É tempo de eleição. Candidatos de todos os tipos se apresentam. De bigode gordo, carecas na parte de cima, engravatados e descamisados, cultos e analfabetos, obesos e seriemáticos, todos com a solene promessa de mudar a cidade de perna pro alto.
Hoje, à espera do ônibus que me levaria da parte norte da cidade rumo à zona sul, depois de atender a uns gatos pingados no ambulatório de urologia, fazendo o que posso e o que permitem fazer, percebi, confortavelmente assentadas ao banco do ponto da lotação, uma revoada de senhoras, moças, não tanto, empunhando a bandeira de um candidato.
Elas mais pareciam um bando de maritacas palradeiras chupando jabuticabas véspera de amadurecerem, naquela algaravia peculiar de gente que fala pelos cotovelos, mais do que pela bocarra cheia de dentes. Tentei argumentar com elas quem seria o melhor candidato
à prefeitura de minha cidade. Se fulano de tal, ou beltrano maioral. Depois de um debate não televisionado, assistido por dois cachorros vadios que nos olhavam de soslaio, e de perguntar a duas uma questão sem reposta, o quanto percebiam pela campanha animada?, e se, caso elas não recebessem nadica de nada, fossem voluntárias no sentido exato da palavra, estariam envergando a mesma farda, a maioria disse que sim. Foi um sim meio maroto, como um arroto, talvez levado pelo constrangimento de não poder dizer não.
Apanhei, da mão de uma delas um panfleto que dizia, em letras garrafais: “o candidato fulano de tal promete mudar a cara da cidade”.
Foi quando me lembrei de um tal de Chico Canelada, caboclinho tinhoso, cara de pau que nem verniz de qualidade consertava, que um dia me passou pelas lembranças.
Ele nasceu remediado. Com a morte do pai, como nunca empunhou uma reles enxada, ou sua parenta a foice, acabou por dizimar o último tostão furado que recebeu como legado da família.
Mesmo sem nada no bolso, devendo ao banco, ao tio torto, ficava o dia inteiro assentado a um banco, quase criando raízes naquele jardim tão bonito, jogando conversa fora, acordando cedo para ficar mais tempo à-toa.
Eis que chegou o tempo de caçar votos. Chico Canelada candidatou-se a prefeito por um partido de sigla esdrúxula: PPN (partido da prevaricação nacional).
Conseguiu, na gráfica de um colega de dolce fare nient (doce nada fazer), um montão de cartazes, folders de propaganda, com uns dizeres que nada diziam.
“Chico Canelada promete mudar a cara da cidade. Vou fincar esgoto mesmo onde não corre água. Prometo modificar o trânsito das carroças nas ruas da minha cidade (nunca é demais recordar que desde o ano de antes de Cristo nascer as carroças foram sepultadas em cova rasa) . Vou distribuir postos de saúde onde a saúde não existe. Ou melhor, vou tratar de contratar doenças para avacalhar a vida dos transeuntes. Vou, juro que vou, espalhar banheiros públicos nas costas da igreja central. Pobre santa igreja principal. Prometo que não falarei mentiras nunca mais. Depois cochichou nos ouvidos moucos de um amigo que aquela promessa não valia mais. Vou sanear a sacanagem do lugar. Não precisa repetir que sacanagem maior era a candidatura dele mesmo”.
Depois de tantos “vou” revoou um urubu. Talvez aquilo tenha sido um vaticínio de mau agouro.
Não precisa frisar que Chico Canelada não foi eleito. Na próxima, talvez…