Em tempos idos no meio de nós apenas existia um ribeirãozinho raso, atapetado de pedras lisas e brancas no fundo, onde nadavam lambarizinhos de rabo vermelho, ariscos que não mordiscavam meu anzol, que facilmente podia ser ultrapassado por um pulo ligeiro, e logo estávamos um ao alcance da saudade do amigo.
Anos depois de uma convivência rica e amistosa o lindo corguinho se transformou num imenso lago de água doce, a princípio barrenta, resultado do represamento de um rio que já foi grande, agora o pobre rio jaz cerceado na sua liberdade de movimento, se tornando um manancial a serviço da ambição humana.
Com que saudade e doces lembranças me lembro do amigo Tião do Cervo…
Sua casa era singela. Como sua alma pura, salpicada de purpurina que herdou das asas dos anjos, pessoa que nunca fez mal a ninguém, que o diga a viúva que o sucedeu. Ou os filhos, netos, bisnetos, tataras, os quais criava com todo carinho, até muitos ali persistem, com certeza lembrando-se, como eu me lembro do querido amigo que um dia me pediu, lógico que lhe cedi o espaço, um caminho para chegar ao seu pedacinho de céu, por causa de um vizinho arengueiro que teimava em não lhe deixar achegar-se à sua casa, por uma antiga estrada, hoje engolida pela sede de água da represa do Funil.
Vezes tantas, quantas foram, ao atravessar de barquinho o braço da represa que hoje me fita com ares de superioridade, íamos a sua horta de couve, de onde trazíamos mandiocas macias, quiabos que se derretiam só de ver a panela, couve manteiga, pepinos doces, batata tão doce quanto o sorriso do amigo Tião, e, quando lhe perguntava em quanto ficaria a feira, ele me respondia, com um sorriso nos lábios duros, em contraste com a maciez da sua alma : “ Quer saber o preço? Tudo isso vale nada. Desde que você, meu amigo, volte sempre”.
Jazem anos que ele morreu. Morreu aqui pertinho de mim. No mesmo hospital que me abraçou tão bem, quando aqui cheguei.
Quando soube da nefasta notícia confesso que derramei gotas de água salina pelo canto dos olhos. Aquilo veio a se chamar de choro.
Ficamos anos e anos apartados. Ele, no céu. Eu, tentando fazer daqui da minha terra um céu. Hoje, dez de setembro, dia quente, céu parcialmente nublado, tomara que chova logo, sábado, fui ter à minha rocinha hoje em mãos expertas de um amigo.
Deixei a cidade bem cedo. Como de hábito acontece.
Tão logo ali estacionei a minha pratinha valente, uma caminhoneta que só anda aos sábados, não por ser preguiçosa, o amigo herdeiro dos meus sonhos apareceu montado no meu potrinho Theo. Cavalinho este inteiro, gracioso, de boa marcha, um tanto rebelde ainda, por falta de peão em seu lombo a corrigir-lhe os senões. Theo foi batizado com este nome em honra e glória do meu primeiro neto. Muitos podem pensar que seja uma descortesia para com o querido pimpolho. Já eu, amante das vacas, dos equinos, dos animais de quatro patas, considero um encômio nomear o lindo menino com o mesmo nome do saudável e jovem cavalinho.
Depois de arriar o Theo com uma sela escura, da mesma cor do urubu, após subir um morro agudo, sem destino exato, ao passar por uma porteira entreaberta, foi que resolvi aonde ir.
Iria visitar a casa onde viveu, por tantos anos, o velho amigo Tião. Também alcunhado de Tião Bala, não sei por que essa alcunha.
Iria por outro caminho, já que saltar as águas da represa não seria possível. Theo não sabia nadar, tão bem como o avô do outro Theo.
Fui pelo caminho mais curto. Por informação de outrem.
Mas o curto provou ser o mais longo, isso vim a descobrir depois.
Depois de mais de duas horas de cavalgada, apeando ao abrir porteiras, depois de apertar a barrigueira do cavalinho manso, que por vezes refugava ao ver algo estranho, relinchava ao ver animais no pasto esturricado, ressentido pela falta de chuva, de me equivocar nas encruzilhadas, errar o caminho mais de não sei quantas vezes, graças a informação de um sitiante desconhecido, que logo se lembrou de mim, de pedir, encarecidamente, que as árvores secas me dissessem por onde ir, aos pezinhos de café florido de flores branquinhas como as nuvens que, por favor, não me deixassem a ver navios, de suplicar a dois canzarrões, mal encarados, que nos deixassem partir, de pedir, por gentileza, que as tronqueiras não beliscassem a minha calça surrada, deixando meu traseiro de fora, depois de não sei quantos depois, enfim cheguei ao meu destino.
Quem me recebeu no ninho do amigo Tião do Cervo foi sua amável esposa. Ela ainda ostenta, nos cabelos brancos como algodão, a face gentil e hospitaleira do amado desaparecido de aqui pro céu.
Fiz várias fotografias com meu celular de plantão. Do lado de cá observava meu pedaço de chão. Patos, gansos, galinhas caipiras, pintinhos protegidos pelas mães, pássaros andarilhos, todos passeavam na horta onde fora a de couve, que não existe mais, como o dono das mandiocas de rico sabor, que ele me ofertava com o carinho de amigo.
Fiquei por breves minutos sentindo no ar o aroma doce do velho Tião. Era um cheiro de saudade misturado com odor de manjericão.
Depois de apertar a barrigueira do potrinho Theo, de constatar como ele estava cansado, tentamos voltar pelo mesmo caminho.
Mas, quem não erra não alcança.
Foi quando me lembrei de um velho provérbio: “ Trabalhe duro para ter a vida que você sonha. Mas não se esqueça de ser feliz com a vida que você tem”.
Fui mais além. Na volta errei de novo o caminho. Era a primeira vez que passava por aquelas paragens, montado num cavalo novo, um idoso, como eu.
Parecia que o Theo Horse sabia por onde ir. Mas eu relutava, ia por aqui, por acolá, e fomos dar em um condomínio novo, onde não havia ninguém a quem perguntar. Fomos salvos, Theo e eu, por um carro em movimento. Era o candidato à prefeitura de Ijaci, em quem iria votar, caso fosse eleitor daquela agradável comarca.
Fabiano me indicou por qual caminho seguir. Era só passar por uma igrejinha amarela, rezar um cadiquinho, suplicar ao Deus dos cavalos, que, por favor, em nome de quem, não sei, me faça voltar ao meu pouso final.
A partir de aí foi fácil. Theo não mais empacou em porteiras. Não mais relinchou besteiras.
Uma vez no alto da estrada avistamos a linda Ijaci, tendo, como pano de fundo, a represa do Funil.
Demos uma paradinha rápida na casa de uns amigos chegados. Tomei água como se fosse suco de néctar das águas caídas do céu. Theo não quis matar a sede. Também não lhe perguntei o desejo.
Chegamos a minha rocinha prejuizenta cansados da longa jornada.
Sentindo no peito, lá no âmago, perto do coração, onde a saudade mora, quão grande é a distância entre as lembranças e a saudade…
Saudade do amigo Tião…