Hoje acordei com uma estranha sensação de dever não cumprido

Como de sempre acordei antes da madrugada. Talvez pelo adiantar dos ponteiros dos relógios que o tal horário de verão enseja, ou mania minha mesmo, desde quando voltei a escrever com a mesma voracidade de antes. Ou até mais.

O dia promete ser quente. Outro motivo que me atrai a despertar antes que o sol acorde, e fique de sóis abertos entre seus lençóis de nuvens, nessa manhã de dezoito de outubro.

Agora, menos de seis, ao descer a rua, de cima abaixo, poucas pessoas se atrevem a deixar a cama entregue a maciez dos seus lençóis, a tepidez do seu cobertor, ao ronronar do travesseiro, encosto único de que desfrutam os desacompanhados, eu não saberia nunca compartilhar a cama apenas com tais artifícios usados para conciliar o sono. A presença de uma fêmea do meu lado é fundamental. Não apenas para fazer amor, assim como encostar meu corpo em outro, acarinhar cada palmo do outro em contato estreito com o meu.

A data de hoje, dezoito de outubro, ano quase se despedindo, na iminência de inaugurar idade nova, passarei os sessenta e seis para entrar nos sete, quase um sete e um zero, menos sete da data quando faleceu meu pai, me inspira tantas e tantas coisas, tantas, que receio não me lembrar de quantas foram, nesta altura da minha trajetória incompleta pelo planeta vida.

Por falar em vida, e morte, sonho com o dia quando se poderia vaticinar a data exata da morte e fim da vida. Seria, para mim, a consumação de um desejo longevo. A de tentar perenizar a vida contrariando a saga fecunda da passagem ao outro lado dela.

Durante a noite, curta, como de costume acontece, pensei, recostado ao travesseiro, sentindo o hálito cálido da escuridão que mal se permitia entrar pela janela do meu quarto, do lado de fora a seringueira desterrada velava o meu sono, pensei, ou teria sonhado?, com a vida que tenho levado, com a profissão que abracei, desde aquele longínquo e distante ano de 1970.

Foi quando entrei na faculdade de medicina na Belo Horizonte que não existe mais. A não ser aquela que me olha com saudade, dos idos anos que não voltam mais.

Foi um curso médico de pouca intensidade. Não me destaquei entre os demais colegas. Muito mais brilhantes, bons estudantes, que se dedicavam mais aos compêndios gordos da medicina, se lançavam de corpo e alma no estudo dos cadáveres que se deixavam devassar naquelas mesas frias de azulejos brancos, dos quais exalava um cheiro forte e nauseabundo de formalina.

Foram cinco anos, hoje acrescidos de mais um, de entra e sai no prédio da Avenida Alfredo Balena, até hoje assombrada pelas árvores de rica copa, pelos homens de jalecos brancos, naquela azáfama de tentar entender e penetrar pelos corredores complexos do corpo humano sadio, mais ainda complicado pela intercorrência das enfermidades.

Ainda me lembro do dia da formatura. Festa bacana. Todos nós, cabelos fartos, penteados com esmero, magricelas, rostos cheios de esperanças em dias melhores, muitos não conseguiram realizar os próprios sonhos, sentíamos as pernas claudicarem, as mãos tremerem, o suor descer de nossas faces ansiosas por vencer mais esta etapa de nossa existência, as nossas famílias, futuras esposas, noivas, namoradas, assistirem à cerimônia orgulhosas dos seus filhos, netos, parentes. Estudantes de medicina, futuros doutores, sofredores, sacerdotes sem batina, nem de longe pensávamos enricar naquela especial profissão, até hoje concorrida, no entanto, muitas vezes, não valorizada pelas pessoas que pensam que a medicina deveria ser apenas meio de vida, não de ganhar dinheiro, fazer fortuna, como se o dinheiro não fosse parte fundamental para se crescer na profissão.

Médico feito, jovem desfeito, pobre de mim, que imaginava que a dureza da vida terminasse naquele momento mágico da entrega do canudo, do baile pomposo, da festa regada à boa bebida e mesa farta, namoradas imaginando serem as futuras esposas, ledo engano, a escolhida seria outra, aquela que ainda mora na cidade do doutor becado, do ilustre personagem de uma ciranda de sangue e horas perdidas em noites que não acabam nunca, em plantões desmedidos, nas consultas diuturnas que não conseguem chegar a um diagnóstico preciso, que se perpetuam em operações complicadas, que terminam sem hora marcada, na calada da noite, ou despertar de um novo dia.

