Depois de anos de sua morte, são tantos, que nem recordo quantos, tantos prantos derramados, lágrimas sentidas, saudades recolhidas, imagens revividas, ao olhar a nossa fotografia defronte de onde escrevo, naquela data solene em uma reunião rotária, quando ele recebeu de mim uma comenda, não me lembro qual foi, hoje, setembro em seu começo, numa cavalgada em minha roça, ao passar por uma casa beira- lago, sem me apear de um cavalinho novo, um senhor, pra mim desconhecido, lembrou-se, em tempo oportuno, encontrava-me meio perdido, do quanto meu pai foi generoso com ele.
Aqui mesmo, por detrás das minhas costas repousa outra fotografia em preto e branco, estando eu, jovem criança, ao lado de minha mãe e dele, suspenso pelos meus braços, a cavalo nos ombros do meu jovem pai, num tempo longe, bem longe, que saudades esse tempo trás…
Foram tantos e tantos instantes juntos, tantos momentos de doces recordações, outros tristes, quando de sua enfermidade cruel, que se fosse enumerá-los todos não haveria espaço no papel.
Ainda me lembro de quando ele veio a se ausentar em meus braços inermes de médico.
Com que dor constatei, naquele leito de morte, o passamento de meu pai.
Sabedor de que aquela pertinaz doença não tinha cura, dado ao sofrimento por que ele passava, causando desalento em toda família, em minha mãe, meu irmão, minha prima irmãzinha querida, sabendo, caso sua agonia persistisse por mais tempo, mais sofrimento, mais dor, todos nós, unidos, na sua dor, sentiríamos mais dissabor.
Foi com certo alivio que o vi partir. Embora, como filho mais velho, médico ainda jovem, a morte de um pai, vitima de tal moléstia fatal, talvez fosse o melhor remédio.
Hoje, anos depois de sua despedida, sentida, ressentida, as boas lembranças dele muitas vezes são deparadas, em muitas datas lembradas, como hoje, sábado quente de setembro.
Como de costume fui ter à roça.
Lá cheguei antes das sete. O amigo Roberto, herdeiro dos meus sonhos, parceiro nas minhas vacas, morador da minha casa, junto à esposa Lúcia, acabara de ordenhar as ruminantes.
Encabrestamos os dois animais de sela. A mãe, uma linda égua pampa, e seu filhote com o mesmo nome do meu neto, Theo, foram arreados em tempo curto.
Saímos, montados nos dois animais, morro acima.
Logo o amigo Roberto me deixou só.
E lá fui eu, montando o potro castanho, ainda meio rebelde, sem destino certo.
Passamos por uma porteira com a régua quebrada. Theo não se fez de rogado.
Cavalgamos por baixo de um eucaliptal sombreado. Descemos um morro agudo.
Foi então que Theo deu mostras de inexperiência. Refugou em uma pontinha cambota, furada numa tábua antiga.
Deu Upa para convencer ao animal para seguirmos adiante. E, depois de uma conversa de pai para neto o cavalinho encrenqueiro zuniu no rumo indicado.
Que marcha deliciosa tem meu cavalo inteiro! Ele realmente não tem parança. Como afirmou um amigo de dantes.
Theo relinchava quando via vacas. Talvez ele se sinta como elas. Foi criado em meio a elas. São amigos verdadeiros.
Ao passarmos por mata- burros assoreados Theo de novo refugava. Por vezes tinha de apear, puxá-lo pela rédea, conversar ao pé do ouvido, para convencê-lo a prosseguir.
Depois de tempos de cavalgada, de varar porteiras, deixar tronqueiras abertas, de ver a pastaria ressequida, ipês amarelos olharem para nós, despejando flores ainda vivas, chegamos ao epílogo final.
Era um condomínio beira- represa. Onde lindas casas de repouso olhavam o lago com olhos perdidos no nada.
Entrei com o cavalinho ranheta, como eu usava ser, em uma casa, a única onde se via gente.
Cumprimentei a pessoa que ali estava.
Apresentei-me, disse meu nome: Paulo Rodarte.
Foi quando aquele senhor, rodado em anos, me perguntou se era filho de Paulo José de Abreu, Ex gerente do Banco do Brasil.
Respondi a resposta exata. Era sim, meu pai.
De pronto recebi, da boca daquele senhor simpático, o qual não conhecia pessoalmente, e sim de ouvir falar, que meu pai foi muito bom para com ele. Ajudou-o, e muito, quando ele mais precisava de apoio.
Eu e Theo voltamos de onde viemos. Passamos pelas mesmas porteiras. Pelos mesmos mata- burros assoreados. Pelo mesmo caminho de antes. Sem que o Theo relutasse, uma vez que fosse, a passar por aqueles obstáculos.
Cheguei a casa com saudade do meu pai. Tudo motivado pelas lembranças, que estão entronizadas dentro do meu eu, tomara até a eternidade.