Já experimentei. Pela primeira vez. A tal palavra amor quando, naquele momento único, ao ser expelido do útero da minha saudosa mãe Rute. Ela me tomou nos braços. Ainda reféns das dores do parto. E olhou-me. Com a ternura e amor de uma mãe verdadeira. Beijou-me na face. Ainda suja de líquido amniótico. E me ouviu chorar. Não aquelas lágrimas que desciam como cascata de sua face crispada pelo sofrimento por me ter dado a luz. E sim aquele choro de bebê recém-nascido. Que quanto mais forte indica um apgar mais alto. Assim preconizam os pediatras.
Chamo também de amor quando a nossa pátria é o objeto de nosso amor. Sentimento manifesto no dia de hoje. Trinta de outubro. Dia quando optamos por estre ou aqueloutro candidato que nos vai gerir os destinos de nossa nação brasileira pelos próximos quatro anos.
Também nomeio de amor o primeiro beijinho tímido. Que aquele rapazola. Ainda imberbe que nunca experimentou o sexo. Só teve o primeiro orgasmo durante o sonho com uma garotinha. Sua coleguinha na escola. Imaginando-a semidesnuda banhando- se numa piscina. E ele. Ingenuamente. Inocentemente. Acabou por se banhar na mesma piscina. Pena que tudo não passou de um sonho e nada mais.
“Declaro-os marido e mulher”. Isso quase sempre é dito pelo pároco. Quando o casamento termina. E os noivos. Depois de trocarem as alianças. Dizem um ao outro: “Maria. Eu a aceito como esposa. Amando-a e respeitando-a. Até que a morte nos separe”.
Pena que este amor acaba. Quando a paixão fenece. Quando o carinho e o respeito são sepultados. No momento em que a presença de um aborrece ao outro. E aquele consórcio. Mesmo que o padre diga que seja até que a mote os separe. Num instante. Seja depois de muitos anos. Ou prematuramente. Termina cada um no seu corner. Como contendores de uma luta que começou entremeada de diálogos e acaba naufragando como uma nau sem rumo e sem destino.
Várias nuanças e tipos de amores existem. Amor filial. Amor que deveria existir entre irmãos. Amor ao próximo mesmo que por vezes se encontre distante. Amor ao vizinho e aos que não moram tanto na mesma cidade ou bairro. Amor entre os endinheirados que sabem dividir o muito que têm com os menos aquinhoados pela sorte.
Eu ainda sinto incontáveis amores. Tanto aos que já se foram. Da mesma forma nutro muito amor de carinho não apenas a minha familia. Aos meus pacientes. Condoo-me da dor de outrem. Amo. Talvez não seja o memo tipo de amor que me fez unir a minha querida esposa. Amor aos meus três netinhos. Aos filhos que me deram netos. Afinal; pretendo continuar a amar pelo resto de minha vida. Enquanto minha vida perdurar. Não sei até quando…
Há anos. Pensando que todo médico podia ser fazendeiro. Acabei comprando uma rocinha. Dita prejuizenta. Pois o muito que entendia de urologia. Era muito pouco. Quase nada. Em se comparando à vida na roça. Onde tem-se de acordar cedo. Faça chuva abençoada ou frio que nos faz arrepiar. Onde o galo canta. Mas quem manda no galinheiro é a galinha. Onde a gente tem de saber identificar qual dentre todas de um curral é a melhor vaca leiteira. Para não ser passado pra trás em catiras mal feitas. Onde um aperto de mão vale muito mais que mil notas promissórias. Lugar onde cartão de crédito não merece crédito. Local onde dívidas são pagas antes do combinado. Onde gente que vem da cidade costuma ser tida como nada confiável.
Depois de anos e anos. E muitos anos mais. Tomando prejuízo na venda do leite. Pouquinho que meus incontáveis retireiros diziam que tiravam a cada dia. Levando na caçamba da minha caminhonetinha sacos e mais sacos de ração a dar as vacas. Nada versos nada sabia que tinha o dever de fazer silagem. Para que a produção leiteira não caísse mais ainda. Já que por um litro de leite. Não o mesmo que se vende em supermercados. Com o preço mais que o quíntuplo pago ao produtor. E o leite que trouxe hoje cedo da minha roça aquilo sim é que se deve chamar de leite.
Mas o fato que gostaria de retratar. Neste dia final das eleições. Espero que meu candidato vença. E já declinei. Em crônicas passadas quem é ele.
Além de amar e admirar o bom povo da roça. O pequeno produtor principalmente. Não os donos de fazendas enormes chamadas de Agronegócio.
Esse tipo de amor diferente. O mesmo que venho aprendendo com o passar dos anos.
Fomos padrinhos de casamento entre o arrendador das minhas terras e sua esposa parceira, cúmplice, verdadeiro esteio de puro cerne de amoreira. A sua amada e respeitada dona Lúcia.
É ela. Sempre ela. Que, quando me levanto cedinho. Da minha linda casa beira represa do Funil. Onde passei uma noite solitário. Tendo como amigos os meus dois cãezinhos filhotinhos sapecas. O pretinho de nome Robson. E o rajadinho de olhos verdes e pele rajada como a de um tigre. Por mim batizado Clo.
Antes da seis e meia já me preparava para voltar à minha Lavras.
Abri a portinhola do canil e dei de beber e comer aos meus dois amigos cães.
Não poderia deixá-los soltos como de costume quando estou lá. Senão eles fariam estripulias e talvez se evadissem do lugar. Foi com o coração em pedaços que escutei seus latidos quando me despedi.
Pena que em Lavras não tem espaço para eles morarem já que moro num apartamento.
Passei antes da subida pelo curral.
E lá estavam eles. O Roberto e sua amada Lúcia tirando leite. Só os dois. Ninguém mais.
Eles sim são parceiros. Para o mal e o bem. Trabalham juntos. Dormem juntinhos no mesmo quarto. Jamais os vi discutirem. Rusgas entre eles não existem. Compartilham problemas e sucessos. Alegram-se e se entristecem tanto pela alegria de seus quatro filhos. São cúmplices e torcedores pela vitória ou derrota tanto do Carlinhos. Do Binho. Da Menina Seriema e da Lucilene mãe zelosa do Cauã.
E muitos de nós. Com a situação financeira mais confortável. Vivemos como contendores num ringue de box. Sem diálogo. Sem uma boa e estimulando conversa.
Hoje deixei cedo a minha casa na roça. Trouxe comigo um litro e meio de leite fresquinho.
E, além daquele leite doado pelo casal, pelo qual tenho verdadeira admiração. Assim como todos que vivem na roça.
Levando. Dentro do meu eu. A exata definição do que seja amor.