Hoje, ao descer a rua como sempre faço, andando como cachorro vadio, sem parança como um cavalo inteiro, deparei-me com uma cena estranha.
Era uma moça, não tão moça, de presumíveis cinquenta anos, parecia ter mais do que a presença mostrava, a qual me passou pelo ângulo observador dos meus olhos sem antolhos.
Mais adiante outra moça, da mesma forma não tão moça, só que desta vez a sua imagem me remetia a tempos idos. Ela se parecia a uma prima com a qual mantinha amizade estreita. De olhos claros, cabelos tintos da cor amarela, só que o amarelo louro era legítimo, não aquele que fica deste jeito graças ao trabalho da cuidadora de cabelos. Seu corpo era parecido a um violão. Cintura da mesma dimensão da de um pilão. Traseiro arrebitado que acabava seduzindo todo aquele que passasse no viés estreito da sua visão. As pernas da segunda moça eram um convite ao entrelace. Ao belisco sem segundas intenções. Tudo nela era perfeito, não fosse a idade de panela gasta pelo tempo, na qual se fazem as melhores comidas, seja na cama, ou na cozinha.
Agora, pensando nas duas raparigas vistas nesta manhã de quase primavera, dia lindo, seco, de sol ameno, não tenho como me furtar ao compará-las, uma com a outra. Eram duas mulheres, de presumivelmente a mesma faixa etária, cada uma com sua graça, ou sua desgraca, com seu charme e suas belezas intrinsecamente ligadas a quem as mira com seus olhos atentos.
As comparações são inevitáveis nestes dias de quase primavera que meus olhares cobiçam.
Em plena estação das flores nascem florzinhas agrestes e outras mais bem cuidadas. Aparecem nos galhos das árvores, ricas orquídeas e parasitas como elas. Todas têm sua beleza, sob que prisma d’ olhos se pode lançar mão. As petúnias não se pode afirmar que são mais belas e cheirosas do que os jasmins. Assim como as azaléias não podem ser rotuladas, por quem não entende de flores, de mais embonecadas que as sempre-vivas.
Eu mesmo, nesta altura da incompetência em comparar tatu com cobra, agrião com mel no pulmão, quantas vezes quantas comparei eu e você. Você, da mesma idade que eu, pode parecer mais velho que, no futuro perto nem sei se vou sobreviver.
Por falar em sobrevivência, como anda difícil buscar a saúde, principalmente a gratuita, nestes tempos de penúria das verbas públicas, por que passa o país. Mudamos de governo, um é impichado, o outro, tentando imprimir novos rumos ao país, mercê do atoleiro no qual estamos submersos até o pescoço, nada pode fazer para alterar o status quo.
Na minha cidade amada, idolatrada salve salve, quem precisa de atendimento via SUS, tem de se virar em filas imensas, num interminável périplo em busca do remédio. Que pode ser amaro, vencido, custar caro, e faltar nas farmacinhas dos postos de saúde, casinhas pequeninas, de recurso insípido, onde o pobre esculápio, naquelas jornadas corridas, como as seriemas engolidoras de estradas, buscam o sustento reféns de horários apertados, indo e voltando lépido de galho em galho.
E quando um paciente se assenta, naquela cadeira desconfortável, naquele ambiente que, erroneamente, pensa morar pelo menos uma assistência condigna, a mesma assistência foge dele como o diabo da cruz. Não por culpa do profissional de saúde. Que faz o que pode com as limitadas armas de que dispõe: uma caneta Bic, fanha, na qual falta tinta, uma mesa perneta, um estetoscópio que mal sabe escutar o coração, uma maca onde o paciente deita, cuidado para não ir ao chão, um quadro na parede onde sobrevive a pintura famosa, de um médico à moda antiga, examinando o doente, auscultando-lhe os batimentos cardíacos, atentamente, sem se preocupar com o atraso de salário, com os parcos rendimentos, com a multa do carro estacionado lá fora, com a correria que tem de se submeter, para pagar o aluguel do consultório particular, da secretária que percebe um salário quase igual ao que recebe da prefeitura endividada, refém de outras despesas maiores, que suas posses minguadas, tudo isso, sem querer, faz comparações, por vezes de cunho pejorativo, e acaba perseverando nos desenganos da vida de médico, profissão confundida com abnegação, vocação, mas, tanto uma, quanto a outra, precisam de salários dignos para a sua manutenção.
Hoje fui atender em um ambulatório alcunhado por um nome pomposo: “ambulatório médico de especialidades – AME Zona Norte”.
Ali, naquele prédio, quando chove costuma se encher de água, onde o calor faz bufar camelo em deserto acostumado a enfrentar longas jornadas sob o sol do deserto de Saara, passo minutos a fio, tentando apagar fogo em navio, atendendo pacientes da área complicada da Urologia. Sei que quase nada posso fazer. Salvo uma triagem a quem, nem de longe imagino.
As operações de fimose acabam empacando em algum lugar. Eu, urologista experiente e experimentado nas ruas da vida, mesmo que queira não as posso executar. As vasectomias ficam a Deus não dará solução. Os tais condilomas irão proliferar. As pobres uretras entupidas não têm onde desaguar. Os exames especializados esperarão até quando a paciência durar. As cirurgias realizadas em blocos cirúrgicos bem aparelhados, estas, pobres delas, não sei como, ou onde, serão efetuadas.
Hoje, meio de semana, quarta-feira quente, sol a pino, ao chegar, de ônibus, àquele ambulatório de nome pomposo – AME, vi, com estes olhos que enxergam demais, um pobre cão de rua, sarnento, pelado, magricela, judiado pela vida, infestado de pulgas e piolhos, sem dono, sem a quem reclamar da vida bandida que não escolheu pra viver, assim que deixei o mesmo ambulatório metido a grande, sem ser de fato grande, talvez por fora, ao constatar o atraso de salário das enfermeiras dedicadas que ali mourejam, não no cabo da enxada, nem da foice, a maioria percebe pouco mais de um salário de fome, o tal rendimento não tem data para sair, além da promessa de uma redução de 10 % nos seus valores vis, ao pensar no cão vadio, costelas à mostra, quase vi um bando de urubus esperando a carcaça daquela pobre alma canina se despedir de nós, saiu de dentro do meu eu, um eu cansado de malhar em faca fria, uma comparação leviana.
Um senhor, um dos muitos que esperam debalde por um atendimento digno, portador de um câncer de próstata que o levaria, num curto espaço de tempo àquele túmulo frio, desesperançoso em melhores dias, me pareceu, desculpem-me a comparação inoportuna, de certo ponto cruel, sem querer, ao cão de rua citado antes.
Talvez seja uma comparação leviana. Mas é, em minha opinião, curtida nos longos anos de serviço nos postos de saúde da vida, a mais dura expressão da verdade, não me faltando com a mentira, ou falsidade…