Hoje me perdi dentro da simplicidade do meu mais recôndito abrigo. Dentro de mim mesmo

Agorinha mesmo, neste sábado começo de outubro, primavera se abrindo em flores, dentro do secume do ar que se respira, sem sinal de chuva no alto, embora as pessoas na roça orem tanto, tanto, de dar calo nos joelhos, ao chegar a casa, naquele condomínio onde ainda moro, um dia vou me mudar, tomara seja tão longe quanto o sol da lua, dei com um monte de folhas mortas, trazidas pelo vento, caídas de uma velhusca seringueira chorosa por estar longe das suas irmãs.

Depois de dar um banho na minha caminhonetinha prata, a que fica estacionada quase sempre debaixo da janela do meu quarto de dormir, bom saber que considero o sono desvairado um desperdício, passei, com uma sacolinha de supermercado pendida sobre meu braço esquerdo, a juntar as tais folhas despejadas pela velha árvore, para depois jogá-las no lixo.

Caso me fosse permitido pelas leis dos homens, com o assopro de aceite de Deus, não deitaria as folhas mortas na lata do lixo. Simplesmente, assoprando-as docemente, devolveria todas elas a mesma árvore mãe, depois de reinseridas à vida de novo.

Ficou limpinho o ambiente defronte à minha casa: a garage, o pequeno jardim, o passeio, a caminhonetinha dorminhoca.

Desde longe aprecio as flores do campo. Não renego as orquídeas. Mas sei, dentro da minha pouca sabedoria, que orquídeas exigem muito cuidado com a manutenção de suas belezas. Em flagrante contraste às poucas exigências das flores do campo, que ali nascem, naquele campo rude, sem ninguém que as tenha plantado, cuidado, irrigado, ou podando as flores mortas quando preciso fosse.

Assim como admiro a sinceridade do homem do campo. Que fala como aprendeu com o avô, herdou do pai o talento para falar errado, e continua a ensinar o filho como se fala melhor.

Da mesma forma “desadmiro” a linguagem pernóstica de certos políticos, que, mal sendo egressos de cursos superiores sentem-se superiores simplesmente depois do voto conquistado, por quem errou em quem votar, mas agora é tarde.

Lágrimas escorrem-me pelos olhos ao ver um pássaro ferido. Ou um filhote descido do ninho sem asas prontas a voar.

Da mesma forma fico feliz ao ver a senhora de muitas prendas, humilde mulher da roça, debruçada ao fogão a lenha, sem poder tossir pela fumaça, fazendo goiabada na safra, ou doce de leite com o leite saído de pouco das tetas das vacas mestiças.

Sinto-me em casa entre os singelos. Entre os ricos, novos ricos, miliardários, não fico a vontade. Embora saiba noções básicas de etiqueta, qual o talher para peixe, qual se enganchar naquele filé de boi japonês, que custa os olhos da cara, quase um quilo de ouro puro.

Sofro quando tenho de ir a alguma festa de granfino. Inda mais quando se tem de usar colarinho e gravata, ou fraque, ou coisa que o valha.

Sapato de couro faz espremer meu calo. Minha “Janete”, ou joanete, como costuma dizer o “cumpade” João.

Evito presença em certas reuniões. Principalmente se ela pode trazer confusão. A exemplo: reunião de condomínio, a que trata de voltar o time à primeira divisão, quando o tal time é o lanterna do campeonato.  O último depois do derradeiro.

Sinto pruridos ao ver a madame, saída do salão de cabeleireiro, com aquele penteado “enlaquezado”, pede ao “chauffer”, num francês mal acabado, que lhe abra a porta, estenda-lhe o casaco preto sobre o asfalto, num calor dos diabos, para evitar que a tal molhe o bico fino do sapato alto.

Dou saltos no escuro, mesmo que seja um dia claro, quando percebo, de leve, um pobre deitado no chão, numa rua movimentada, pessoas passando-lhe por cima em passos apressados, como se fosse um reles cão abandonado a sua desdita maldita.

Como me causa desprazer conviver em mundos opostos: uns ricos demais, outros, a grande maioria, vivendo das sobras.

Num dia destes entrei em um castelo. Lindo apartamento, piso em mármore de Carrara, paredes do lavabo em porcelana da índia. Arabescos em ouro puro na parede do banheiro principal. No quarto do casal se podia continuar a visão da nababesca vivenda.

A jacuzzi mais parecia uma piscina olímpica. A ducha principal exibia uma torneira torneada de diamante bruto. Na pia do casal se podia tomar banho, com folga para dois outros casais.

A sala principal me fez lembrar aquela das mil e uma noites. Dois camelos, três dromedários em mármore cinza, em tamanho original, dois tigres sem as bengalas, dois leopardos machos, eunucos, faziam às vezes de segurança dos bilionários que ali moravam de pouco.

A cozinha dispensava a despensa. Era tão grande quanto a serra que daqui se avista.

Não sei o motivo pelo qual fui convidado a um rega-bofe, naquele apartamento triplex, tendo mais dois andares por cima.

Acabei indo. Meio contrariado, depois de voltar da minha rocinha prejuizenta, agora em mãos de quem entende de prejuízo.

Uma vez lá chegado dois vassalos, fardados como guardas do palácio de Buckingham, tentaram me barrar. Só não aconteceu por um simples fato. Exibi o convite em ouro pintado em um lindo cartão de safira amarela (nem sei se existe tal coisa).

Duas horas depois já estava lá dentro.

Reunidos em torno de uma mesa, parecida a do Rei Artur da Távola Redonda, mais de dez mil convivas.

Agora, mais eu.

Consegui devorar o peixe, não sei se lambari ou mandi, com espinha e tudo. O macarrão foi comido com a mão desnuda. Como o siciliano sabe fazer. O arroz com frutos do mar foi por água abaixo. Vomitei tudo ali mesmo. A sobremesa, o tal de “coq au vin”, foi sorvido dentro de uma tigela de canjiquinha.

Para não fazer pior fui dar uma volta pela mansão não tão mansinha. Entrei de gaiato no lavabo. Quando percebi, já era tarde. Dei de cara na privada da empregada que estava em uso imediato.

Saí pela tangente pulando a janelinha que mal cabia meu pé direito. Fiquei entalado ao meio.

Depois de três horas perdido naquele labirinto, que nem o Minotauro conseguiria sair, afinal encontrei uma das saídas. As outras cem estavam impedidas.

Foi quando me perdi dentro de mim mesmo…

 

 

Deixe uma resposta