Enfim me encontrei, dentro do meu eu

Como médico sempre soube de cor os caminhos percorridos dentro do corpo humano.

De cima pra baixo, olhando com certo ar de desdém os pobres órgãos sob seu comando, fica a caixa que pensa. O cérebro, com sua substância cinzenta, cheiinha de células nobres, conectadas umas às outras por feixes sinápticos, emite ordens como um general, e, dentro de fração de segundos os outros componentes dessa maravilhosa orquestra consentem, batem continência, perfilam em ordem uníssona, naquela marcha cadenciada, que, quando um soldado para, o corpo todo sente, isso se chama doença.

Viajando, sem sair pela estrada, segurando a caixa pensante vem o pescoço. Ele pode girar, de um lado pro outro, mas, caso entortar demasiado pode ter torcicolo. Por aquele canal competente, um tanto exigente com a segurança do resto, passam estruturas vitais ao comportamento do corpo como um todo. Artérias, veias, músculos e estruturas nobilíssimas, todas sustentadas pelas vértebras cervicais, chamada de coluna, a que olha de cima a caixa responsável pela respiração, nomeada de pulmão.

No meio do pulmão fica o mediastino. Espaço fundamental, gaveta silenciosa que acolhe o coração, vasos que levam o sangue ao resto da tropa, comandada pelo cérebro apelidado de general. Os pulmões são gêmeos quase idênticos. Mas podem perfeitamente viver um sem o outro. Caso a gente tenha de retirar um dos irmãos o outro da conta do recado, principalmente se bem treinado, não fumar, não beber coisa que não presta, praticar exercícios num dia de atmosfera não poluída. Coisa praticamente impossível hoje em dia.

Deixando a caixa torácica descansar da corrida longa, dentro do corpo humano que um dia percorri, mais o andar mediano, sem me ater a detalhes insigne ficantes, perdoem-me a separação entre as palavras ditas antes, vou estacionar no abdome. Ali se escondem, dentro de uma parede mais e mais obesa, as alças intestinais. Que podem ser de grosso calibre, finas como as tripas de porco, angulosas, entupidas em alguns obstipados intestinais, diarréicas em outros, tendo um adereço complicado, que uma vez inflamado deve ser retirado em tempo imediato, sob o risco de complicações notórias. Além das tripas, dentro do abdome vivem, em considerável harmonia outros cidadãos respeitáveis. O fígado pode perder a saúde quando o dono bebe demais. Pode perder um naco importante de si mesmo, não é egoísta como muitos de nós, e cede parte dele próprio quando alguém precisa receber um transplante de órgão quando o corpo doente pede. Não deveria, como médico operador, me esquecer de outros inquilinos do abdome. O baço, órgão obsoleto uma vez adulto, alvo de hemorragias em acidentes de percurso, caso seja retirado não faz falta tanto. Já os rins, órgãos gemelares, meus caros amigos do urologista, fazem parte do esgoto do corpo, morada de indesejáveis pedras que, quando migram, causam um desconforto danado, ao quartel comandado com mãos de ferro pelo general de patente máxima, de nome Cérebro.

Já os dois ureteres são caminhos fininhos, formados de músculos com grande capacidade elástica, que se dilatam, afinam, ao expelir a urina rumo à bexiga. A tal vasilha que tem a função de armazenar urina fica atada a um glândula maliciosa. Quando o dono fica idoso a próstata incha. Sendo um ponto de discórdia entre os urologistas, na solução ideal da sua remoção. Quando e como fazer, a intervenção.

Sabido e ressabido que a urina sai pelo canal. A uretra é um caninho complicado. Que pode, quando o fulano, jovem inexperiente nos descaminhos do sexo, se deixa contaminar por uma prima da gonorréia, alcunhada de uretrites, que por vezes custam a se deixar curar. Por debaixo do órgão de dupla função, dizem que no idoso funciona apenas para urinar, estaciona duas pelotas que perdem a importância depois de certa idade. Por isso, caso seja preciso castrar, jogar os dois testículos no balde, o proprietário não sente tanta falta. Para suprir a ausência das bolas, conhecidas na roça como tentos, ou bagos, pode-se inserir, na bolsa escrotal, próteses especiais, que deixam o espaço cheio de novo, como novo, sem a capacidade de sentir dor ao ser espremido por mãos de alguém que adora apertar bolas na hora do amor misturado ao prazer.

No andar inferior, sem se sentirem inferiores, ficam os dois membros os quais uso sempre, nas minhas corridas loucas, no meu trotar diuturno. Pernas para que te quero!  Como eu adoro caminhar!

Hoje, ao aportar à minha oficina de trabalho, sempre venho usando os dois pés, cheguei pensando no que sou. Sei que sou médico. Sou metido à atleta, corredor de longas distâncias, na velocidade de um cavalo mancola. Deixei de ser fazendeiro de fim de semana. Para ali vou, simplesmente na finalidade de namorar as flores do campo. Na piscina aprendi a não ser peixe. Nado pro gasto, para não morrer afogado dentro de mim mesmo. Nas ruas sou pessoa normal. A que evita andar de carro, ou de moto, quando me oferecem carona, recuso. Sou pensador imaginoso. Tenho, além de olho clínico, um terceiro olho que enxerga através das entrelinhas. Sou tantas e tantas coisas, coisas que nem imagino, que, se ficasse aqui, contando causos, estas mal traçadas linhas entupiriam como entope a uretra sob a tutela da próstata.

Por mais que me procure, dentro do universo que se esconde dentro de mim, não encontro a saída. Talvez a saída seja continuar procurando o que se esconde dentro de mim, se não encontrar, melhor…

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