Sempre me considerei um semeador de letras.
Mesmo que a chuva não venha, mesmo que o sol aqueça a terra desnuda, mesmo que ele continue a castigar o pasto, mesmo que nuvens não se derretam em água, mesmo que lá fora a temperatura se descontrole em calor, mesmo assim, tenho tido o prazer de escrever livros, empilhar letras, com elas formar palavras, frases, umas mais felizes, de boa correção, outras de pior estilo. Por que não?
Ontem mesmo lancei mais um atrevimento em forma de livro novo. Foi o décimo quinto. Todos estão empilhados, lado a lado, sem se estranharem, na estante que respalda as minhas costas largas. Creio, pelo menos nunca ouvi, ou vi, uma rusga entre meus livros. Eles se comportam muito bem. Estáticos, enfileirados um ao outro, por ordem de nascimento, sem lamentar a posição incômoda que os deixo ficar, ladeados e amparados por duas figuras de cavalos feitas em pedra sabão. Não sei até quando vou continuar minha coleção. Se paro agora, dadas as enormes dificuldades em encontrar leitores vorazes para minhas modestas obras literárias, que não se deixam vender como as de outro escritor quase homônimo, que tem o sobrenome de um voraz comedor de cenoura, ou se persisto na minha arte pouco conhecida, a não por alguns míseros leitores que ontem acorreram ao lançamento do meu Mugido de Vaca e Cheiro de Curral.
Confesso certa preocupação, quase uma baita obsessão, coisa me faz tão bem como as pernas ágeis me fazem, em continuar a minha missão de semeador de letras, formar palavras, lançar livros um a cada ano, embora em alguns anos não tenha nascido nenhum filho de papel e letras, oriundos de uma maternidade especial, a quem batizaram de editora.
Na véspera do lançamento do meu derradeiro livro, no mesmo dia pela manhã, confesso que fiquei surpreso pelo amontoado de amigos que ali, naquele clube do condomínio onde ainda moro, não sei quando, ou se, irei me mudar, que não apenas compraram livros, como me deram a honra de me prestigiar, fui ter à roça antes prejuizenta, agora não tanto, nas mãos hábeis de um amigo versado em vacas e esterco de curral.
Deixei a cama antes de o sol despertar. O sono, como de costume, não tem sido presença marcante dentro da minha paz.
Antes das sete, bem antes, estacionei minha caminhonetinha, a qual epitetei de Pratinha Valente, levando ao meu lado, além de uma dúzia de pães fresquinhos, para tomar café junto ao meu amigo herdeiro dos meus sonhos mal resolvidos, um alforje marrom, que sempre carrego dependurado ao ombro, enviesado ao pescoço, bolsa antiga comprada em Buenos Aires, lá a conhecem por Burral. Dentro dela alguns exemplares do meu novo livro.
Uma vez lá apeado fui logo arriando o potrinho de mesmo nome do meu primeiro neto – Theo.
Depois de a cela em seu devido lugar, barrigueira apertada, freio na boca sensível do animal, um cavalinho inteiro como eu fui, antes de montar tomei cuidado para não me esquecer do meu alforje marrom.
Era a primeira vez que minha cavalgadura querida levava livros na intenção de venda. Aquele foi meu segundo lançamento rural. Na primeira vez meu Burral alforje não se fazia presente. Muito menos meu livro novo não havia nascido.
Partimos os dois, Theo e eu, rumo ao desconhecido. Dentro da bolsa a tiracolo, tendo o cuidado esmerado de não machucar o conteúdo do alforje especial, três volumes novinhos do meu Mugido de Vaca e Cheiro de Curral. Não sei se iria conseguir me desfazer da minha carga especial.
Ah!, ia me esquecendo. Antes de partir negociei, fiz uma catira, nem sei se levei manta, de dois exemplares do livro, primeiro com o amigo Roberto, marido apaixonado pela sua Lúcia, que custava, na cidade, cinquenta reais, na roça o preço baixou para quarenta. Roberto, depois de ouvir do autor uma crônica lida em voz alta, naquela varanda linda da casa amarelazul, cenário do romance Madest, acabou por concordar em trocar o livro por duas dúzias de ovos caipiras, duas frangas por criarem penas, um porquinho que iria nascer, além de dois sacos de esterco curtido ali mesmo, e uma bezerrinha linda, ainda mamando o colostro da mãe. Se fosse um reles gabiru não teria feito o negócio. O outro livro, eram três, foi trocado pelo canto da seriema, com a participação das cigarras, seres fantasmas que não mostram a carantonha feiosa, um saco de beterrabas recém nascidas do canteiro da horta de couve, um amarrado de cenouras amarelinhas, uma dúzia de galinhas poedeiras com o ovo presumivelmente no fiofó, uma lata de minhocas nervosas, isca de lambaris, que por sua vez seriam usados na captura de traíras gulosas, além, depois de muita negociação, um sorriso da dona da casa, que era fã do escritor, que por acaso sou eu.
O embornal Burral alforje ficou com apenas um exemplar.
Theo e eu subimos o morro agudo. Não foi preciso apear na porteira, como de hábito faço.
A primeira parada foi na fazendola do Dorival. Ali ele vivia com o pai, Toninho, com seus dois filhotes lindos, como o dia estava, irradiando sol por todos os poros, da esposa amantíssima, do irmão Carlinhos, junte-se a todos vacas, cavalos, cães ferozes, felizmente latidores que não mordiam enquanto ladravam, e outros bichos da roça. Se fosse declinar o nome de todos não caberia nesta crônica.
Com o Dorival não foi fácil a catira. Foi preciso usar toda a minha capacidade de persuasão, toda a minha bicaria, ler duas dúzias de crônicas lindas eleitas ao acaso, jogar conversa fora, inventar histórias, curtas, para não cansar o interlocutor, explicar o significado de algumas palavras tortas, enquanto ele e o irmão descarregavam da caçamba do trator uma enorme quantidade de silagem fresquinha, tentei fazer uma fotografia com o danado do Zé Peleja, apelido do Dorival, dado por mim mesmo, não fui bem sucedido, ele se escondeu por baixo de um balaio de milho, enfim foi ultimada a catira.
Pelo derradeiro exemplar do meu novo livro, o único que restava dentro do alforje especial, comprado na Argentina, que precisa ser trocado por causa de uma dúzia de buracos por onde vazam os livros, aceitei, depois de muito regatear, me postar de joelhos, com a anuência do cavalinho Theo, acabei trocando o livro por : duas dúzias de palavras soltas ao vento, três vassouras de capim amarelo, que se desfaz rapidinho, três dezenas de promessas vãs, não sei quantas horas de ócio, ali jogando prosa boa fora, uma promessa, que não sei se vai ser cumprida, de me dar uma égua em fim de carreira, além de um sofá gasto pelo tempo, de uma coisa que nem soube o que seria, ao fim de mais de dez horas de negociata, que coisa difícil era vender um livro ao Zé Peleja, acabei saindo da roça do amigo Dorival sem o livro, dado de coração aos seus lindos pimpolhos, depois da promessa de que os dois seriam escritores.
Votei no lombo do Theo com o alforje Burral embornal vazio.
Chegamos a minha roça felizes da vida. Depois de esvaziar meu alforje de livros. E trazer, dentro dele muitas histórias nascidas da minha imaginação criativa.