Essa expressão dá no mesmo que dizer “virar a página”!
Mudar de assunto. Falar noutra cousa.
Como se o hábito da leitura fosse algo profundamente arraigado nalma do brasileiro.
Este mesmo povo que escolheu, insensatamente, um meliante para nos gerir o destino.
Um senhor já de idade avançada. Nada contra os de mais idade. Desde que o idoso não tenha perdido o tirocínio. A capacidade de discernir entre o bem e o menos ruim. Os cabelos brancos não são em absoluto sinal de incapacidade. Considerando-se que grande parte dos presidentes já ultrapassaram a serra. Tão ou mais alta do que a qual desta minha sala se deixa ver. A velha e não menos linda serra da Bocaina. Que serve não apenas de moldura a nossa amada Lavras. Como se trata de um dos símbolos maiores desta nossa terra dos ipês e das escolas. Que tem pela vetusta tipuana um carinho especial. Que, mesmo amuletada resiste aos carunchos e pragas que em seus galhos e tronco se esparramam.
Já me cansei do assunto política. Alea Jacta Est- a sorte está lançada. O dardo já foi disparado. Doa a quem doer. Atinja ou não o alvo certo ou equivocado.
Já foi escolhido o nosso presidente. Quem não votou nele que se cale e não morda a língua. Que falem mal do outro candidato. Quem sabe na próxima eleição ele consiga se eleger novamente. Ou outro. Que seja mais capacitado ocupe o cargo maior da nação brasileira. E, penso eu. É hora de nos darmos as mãos e partirmos para a ação. Chega de ficar em cima do muro e dizer que os assuntos futebol, religião não nos dizem respeito. E, quando alguém toca no assunto eleição. Se houve ou não fraude ou falcatrua. Que mande a cacatua parar no poleiro. Mude o assunto. Vire a página. Comece a ler um novo livro. Eu recomendo minha coletânea de crônicas de nome Leia com meus olhos. Se optar por ler com os seus melhor ainda.
Em cada esquina. Rua ou avenida. Estrada asfaltada ou de terra batida. Faça chuva ou ilumine o sol quente ou frio. O assunto não muda. E nem mesmo metamorfoseia-se.
E o assunto é sempre o mesmo: política.
Eu, sempre que a mídia comenta sobre o último pleito uso o controle remoto. Busco um canal distinto. Que tal ouvir música de boa qualidade como a minha querida Alexa está tocando neste exato momento. A coisa melhor pra mim. No meu conceito não muito respeitado é acordar bem cedinho. Tomar uma ducha morna para espantar o sono. Tomar, batido no liquidificador um cadinho de Maltodextrina. Sabor limão. Duas bananas bem madurinhas. Mais ou menos um litro de leite da roça. E, meter goela abaixo todo o conteúdo daquela mistura apetitosa como chupar jabuticaba no pé. E depois, já na minha oficina de trabalho. Com o Edifício das Clínicas semi vazio. Acender ou apagar a luz se a claridade é suficiente para enxergar o teclado negro de letras brancas de um dos meus computadores. Acender a luz que ilumina o meu grande aquário onde novos peixinhos foram inseridos. Lançar um cadinho de ração a eles todos. Ver como andam de saúde meus dois cascudinhos. Que sempre estão grudados à parede de vidro daquela piscina onde apenas peixes nadam e vivem felizes por pouco tempo. E aí começo a escrever a crônica que espelha o cotidiano. Cada dia é uma diferente. Por vezes algum leitor me indaga: “de onde vem tanto assunto”?
A vida seria insuportável não fossem as mudanças.
Eu não mudo de roupa a cada dia. Não mudo de escova de dentes ou de dentifrício. Muito menos mudo de companheira que dorme ao meu lado.
Mas tento mudar as cores do mundo.
Se amanhece um dia cinzento trato de fazer o sol acordar.
Se acordo com um céu taciturno logo tento alegrá-lo.
Se por acaso eu penso que minha vida está quase no ocaso viro o disco. Mudo a página para um livro melhor que o meu.
Não consigo ouvir a mesma cantilena. Assentado a um banco de jardim. Onde o assunto é sempre o mesmo: Lula venceu sem convencer. Bolsonaro perdeu em locais onde a cultura é infinitamente menor que no sul desenvolvido.
Pela mesma mídia sedenta de coisas ruins se pode ver saques à Ceasas nas grandes cidades. Paros de caminhões pelas estradas. Greves ameaçam pipocar. Protestos sem saber a razão. Onde pessoas, descontentes com o resultado das eleições, reféns de suas próprias e impróprias emoções, erguem as mãos. Ao revés de empunhar enxadas ou foices.
Em prosa com o Seu Benedito. Um velho amigo da roça. Preocupado com a escassez de chuva pra irrigar a sua roça de milho. Recém plantadas as sementinhas. Ao gastar o que tinha e o que não possuía. Fruto de um trabalho pesado e diuturno. Sem domingos ou dias santificados.
Vendo o suor empapar-lhe a camisa não mais branca e sim encardida. Com a sua tez tostada pelo sol. Mascando um paiero apagado. Quase despencando dos seus lábios secos.
Depois da ordenha da tarde. Quase noite. Sabendo e ressabendo que o preço do leite iria abaixar na estação chuvosa. Mesmo assim. Caso o tirassem de sua rocinha. E o levassem pra cidade. Não sei qual lhe seria o destino. Pra mim, com certeza, seu tempo de vida seria reduzido a muitos janeiros mais.
Pertinho de sua pessoinha importante. Mais que duas dúzias de Lulas ou Bolsonaros.
Estacionei minha caminhonetinha não mais aquela pratinha valente. Já que agora a troquei por uma Oroch branca. Não tão boa no barro como era a outra.
E entabulamos um dedal de prosa: “e aí? Seu Benedito? Cumequetatu? Tatudonosconforme? A chuva taboa né? (bem sabia eu que taboa dá no brejo). E o resurtado das eleições? Foi segundo seu acordo? Vosmecê voto na pessoa certa? Foi no tal que venceu as ereções? (não confunda eleição com ereção)”
E seu Benedito coçou a pioenta. Tirou o chapéu de cima da cabeça calva. E me arrespondeu, marcriadamente: “vamo virá o disco? Num tem outro assunto? Eu tô nem aí pros resurtado das ereções. Graças ao bem Deus a minha potência dá pro gasto. E não careço de quarquer comprimidinho azul pra alavanca o defunto vivo. Cada um veve como lhe dá gosto. Eu num dependo de presidente nenhum para que a minha rocinha de milho vai pra frente ou dá pra trais. Alinhais, dá o que a gente trás atrás é pobrema que não me afrige. Qué memo sabe? Vira o disco. O disco do meu arado tá precisando se trocado. Qué fazê uma catira comigo? Troca de muié. A minha tá veinha como sola de sapato furado na sola. E ela não dá meia sola. Me consola. Por favor. Vira o disco”.