A residência médica era o salvo conduto a se entrar de corpo e alma no corpo enorme e complexo do ser humano. Especializar-se se tornava fundamental para entender os melindres de cada ser, com sua doença própria, seu sofrimento profundo, as agruras de sua alma impura, o que fazer quando termina o estudante, e começa o médico a encenar a peça de um teatro que tudo tem a ver com a realidade, deixando a ficção de lado, a indefinição do outro, a incerteza se transformar em falsa segurança que só a experiência dos anos nos trazem.

Optei por uma especialidade cirúrgica – a Urologia. Talvez a passagem de um cálculo renal tenha sido a responsável por este caminho complicado, pois a urologia é uma especialidade armada, e requer, para bem tratar as doenças dos rins e vias urinárias, do aparelho genital masculino, das queixas de inadequações sexuais, tão em evidência em nossos tormentosos dias.

Aqui em Lavras cheguei, pioneiro na arte da especialidade, no agora distante 1977.

Vim da Espanha, oriundo da linda Madri, sem ver as touradas de ali. Vim ávido a empunhar, em carreira solo, o fio da lâmina do bisturi.  Adorava, e ainda adoro, passar horas e horas naquele ambiente tranquilo, chamado de centro cirúrgico, em boa companhia de um enfermeiro, auxiliar competente e tranquilo, que me ajudava a retirar pedras dos rins, próstatas aumentadas que cerceavam a emissão de urina, em livrar a glande peniana da escuridão, fazendo-a desfrutar da luz do dia, em tratar, com maestria, as patologias da bolsa escrotal, e de outras doenças pertinazes à especialidade que abracei.

Depois de mais de vinte anos só, me desdobrando entre três hospitais, operando, reoperando, tentando salvar vidas, sem me preocupar com a minha própria, eis que chega a hora de um descanso merecido. Em definitivo não me aposentei. Deixo essa preferência aos pacientes que ainda me procuram. Hoje são cada vez menos, não sei o que o futuro me reserva.

Agora tenho mais de quarenta anos de formado. Quase isso de especialidade aqui, na minha querida cidade, de onde pouco saí, apenas para me capacitar na profissão maravilhosa que abracei com um amplexo mágico, que, tomara não se desfaça nunca, embora o nunca seja forte demais.

Não desejo jamais dependurar aquele diploma conseguido naquela festa linda de formatura. Assim como não desejo morrer. Mas, se desejar fosse o caminho para a concretização dos sonhos, tomara meus sonhos não se tornassem nada mais que sonhos.

Talvez tenha, com certeza, cometido senões em minha trilha trilhada pelos caminhos da medicina. Da urologia, sobremodo.  Por certo tenha sido por demais argentário, confesso. Mas, se o fui, não me condenem, jamais. Por certo, no começo da carreira, tenha sido presunçoso, arredio. Um tanto quanto afoito, agressivo no trato com os profissionais de saúde que junto a mim deram o melhor de si.  Podem me chamar de tudo, menos que tenha tido falta de decoro, de amor a profissão. Minha maior virtude, se é que a tenho, de fato é a sinceridade. Jamais iludi a ninguém, prometi curas falsas, tenha receitado o remédio para a eterna juventude.

Não sei por quanto tempo mais vou continuar no exercício da medicina. Dez, vinte, ou mais anos? Nem sequer imagino.

Mas não perguntem ao tempo quanto de tempo o tempo tem. Ele não vai saber responder.

E a mim, quando perguntarem quanto tempo mais vou ficar por aqui?  Ainda médico, operando bexigas enfermas, retirando próstatas inchadas, expondo a glande dos jovens portadores de fimose, interrompendo o ciclo de fertilidade, praticando a vasectomia, atenuando o sofrimento causado pelas pedras nos rins, e outras intervenções mais, tantas que são da alçada da linda Urologia.

Hoje, antes das seis da manhã, nesse dia dedicado ao médico, dezoito de outubro, data que poucos se lembram, ao descer a rua, depois de perder o sono, acordei com uma estranha sensação de dever não cumprido…

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