Finado Brasil

Finado pra mim dá no mesmo que estar no final.

E o dia dos mortos cai no próximo dois de novembro.

Finados pra mim tem um significado que me lembra lembranças. Tanto de entes que nos são caros. Não no sentido de terem preços exorbitantes. E sim daqueles aparentados. Dentre eles cito meus pais. Que se foram há anos. E ainda deles me recordo não somente no dia dois que se avizinha como sempre serão lembrados.

Eram pessoas especiais. Pois além de me terem dado a vida foram eles que me ensinaram tanto. Desde os primeiros passinhos. A me equilibrar naquela bicicletinha ainda de rodinhas. Das quais me desvencilhei não sem antes colecionar galos na minha testa hoje ancha.  Já que no momento presente só me restam cabelos grisalhos nas têmporas. E no alto um campo desnudo. Quase tal e qual um campinho de várzea. Igualzinho àquele que usava jogar peladas com alguns amiguinhos. E eu era o perna de pau daquele time de futebol que nunca ganhou um torneio. Mesmo entre times de quarta ou da quinta divisão.

Finados pra mim é o fim. Não o começo ou o início.

É como se o juiz fizesse soar o apito depois de passados os noventa minutos de uma partida terminada em empate. Não havendo vencedores nem derrotados. E os jogadores deixavam o campo sem desavenças maiores. Fora algumas cuspidelas na cara dos rivais. E fugiam da briga como o diabo da cruz.

Por falar em cruzes no campo santo existem montes delas. Além de lápides feitas de mármore cinza ou brancos como a alma das crianças que infelizmente morreram prematuramente. Ou fotografias de entes queridos que resistem estoicamente à inclemência do tempo. Chova ou faça sol lá estão elas. Fazendo-nos recordar. Naqueles rostos onde o sorriso que nos dava prazer deixou em seu lugar lágrimas de puro sentimento de dor ou tristeza para sempre.

Finado me passa tristeza e saudade. Sempre. Naquela data de dois de novembro compareço ao cemitério. Levando nas mãos desnudas. Carregadas de sentimentos. Um vaso comprado de véspera numa floricultura. Os crisântemos amarelos são os meus prediletos. Os quais despeta-lo, pétala por pétala. E distribuo as pétalas de cor amarela por cima da lápide cinzenta. Onde lá no fundo. Na escuridão da mãe terra. Repousam as ossadas de meus pais.

Ontem foi uma data de magna importância para a nação brasileira. Foi o dia de escolher o nosso futuro presidente e governadores que não foram vitoriosos no primeiro turno.

Uma cigana. Num dia em que subia a rua. Em direção a outra casa onde morei na parte mais alta da nossa cidade. Em troca de uma moedinha de um real. Ao perceber que ela trazia uma meninazinha nos braços. Condoído de tal situação aflitiva em que ela se encontrava. Aceitei que a pobre mulher lesse o que as linhas da minha mão direita poderiam dizer.

E elazinha. Figura de aparência carente. Cabelos tintos em louro. De idade incerta. Depois de depositar a criança num canteiro de flores. Ao estender a ela a minha mão direita.

Ela olhou atentamente. Pensou com os olhos e munida de sua argúcia e entendimento de fazer vaticínios sobre o futuro. Acabou por me dizer.

“O senhor deseja ter como presidente um capitão do exército. Com vários mandatos como deputado federal. Um politico falastrão. Casado pela terceira ou quarta vez com uma esposa linda. Chamada Michele. Que fala o que pensa e tem uma paciência de camelo com sede. Tem tentado combater a corrupção com as armas que detém. Defende com unhas de dentes limpos a familia e a pátria. Se diz evangélico. Professa a sua fé no Senhor Nosso Deus Pai. Professa e defende o uso de armas em defesa própria. E se algum repórter a ele lança alguma pergunta idiota ele retruca com respostas impróprias. Hão de concordar comigo que ele não é. Muito menos há de ser leitor de nenhures de seus livros. E nunca seria demais recordar que o dia vinte e nove passado é o dia do livro.  Muito menos seria de mal alvitre repetir a frase de Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros.” O seu candidato vai ser o vencedor do pleito acontecido no dia de ontem. Com uma margem enorme de votos a favor. E, no seu próximo governo vai se sair ainda melhor. Combater a inflação e por uma pá de cal na corrupção. Vai dar um jeito na saúde que anda de mal a pior. E, na sua reeleição. Não restam dúvidas que ele vai ser reeleito. O desemprego vai cair a níveis tão baixos como um pintor de rodapé assentado de cócoras.  A violência vai ser contida. Os bandidos. Sejam os de colarinho branco e engomado não terão outro destino senão a cadeia. A pátria amada e idolatrada não mais vai ser apenas letra do nosso lindo hino nacional. E nenhum filho teu vai fugir a luta. Bolsonaro vai se reeleger. Do norte ao sul do país. De leste a oeste vai ganhar com uma margem ampla de votos. Fica tranquilo, meu bom doutor. No dia trinta e um juntos vamos celebrar a vitória de nosso candidato. E quem de fato irá ganhar com a vitória do atual presidente? O nosso amado e idolatrado Brasil”.

Subi a rua com a pulga atrás da orelha. Deveria crer no vaticínio da ciganinha? Ou seria mais uma fake News?

As urnas não disseram amém. Foi uma disputa voto a voto. Com uma margem apertada venceu o petista barbudo.

E agora meu bom José?  E agora meu velho Tião Barnabé?

O que nos espera no próximo ano. Dois mil e vinte e três nos trará sorte ou azar?

Da próxima vez prometo não crer nas previsões daquela ou doutra cigana. Irei simplesmente depositar uma moedinha de um real na palma de sua mão e seguir em frente. Que atrás vem gente.

Já eu penso que nosso amado país vai continuar a ser saqueado. A nossa Petrobrás vai novamente dar com os burros no petróleo. E o petrolão não terá fim. A corrupção. Aquele manjado molhar a mão vai ser ainda pior. As promessas feitas em campanha do PT vão cair em descrédito.  E o empobrecimento da nação brasileira vai ser mais uma realidade sem fim nem começo.

Dia dois de novembro celebraremos o dia de finados.

Que não seja. Espero. Como bom brasileiro. Que não seja o finado do Brasil…

 

 

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