Aversões e preferências

Gostos e desgostos, aprecio e deprecio, passo os olhos e volto, sempre ao mesmo lugar.

Assim tem sido desde há muito tempo atrás. Desde que inseri dentro de mim a missão agradabilíssima de escrever, desde quando tomei prazer em inserir letras, formadoras de palavras, digitadas febrilmente aqui neste pobre computador que dá sinais de fadiga, velho companheiro que me faz viajar sem sair do lugar, o mesmo lugar onde a medicina ainda divide o território com o escritor furibundo, com o atleta dependente da endorfina liberada pelo exercício, sem o qual não vivo, não escrevo, não durmo, pouco, confesso, principalmente nestes tempos de inspiração borbulhante dentro de mim, sempre pensando, não sonho, imagino, o que vou escrever no dia que acorda sonolento, seja com o sol a prumo, fosse com a delícia dos pingos de chuva descendo do alto, naquele dia ameno por que vou passar.

Tomara seja o dia ameno. Tomara que seja recheado de momentos felizes, mais que os de preocupação ou desilusão com o trabalho.

Mas, com a disposição que emerge de dentro de mim me sinto preparado para quase tudo. Só não estou preparado para a insensibilidade que toma conta de algumas pessoas, aquelas que não sabem exibir um sorriso na face, um gesto amigo de camaradagem, um bom dia, mesmo que não seja assim, o bom humor que sempre deve existir, tenho tentado driblar a falta de perspectiva de crescimento do país que amo, a exaustão, amo a sua gente, principalmente aqueles que não deixam cair um papel no chão, ou aqueloutros que não se descuidam da saudade, sentimento esse que evoca o passado, do qual não me afastarei jamais.

Constrange-me  a falta de educação. Principalmente daquelas pessoas pelas quais a gente faz tudo por elas, mas elas mesmas não nos retribuem o carinho ofertado graciosamente, maltratando-nos sem motivo aparente. Gosto da gratidão. Da qual nem sei a cor. Se gratidão tem cor, por certo ela seria de cor clara, ou branca ou amarelo canário, daquele canarinho de canto alegre, que cisca o esterco do curral nas tardes amenas da roça.

Desgosto da ingratidão. Deprecio, a exaustão, quando alguém, a quem dedicamos parte da nossa existência, não retribui ao nosso carinho, ao esforço feito para que aquela pessoinha tão amada se sinta feliz, como eu estava, antes da falta de apreço demonstrado. Num momento de sofreguidão que, tomara, ela se arrependa depois.

Renego o estresse demonstrado por pessoas com as quais convivo no meu campo de trabalho. Quando menos espero, depois de um atendimento veloz nos postos de saúde, desaparelhado, aquele ambiente sucinto de apenas uma mesa manca, uma caneta que por vezes falha, sem quase nenhuma condição de trabalho digno, após atender a não sei quantos pacientes, impacientes com a falha do sistema único de saúde, pensando ser o médico o grande responsável pelas mazelas, a tal pessoa, mal educada, sai com duas pedras na mão, e ameaça denunciar o atendimento, para ela falho, recebido graciosamente, ameaçando ir à mídia para fazer denúncia contra o pobre esculápio, que tem a desventura e a necessidade de passar tempos ouvindo os reclames de quem, por vezes, não tem nada a reclamar.

Tenho sonora aversão à falta de comedimento nas ações. Existe gente, mal preparada, que faz de um incidente banal um cavalo de batalha. Por uma simples discussão de trânsito vai às vias de fato. Ainda bem que quase não uso o carro.

Como aprecio pessoas equilibradas. As quais, depois de uma discussão acalorada, responde a ela com um aperto de mão e um pedido de desculpa, e um “tenha calma”.

Gosto das flores do campo. O quanto me sinto bem, ao ver, durante uma seca brava, as mesmas florzinhas se abrindo, exibindo cores, um perfume discreto, desafiando a falta de chuva, o fogo que de pouco lambeu a terra, depois de um incêndio criminoso.

Mas renego, veementemente, os autores que lançaram a guimba de cigarro, aliás, sempre que percebo alguém fumar, peço-lhe, educadamente que ele pare, se não parar pelo menos diminua o costume, pois, um dia, graças à desgraça do cigarro, ele pode morrer antes de viver a vida em sua plenitude máxima.

Gosto da gentileza, da sensibilidade manifesta, das pessoas que sabem apreciar o belo, ficam atentas e caladas durante a leitura de um texto, de uma crônica, quando alguém fala, em primeiro lugar, tem-se a obrigação de deixar falar. Para depois, quando lhe é chegada a vez, assim, na hora oportuna, pode-se emitir opiniões, principalmente aqueles que sabem não serem os donos da verdade.

Desgosto dos indivíduos que, uma vez irados, pensando serem os donos do universo, soltam impropérios, naquele sonoro e vil : “sabe com quem está falando”?

Adoro quando alguém ajuda a outrem a se levantar. Quando a pessoa se condói da situação de aflição por que passa um terceiro. Desaprovo aquele que passa apressado pela rua, percebe alguém em dificuldade, um pobre bêbado debruçado sobre o passeio, naquela hora de movimento intenso, passa por cima, quase pisoteia o inerme, sem se apiedar, ou nada tentar fazer para amenizar a dor e o estado de embriaguês daquele irmão desafortunado.

Adoro, ou aprecio, quando gente, desconhecida da gente, nos cumprimenta na rua, com um singelo bom dia, até breve, boa sorte.  Causa-me depreciação, quase uma aversão, ao ver pessoas indo e vindo, com pressa, fechando os olhos abertos ao sofrimento do pobre mendigo, o quão é difícil esmolar, sem nada fazer, não é vital dar-lhe uma esmola, que pelo menos olhe nos olhos da tal pessoa, como se fosse um de nós, só que sem a sorte que bafeja em nossa direção, diga a ela: “Deus a guie por um caminho melhor”.

Gosto do calor. Não renego o frio. Apraz-me a chegada da chuva, lembrando-me do quanto ela é bem vinda nos ares da roça.

Mas não desgosto da seca imensa. Assim como detesto a seca de idéias, que por vezes me apoquenta.

Aprecio tantas e tantas coisas, coisas tantas, que, se ficasse aqui destilando minhas apreciações, minhas aversões e preferências, talvez a vida fosse curta demais, e eu já vivi grande parte das minha memórias, preferindo ou renegando tudo, ou quase nada…

 

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