Ele, o tal candidato a candidato, safado que nem gatuno pego com a mão na massa, a exemplo de um ex presidente que jura nada saber, nunca viu de perto os bancos duros de uma escola. Sobre faculdade não era versado. Maltratava a Última Flor do Lácio Inculta e Bela como o soldado malvado maltrata a boa mulher.
Era tão trambiqueiro que nem os porcos do chiqueiro lhe faziam caso. Sem asseio, sem receio de nadica de nada, vivia pelas ruas, assentado no banco dos amigos das horas vazias, jogando conversa pela janela entreaberta das fofocas sem fundamento.
Numa coisa todos deveriam concordar: pegou fama na cidade. Todos conheciam o Zé Lixo Eleitoral desde a primeira intenção de voto.
Não se sabe de onde ele tirava grana para a propaganda enganosa que distribuía pelas cercanias. O fato é que, durante as prévias das eleições, espalhados pelas ruas, pelo pátio das igrejas, pelos arrabaldes que enchiam os baldes de podriqueiras, milhares e milhares de santinhos, não muito bentos, qualquer um que por ali passasse encheria caçambas e caçambas de caminhões basculantes de tais propagandas fortuitas e escabrosas.
Zé Lixo Eleitoral não tomava jeito. Nem a pobre mãe do Zé votou nele na última eleição, quando foi o derradeiro colocado para prefeito, onde só existia um único candidato interessado na penúria dos cofres da prefeitura falida.
Zé Lixo Eleitoral tinha uma notória virtude. Era perseverantemente perseverante. Não desistia do seu intento nem que a porca fosse pro brejo da desesperança morta.
Assim que perdia uma eleição se preparava para a outra. Com a mão e a coragem, com que dividendos, ninguém sabia de nada.
Zé não tinha amigos em quem confiar. Vivia ele, mais ele, menos ele, mais ninguém, naquela casinha modesta, flores no jardim, cerca de madeira estropiada, porta da casa por arrumar a tramela, torneira que um pingo leva o outro, pelo corguinho sujo que passava pela porta dos fundos, que dava num atoleiro que mais parecia um charco alagadiço.
Tomado pela idade gasta, passado dos sessenta e cinco anos, ganhou uma prerrogativa inerente aos idosos. Podia andar de ônibus de graça. Pagava meia entrada nos cinemas. Mas nunca assistiu a nenhum filme, sua vida era um filme de terror.
Na eleição seguinte, aquela que terminou a poucos dias, em que o PT foi fulminado em cova profunda, nunca mais, tomara, Zé Lixo Eleitoral retentou pela undécima vez.
Fez pesquisa de opinião. Todas foram unânimes em informar-lhe a última posição.
Sabe-se que o safado do Zé não pagou a pesquisa. Deu cano como costumava fazer: na loja da esquina, no açougue do Zé Galinha, na mercearia da dona Joaninha. Que voava que nem passarinho sem asa.
No day after ao pleito passei por uma rua do centro. Andava como sempre faço, que nem cachorro sem dono.
Era tal a imundície da cidade, ruas amontoadas de papel abandonado, retratos de candidatos esparramados ao léu, que me deu vontade de montar numa vassoura encantada, e voar rumo ao céu.
Como não foi possível mais esse devaneio pueril, acabei por ficar aqui mesmo.
Contrariado, confuso, com a mente conturbada, ensandecido pelos rumos do meu querido país do faz de conta, a quem chamam Brasil.
Olhando em direção ao chão, junto ao meio fio, vi, juro não ser fruto da minha imaginação imaginosa, uma foto do Zé Lixo Eleitoral voando em direção ao alto. Um ventinho suave assoprava naquele lindo dia.
De fato, ao sair daquele lugar, depois de atender em um posto de saúde da zona norte, à espera do ônibus que me levaria à zona sul, a poluição do retrato do candidato que nunca seria eleito, ou seria?, se transformou num lindo cisne negro como a noite.
Mais uma ficção do escritor madrugador, que nunca seria eleitor do Zé Lixo Eleitoral. Ou de qualquer candidato que me cheire mal…