Não poderia me calar

“Quando você foi embora. Fez-se noite em meu viver. Forte eu sou mas não tem jeito. Hoje eu tenho de chorar. Minha casa não é minha e nem é meu este lugar. Estou só e não resisto. Muito tenho pra falar”

E o grande Bituca, prestes a se aposentar, continua assim: “solto a voz nas estradas. Já não quero parar. Meu caminho é de pedra. Como posso sonhar” …

Mas chega um tempo que a saúde não nos deixa outra opção. Ficamos doentes. E, como o médico não tem o direito de se aposentar. Já que seu solto minguado. Recebido depois de anos e anos de trabalho. Soberbamente no serviço público. Ainda bem que ele ali não se desesperou frente às ingratidões recebidas. Outros colegas de farda não tiveram a mesma ventura. Depois de anos infinitos esquecendo-se das próprias dores já que a dos outros lhe dizem respeito. E se as ignora pode ser processado por omissão ou negligência. Depois de quase prestes a se aposentar. Pra mim jamais por completo. Pois considero o ócio o começo do fim. Quando as doenças oportunistas e inoportunas acabam tomando conta da gente. A soma das nossas aposentadorias mal chega a mais de três ou quatro salários mínimos. Se tanto. A gente. Que antes usávamos o branco como vestimenta. Agora somos. Ao caminharmos pelas ruas confundidos com padeiros madrugões. Com laticinistas cheirando a leite azedo. Até mesmo com açougueiros. Que destrincham bois como dantes destrinchávamos pessoas.

Quando. Na tenrice da minha mocidade. Acabava dizendo bobagens. Minhas professoras zelosas me reprendiam mandando-me calar a boca.

E eu não discutia as suas ordens.  Considerava-as como generais cheias de estrelas pregadas no ombro ou no peito. E me calava. Emudecia-me. Mesmo não estando de acordo com suas admoestações por vezes contraditórias aos meus pensamentos.

Domingo perto. Final deste mês em curso. Como brasileiros. Independentes de nossa idade ou capacidade limitada de nos deslocarmos até as urnas. Antes do fechamento das outras urnas. Aqueles chorosos presentes ao nosso velório fechem o tampo do caixão. Temos de tomar uma difícil decisão. Em quem votar para presidente. Tendo seu vice apenas uma figura decorativa. Que, uma vez o chefe esteja em viagem a outro país o tal suplente tem de assinar aquela montanha de papel. Mesmo que não as tenha lido.

Não posso omitir-me. Ou calar-me. Neste momento de suma importância no destino de nossa pátria amada. Terra descoberta por Pedro Álvares Cabral. Talvez equivocadamente. Pensando estar noutro país. Mais ao norte. Onde a lei é respeitada. O povo de verdade é patriota. E em quatro de julho a bandeira americana é hasteada em todos os lugares. Embora ali na América tenham o inusitado e condenável hábito de chacinar pessoas inocentes. Como se fossem cervos chifrudos na época em que lhes é permitida a caça.

Antes que o mal cresça. E a crise se alastre ainda maior. Não me avexo em declarar a quem irei dar meu voto.

Não posso mais ficar em cima do muro. Lembrem-se que o muro de Berlim já foi destruído. E as duas Alemanhas se tornaram uma só pátria. Um país que admiro como amo o meu Brasil.

Não tentando convencer ninguém a voltar naquele ou naqueloutro. Já que cada povo tem o governo ou o desgoverno que anseia.

Sem tentar incutir minhas ideias à força na cabeça de ninguém. Cito estatísticas e conquistas do atual governo bolsonarista.

Antes a transposição do Velho Chico foi começada e interrompida no desgoverno petista.

Isso sem soltar a voz nos desvios de verbas. Nas propinas e no molhar as mãos com água suja das empreiteiras.

Na fedentina que aquele senhor barbudo me inspira. Nos seus incontáveis processos por fraude e por ter quebrado a Petrobrás.

Na riqueza e na opulência de um dos seus filhos. Que de catador de bosta de elefante se metamorfoseou em biliardário da noite pro dia.

Na queda comprovada do desemprego no governo atual. Nas suas tentativas. Por vezes malogradas de dar um fim à corrupção.

Apesar de ser um boquirroto. Falastrão. Como se fosse pecado grande falar a verdade. Doa a quem doer ou feder.

De dizerem que seus filhos fizeram parte de um esquema criminoso conhecido por “rachadinha”.

De terem tentado tirá-lo do páreo com uma facada em Juiz de Fora. Quando em campanha na primeira eleição vitoriosa. Foi dele o meu voto.

Confesso que errei uma vez apenas. Já votei no Lula. Votei no caçador de marajás. Que se revelou mais um vilão ao nos confiscar a poupança quando presidente.

Errar uma vez considero humano e perdoável. Mas duas. Ou repetidas vezes um atestado de. Ou insanidade ou asnice.

Não poderia mais fechar a minha boca. Calar-me. Jamais.

Antes disse que meu voto nem às paredes confessaria.

Agora saio de cima do muro. E, caso leve uma queda. Que seja pelo lado direito.

Esquerda? Nunca mais.

 

 

 

 

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