Ontem tive uma reação inusitada frente a uma reunião de congraçamento em louvor ao dia dos médicos.
Foi promovida pela Associação Lavrense de Medicina, tão bem gerida por seu presidente, doutor Hélio Haddad filho.
Convidado a ler uma crônica alusiva ao dia 18 de outubro, texto esse que traduzia minha insatisfação frente a certos colegas jovens, médicos ainda sem asas preparadas para voar, que simplesmente desconhecem o corpo humano por inteiro, só a ele escrutinam em partes, profissionais de saúde oriundos do ENEM, quando, por falta de óculos, ou de luz suficiente para ler naquela hora tardia da noite, lugar apinhado de esculápios de todas as idades e comportamentos, acabei por interromper a leitura logo no princípio. Foi até bom. O ambiente era de confraternização elegante, onde se deveria conversar, degustar o sabor de boa comida, além de detalhar alguns capítulos por onde caminha a medicina, tão turvos e de insosso sabor que por vezes me da vontade de vomitar o diploma, além da carteira de médico conquistada a tantos e tantos janeiros.
Foi um ato de atrevimento tentar fazer daquela reunião recheada de profissionais um relançamento de livro. Meu Mugido de Vaca e Cheiro de Curral não encontrou nem ao menos encantou o eco que esperava.
Deixei alguns exemplares no balcão onde serviriam bebidas geladas. Fiquei de olho na saúde dos meus queridos livros os quais considero filhos próprios. E não simplesmente cadernos de papel encapados com linda pintura antiga.
Depois de ver naufragada a intenção de comercializar alguns dos meus livros, e ver, debalde, apenas dois serem passados adiante, quase ao fim da linda festa percebi, com a sensibilidade exacerbada, que, no local onde os livros foram expostos faltava apenas a caneta que usava para autografar a dedicatória. Os livros, em número de três, continuavam a aguardar fregueses.
Deixei a reunião andando pelas próprias pernas. Chovia miúdo. Uma chuvinha fina que em absoluto molhou-me a dignidade. Mas aquela chuva, bem vinda nos ares da roça, serviu para me fazer entender, que, em um país onde se afana uma caneta, deixando os livros a salvo, trata-se de um país sem futuro. Um país à deriva, como uma nau perdida em alto mar.
No dia seguinte fui ter à roça. Era sábado, 22 de outubro.
Comigo foi o Tide, um pescador que não sabe o que faz, senão exibir na parede do seu quarto dormitório dois diplomas de curso superior. E ele é bamba nos dois destinos.
Uma vez lá chegado, a bordo da minha pratinha valente, o dia estava por começar.
Tide e outro amigo, conhecido por O Cara, de nome Paulinho, xará de mim, foram dar banho na minhoca, que por sua vez eram lambaris pescados de véspera.
Ainda brinquei com os dois: “caso vocês pesquem alguma coisa, eu asso no dedo do exame de próstata”.
Dito e refeito: nada de peixe na panela. Creio que os dois pescaram um porco abatido de pouco, por uma dúzia de sujeitos animados, convivas da festança boa, bem melhor do que a do livro abandonado. Quando sumiu a tal caneta esquecida no balcão dos autógrafos.
Durante a comilança e beberança li uma das crônicas do livro novo. Que silêncio pairava no ar! Li até o fim. Sem a dificuldade do dia anterior.
Enquanto lia e bebia, mais comia os tira-gostos oriundos do porco abatido de fresco: miúdos de frango, jiló cozido na hora, suam que não fazia suar, mandioca fresquinha arrancada naquele exato momento, e outras iguarias mais, vi, recostado perto do panelão que cozinhava as peças do porco abatido um senhor, o Paulinho Pescador o tal Cara, assaz conhecido nas bandas de lá, sob um sol de rachar, falando com ele mesmo.
Estava tonto o pobre Cara. Grande no seu físico de tísico em final da extrema unção.
Alquebrado pelos anos, bem menos que meu calendário de nascimento mostrava.
Paulo, o Cara, Paulinho, para os íntimos, estava pensando em voz baixa.
Ele não comera nada. Simplesmente bebera. Talvez por este motivo estivesse mais desequilibrado que peru na véspera de virar ceia de Natal.
Tentei conversar com o pobre O Cara. Era a cara da desolação.
Ele me contou que havia se separado da mulher que ainda amava. Não me contou a razão da separação.
Fez-me confidente do motivo real da sua vida.
Da sua razão de estar vivinho da silva, embora fosse Siqueira seu sobrenome.
Dafana Siqueira, filha legítima, sangue do seu eu, era o sumo doce que restava do seu relacionamento anterior.
A filha querida estava cursando o segundo ano de medicina na Universidade Federal de Lavras.
Graças ao esforço pessoal dele, e dela, sua linda futura médica, tomara não seja mais uma egressa dos Enens despreparados dos Psfs da vida.
Deixei a roça dos meus encantos e desencantos pensando mais uma vez na vida.
O Cara e Dafana Siqueira são, a partir de hoje, partes integrantes de um futuro livro.