Quem ainda não se deliciou, num dia de sôfrego calor, deitado na cama, esperando o sono chegar, vestido com a mesma vestimenta que Deus lhe ofereceu, nada além da pele, envolvendo ossos, tendões, músculos e adjacências, sem sentir um pingo miúdo de sono, rolando na cama mercê dos seus problemas, tantos, tantos, que não consigo enumerar quantos, e, de repente, sem mais que num repente, caíram do céu gotículas de água transparentes, como a alma daquela criança anjo que Papai do Céu chamou para junto dele, precocemente, uma chuva mansa, a exemplo da égua que foi domada ainda jovem equina, de fresco desvencilhada de um bridão que lhe mordiscava a boca, agora pasta naquela rocinha bucólica, perdida nos cafundós da solidão, e vem uma manga de chuva sorridente, que faz amadurecer as jabuticabinhas ainda verdes como a pastaria verde, depois da mesma chuva caída após setembro passar batido.
Neste mesmo pedaço de chão miúdo, onde as vacas, quando desejam abocanhar capim, ainda escasso, metem a bocarra aberta, presença de dentes apenas na parte de baixo, e deixam parte do rabo em outra propriedade, de tão acanhada que era a roça do sofrido Zé da Seca.
Dava pena ver, com estes olhos que a terra há de beber, o capinzal sedento, o canavial esturricado, prestes a serem devorados por uma fagulha de fogo ateada por uma guimba de cigarro de palha, a mesma palha oriunda daquela roça de milho que não vingou na safra passada, o prejuízo foi enorme. Zé da Seca quase pediu concordata.
Foi ao banco onde tomou o dinheiro, advindo de um financiamento bisonhamente anunciado pelo governo desonesto, dizendo ser a juros modestos, no entanto,entretanto, os juros foram crescendo tanto, tanto, que viraram uma bola de neve despencando da colina branca como algodão que um dia o pobre Zé plantou. De novo o prejuízo amarelou a obstinação do sitiante, que, só não largou o rabo da coisa por ser nascido ali mesmo, naquele pasto pedindo chuva, naquele ranchinho tosco, naquele rincão perdido onde nem a cobra sabe onde fica a caça, onde nem a seriema, com aquelas pernas longas, consegue pular a estrada e ali jaz atropelada por um carro em movimento.
Voltando à ida do pobre homem do campo ao banco, onde tomou, em confiança, a bagatela que nunca iria conseguir pagar, assim que passou pela roleta, que empacou vezes seguidas quase lhe furando a calça poída, naquele lugar que deixa a descoberto a intimidade do Zé da Seca, depois de esperar não sei quantas horas na fila para pegar a senha maldita, a tal fila que dizem ser da preferência dos idosos, ou daqueles que sofrem de alguma avaria no aparelho locomotor, sem nunca terem sido apetrechados com algum motor, salvo o coração que sofre de taquicardia, o pobre homem da roça, vendo sua vez aparecer, voltar ao mesmo lugar por culpa do segurança mal amado, que quase o fez ver o sol nascer redondo, a janela da cadeia não era quadrada, de amargar vontade de ir a tal casinha pequenina, não aquela onde o nosso amor nasceu, e sim ao banheiro que não existia naquela casa perdulária, senhora maldosa que não via os pobres com olhos de apreciação e apreço, ao revés dos endinheirados safados, de assentar-se àquela cadeira que, de repente pareceu segura, apenas por um parafuso gasto, acabou tombando para o lado esquerdo, justamente o lado ruim do pobre desventurado Zé, caiu levando o ocupante junto, só não baixou ao hospital por não ter plano de saúde condizente à situação de apertura por que passava, três horas depois conseguiu ouvir do gerente, aquele mesmo que lhe prometeu mundos e fundos, só depois percebeu que o cheque não tinha fundos, o empréstimo era uma arapuca, a mesma usada para pegar as desavisadas pombas trocais que empestavam o mesmo milharal sofrido pela estiagem do verão passado.
Quando o pobre desafortunado Zé deixou o banco, pálido depois da amara recepção, levando no bolso raso somente promessas irrelevantes, mercê da perda iminente da propriedade, a roleta barrou-lhe de vez a saída. Não bastante tamanha desdita o mesmo guarda, chamado equivocadamente de segurança, deu-lhe voz de prisão. Zé foi solto um mês depois. Magro, faminto, dividindo a cela escura com facínoras de alta periculosidade, com a mão na frente e a outra do lado, sem nenhuma perspectiva de revoada na própria vida.
Eis que setembro chegou. De mansinho, com aquele sorrisinho mal acabado, dentes em desalinho, os ipês já se despediram da sua roupagem lírica fazia tempo.
A seca lambia os pastos com sua língua de vaca com fome. O capim ameaçava brotar. Esperança mitigada pelo fogo que devorou tudo ao derredor. Pintando a paisagem linda de cinza.
Zé acordou, sem ter dormido, naquela primavera que prometia deixar a Prima Vera voltar. Acordou depois de um sonho juvenil, mesmo sendo bem rodado em anos, mais que um carro de volta da volta da terra mãe da gente.
Sonhou que chovia a cântaros. Uma chuva a princípio abençoada, que acabou por salvar a plantação de tomates. Sabido e ressabido que tomate, uma vez dependurado naquele arbusto frágil, não aprecia chuva. Senão ele pode despencar da sua muleta e virar adubo.
Só que a chuva com que Zé sonhou, naquele setembro cruel, foi uma chuvadonha que nem Guimarães da dona Rosa prognosticou.
A aguaceira caída do céu foi tamanha, como aquela que Noé percebeu ao fazer sua arca.
No dia seguinte, naquele setembro esturricado, quando Zé parecia antever a salvação da lavoura a enchente acabou por destruir as pretensões de ser feliz, até que a morte o levou nos braços, aqueles braços magricelas, desprovidos de carne humana, para um lugar melhor que aquele banco safado,bem pior do que o banco da praça, onde uma vez apenas Zé conferiu as nádegas ao assento.
Essa história, com um epílogo infeliz, bem retrata a vida dura do homem do campo.
As chuvas de setembro, e o desinfeliz Zé da Seca, acabaram por fazer as pazes.
Mas a morte acabou separando-os de novo, depois da enchente madrasta que os levou às raias da insanidade louca…