar de não estar presente àquela nefasta cena da crucificação. Que Ele se deixou imolar na cruz para nos salvar.
Me faça valer meu Senhor. Nosso paizinho que estais no céu. Que não falte trabalho aos que tenham desejo de trabalhar. Que o senhor guie os nossos passos. Por um caminho seguro. E, se nos deixais cair em tentação que nos livre pelo menos de vícios maiores. Já que muitos sucumbem às drogas. Tornando uma droga as suas vidas. Pelas suas próprias mãos.
Que me dê forças meu bom Deus. Para que eu não perca o tirocínio. E não fique atrelado a um leito de hospital como muitos doentes terminais ficam.
Que me livre de um mal maior. Que eu continue refém da inspiração que me consome. Que nunca perca capacidade de inserir cores ou sabores nas minhas crônicas diárias. Ou nos meus romances carregados de imagens poéticas.
Que me valha. Meu bom e caridoso pai de todos nós. Negros, cafuzos, brancos ou amarelos.
Que eu nunca identifique um amigo pela cor de sua pele. Pois, mesmo que na epiderme predomine a cor escura. O sangue que escorre por dentro de nós tem a cor vermelha. Mesmo não sendo petista.
Que me valha. Meu bom Deus. Agradeço. De joelhos fincados na areia da praia. Ou num piso duro de concreto. Por ter-me agraciado com a saúde e a felicidade. De ainda estar vivo e agradecido. Por tudo isso descrito. E muito mais” …