Memória enseja lembranças. Da mesma maneira saudades. Como também reminiscências de um tempo bom que passou. Tomara volte, um dia, sob a forma de ver de novo a pessoa querida, um dia desaparecida dos nossos olhos e abraços.
Não é de hoje que prezo as memórias. Dos verdes anos da minha existência, daqueles dias inenarráveis, por que passei, doces lembranças.
Era criança. Jovenzinho artioso, jogador de bete (um tipo de jogo quando se tenta acertar uma bolinha usada de tênis com um bastão, podia ser um cabo de vassoura, outro pedaço de pau qualquer, impedindo ao oponente de derrubar uma casinha tosca, três varetas canhestramente equilibradas entre elas), de bolinha de gude, de tapão, joguinho inocente, o qual versava sobre virar ao avesso as figurinhas que traziam jogadores de futebol num dos lados, o outro era enfeitado com uma figura qualquer, e muitas outras brincadeiras que o passado levou em suas asas velozes.
Depois o jovem mudou-se. Findo o curso secundário, depois de passar pelo intermediário, motivado pelo sonho de ser doutor em medicina, sem precursores na família, fui ter à capital do meu estado. Foi uma decisão de capital importância para o meu futuro.
Deixei aquela casa da Rua Costa Pereira entregue aos meus progenitores e a um irmão mais novo. Ao lado deles ficaram as saudades, as lembranças dos anos idos, além de uma prima irmã mui querida, que ali inda vive, cercada de mimos das suas cuidadoras atenciosas.
Uma vez na distante Belo Horizonte, separada da minha Lavras por uma rodovia hoje duplicada, terra adotada, onde agora vivo, ao lado de outra família, aquela que me deixou partir naquele ano de 1900 e tantos decimais ligados, fui nascido na linda Boa Esperança, por um acidente de percurso, já que meus pais ali viviam. Confesso, uma confissão que não precisa de confessionário: a princípio estranhei a ausência dos meus entes mais caros. Senti a falta do meu cãozinho Rebel, dos joguinhos que não se usam mais, mencionados antes, dos coleguinhas da primeira infância, talvez da primeira namorada, que hoje, com certeza, é avó.
Assim como senti, cá dentro do peito, bem no âmago, a falta dos meus avós, tios, tias, parentes, daquela rua de tantas e tantas lembranças eternas.
Lá na capital fiquei por muitos anos. Estudando, namorando, sonhando, um dia voltar para a minha Lavras querida.
Aqui de novo aportei. Sem ser a cidade um porto de mar. Mas ela é um porto de rio, um rio para onde sempre vou quando o tempo permite, um rio que foi domado em vários pontos do percurso, cercearam-lhe a liberdade construindo barragens que tentam domar-lhe a ansiedade, tomara não lhe domem a certeza de que um dia ele, o mesmo rio Grande, vai chegar ao mar.
Uma vez de retorno à minha verdadeira identidade, aquele menino que um dia fui, tomara ele volte, como voltou, sob a forma de meu primeiro neto Theo, o xodó da família que adoro à combustão, como médico feito, hoje quase desfeito pelos anos, embora nunca serei um aposentado em verdade vos digo, voltei a encontrar a felicidade esquecida.
Aquela dos verdes anos da minha infância rediviva.
Sempre que posso, e o faço sempre, passo por aquela mesma rua do meu passado. Ali ainda salva vidas o mesmo hospital. Ali ainda tenta resgatar a saúde de quem a aprecia, uma praça de esporte, batizada como Lavras Tênis Clube. Ali, naquela rua hoje bem transformada, muitas famílias viraram escombros, casas feitas ruínas, outras reformadas, restam poucas como eram no meu tempo de criança, ainda vive, sólida, altaneira e altiva, a casa dos meus pais.
Dentro dela mora a Rosinha. Prima irmã querida, olhos verdes, ainda menina aos seus muitos anos.
Uma coisa me incomoda, quando adentro àquela casa antiga. Além da falta que fazem meus pais, da saudade que me cavouca o peito, da angústia de não vê-los mais, a casa da Rua Costa Pereira, de número 152, não ostenta, em nenhuma das suas paredes, nem ao menos numa mesa de cabeceira, num quarto sequer, nem mesmo na cozinha, onde tantas vezes almocei ao lado deles, jantei quando a fome apertava, tomei café, doce como a saudade da minha mãe, uma reles fotografia.
Ignoro a razão da ausência das tais imagens, em preto e branco, ou descoloridas pelas lágrimas que um dia verti quando dos seus passamentos, a falta das fotografias dos meus antecessores.
Talvez a explicação resida num simples fato. Que responde pelo nome de Rosinha.
A minha querida prima irmã deve sofrer demasiado pela ausência dos nossos pais. O retrato que retiraram das paredes, das mesas de cabeceiras, da cozinha, dos porta-retratos, devem, com certeza, magoá-la demais.
Sempre que por ali entro, ao ver a casa de número 152, da Rua Costa Pereira, sem retratos, sem memórias das pessoas que ali viveram, felizes a maior parte dos anos, salvo na enfermidade que lhes ceifou a vida, embora entendendo a razão daquela casa não mostrar memórias, sob a forma de fotografias, tolero a falta que a ausência deles todos me traz.
Sei que a vida continua. Pra frente. Sei que não se deve ficar eternamente atrelado, como o cavalo que puxa carroça, seu meio de vida, ou mais tarde sobrevém-lhe a morte, o pobre animal de tração se aposenta, espera bucolicamente o fim dos tempos, quando não vira pasto aos urubus, quando passo por aquela casa da Rua Costa Pereira, sem fotos, as lembranças continuam arraigadas dentro de mim, não considero mais aquela casa sem memórias.
Ela, onde vive hoje a linda menina mulher, de nome Rosinha, guarda, lá dentro, no mais profundo dos meus sentimentos, a saudade que nunca vai ter fim…