Quem ainda não se viu em dificuldade nos consultórios médicos advindos do SUS, quando é atendido, depois de exercitar a paciência elástica, após enfrentar filas enormes, ser desdenhado pelo funcionário público ali estacionado para essa função (não importa se o salário está atrasado, ou não), ao final de minutos que mais parecem a eternidade assenta-se defronte àquele jovem esculápio, que ignora o que seja esculápio, recebe, nem ao menos um olhar olhos nos olhos, um afago de mão, um exame mais apurado, e, quando pensa que a consulta teve início ela já teve fim, e você sai com uns rabiscos na mão que nem o farmacêutico preparado consegue desvendar os hieróglifos complicados que mais parecem a extrema unção de uma múmia faraônica, a mais antiga de que se tem notícia.
O pior que pode acontecer a tal fulano de tal é ser encaminhado ao urologista para se tratar de hemorróida, coisa que acontece com mais frequência do que se observa. Ou ainda, pasmem!, quando se recebe o encaminhando de um pediatra advindo do PSF, enviando a pobre criança, recém nascida, com suspeita de cálculo renal sem nunca ter tido cólica sugestiva, quando o que ela apresenta, em verdade, é um baita bico de lamparina estrangulado, conhecido pelos urologistas como parafimose, exibindo, na mão dos pais aflitos o exame de urina com alguns cristais de oxalato de cálcio, mero achado de exame, que nada tem a ver com pedra nos rins, excepcional em recém natos como ele.
Como médico experimentado e provado, quantas vezes errei, não por omissão, e sim por pressa na condução de um caso, nesses anos e anos maiúsculos da minha escalada viva pela medicina. Foram tantas e tantas que nem me recordo quantas.
Quando ignorava o que fazer naquele ou naqueloutro caso recorria aos compêndios da medicina, nem a internet, ou o doutor Google havia sido parido pelas mãos de um gênio, ou ainda, na ignorância daqueles verdes anos, indagava a um colega de mais anos de profissão, sobremodo o amigo que me auxiliava nos atos cirúrgicos o que fazer frente à nova situação.
Hoje a coisa mudou de roupagem. A maioria dos médicos mais jovens, que galgaram a etapa inglória do vestibular vindos do ENEM, como o doutor que me ensejou esse texto, o tal Chiquinho Enem da Silva, desconhecem o que seja fimose ou lordose. Ou ainda onde mora a tal hemorróida, se no canal da urina ou no recôndito abrigo do reto, local onde muitos enfermos, mais velhos, oriundos da roça, dizem ser local de apenas saída, e nunca de enfiar o dedo, no tal toque sem retoque da próstata hipertrofiada. Que saudade daqueles idos anos. Hoje, no ambulatório de urologia onde atendo, quando aparece um paciente que deseja, por que implora, que lhe faça o exame de próstata, mesmo depois de ouvir da minha boca miúda, cheia de dentes em falta, que o exame é prematuro, que deve ser feito a partir dos quarenta e cinco, quando o paciente não tem história de câncer de próstata na família, ou ainda sem sintomas miccionais, ou quando o exame de PSA se situa abaixo de dois, ou menos, o tal doente insiste, persiste, e, quando não lhe toco a intimidade, naquela posição de bastante complexidade, acaba saindo da salinha modesta, sem ar condicionado, quente, insalubre,vociferando contrariado contra o pobre médico assalariado sem receber desde o mês passado.
O tal doutor Chiquinho ENEM que me perdoe. Não desejo, em absoluto, nem de longe me passou essa idéia de jerico cotó, deixar aqui, nessa crônica escrita ao sabor das lutas inglórias pelas bancadas da saúde publica, fica aqui publicado o meu descompromisso em assinar em branco esse tratado de urologia escrito por um urologista praticante, falar mal dos jovens médicos oriundos de qualquer escolinha, das tantas dos mobrais da medicina que o atual desgoverno fincou por aí.
Quero simplesmente, franca e sinceramente, deixar a mensagem final aos doutores Chiquinhos Enens, principalmente os bem intencionados em mudar o status quo, que não é alvissareiro, que, quando tiverem uma hemorróida a encaminhar o façam ao proctologista, não ao urologista. Que quando receberem um paciente em sua maca capenga, um bebê recém nascido, com o piu piu estrangulado, por uma fimose invertida e não divertida, a isso se chama parafimose, o encaminhem rápido ao urologista antes que seja tarde.
São tantos e tantos os casos que me chegam às mãos, coisas e loisas que nem cavalo louco ignora o que seja, as improvidências que pedem providências prementes, que, por favor, meus caros doutores ENENS, façam o melhor para aqueles desprovidos ou desaquinhoados pela sorte madrasta. Quando não souberem do que se trata, não recorram ao doutor Google de Sousa. Vão direto ao especialista, senão, vão virar réus nos bancos ávidos dos promotores que clamam por justiça…