Quem ainda, uma vez criança atrevida, cheia dos recheios apetitosos da vida, não armou uma armadilha no fundo do quintal, ou na roça dos seus avós, aquele artifício feito em madeira, ou até mesmo bambu, amarrados tal e qual lona de circo, apenso a uma pequena vareta que, a um simples esbarrão faz deitar o mesmo apetrecho mambembe de tampa pra baixo enjaulando o desavisado incauto que teve a desventura de por ali entrar, tendo ficado refém da armadilha montada pela criança que um dia fui, e tomara os anos permitam que continue a sê-lo.
Eu usava ficar amoitado atrás de um arbusto qualquer olhando atento as presumíveis vítimas se aproximarem. Num descuido delas, fosse um passarinho guloso, atraído por fubá amarelinho, ou uma fruta madura, ou uma caça qualquer, desde que não fosse um leão, ou elefante, pois tais animais não caberiam dentro da boca daquele alçapão, quando qualquer bicho ali ficava aprisisionado logo o moleque escondido dentro do meu eu corria e levantava a boca da arapuca.
Como era saboroso ver a rolinha incauta, o sabiá cantador, ou até mesmo o tatu bola deixarem a prisão temporária sem mandato de soltura ou até mesmo um habeas corpus salvador, baterem asas e voarem para longe do alojamento em que se meteram, atraídos por uma guloseima qualquer.
Ontem fui ter à roça.
Era fim de tarde, sol aberto, um calor ameno nos deixava a todos sem desejo de voltar ao âmago da casa, mesmo sendo um lar de muito amor.
Queria ver de perto como teria ficado um serviço de terraplenagem recém encomendado a uma máquina engole terra de um amigo prestador de serviço da fraternal cidade de Ijaci.
Em poucos minutos estava ali. Ficou gracioso o local de uma futura casa beira lago que logo seria erguida por um pedreiro mãos em lixa, pescador de mancheia, que via de sempre usava o torso desnudo, um chapéu de abas largas para cobrir-lhe a testa morena, e um short diminuto.
Aquela casa, bem parecida a de Tarzan, não feita na forquilha de uma árvore africana e sim num bem concluído desaterro, com vista linda para as águas da represa do Funil, onde pretendo consumar o resto de vida que ainda tenho, passar os fins de semana olhando as águas plácidas do lago feito pelas mãos do homem, voraz consumidor de energia, domador de rios revoltos, e, se continuar a inspiração que me assalta como agora, deitar no papel as palavras rabiscadas pelo teclado do meu computador andejo, escrevinhando mais um romance épico da minha vida imaginosa recheada de ficção.
Antes de deixar aquele local de beleza tão rica, dei de olhos no telhado de um quiosque semi abandonado feito pelas mãos e inteligência de outro amigo, o Pirunguinha, o que emprestou seu nome ao meu Border Collie que mora em outra represa mais longe , a de Camargos.
Pasmem! Enfiado em meio às telhas marrons daquele caramanchão se deixava ver uma arapuca. Era um alçapão de bom tamanho. Feito em réguas de madeira largas. Era bem feito, quem o olhasse com atenção pensaria que aquilo foi obra de uma carpintaria de bom renome, não pelas mãos desarmadas de um único carpinteiro sem os apetrechos próprios para o fabrico de tal casinha de madeira de pouca arte.
Foi quando pensei, cá comigo: “quem teria feito aquilo, que repousa abandonado por cima do telhado num local tão ermo”?
Se a gente olhasse ao derredor não se veria uma vivalma viva ou morta. Se todos os visitantes, que por ali passassem, e tivessem o cuidado de admirar não apenas a superfície do lago como também a arapuca por cima do telhado, talvez pensassem, como eu, que fosse uma miragem, algo não palpável, um ET desterrado, recém egresso do seu disco voador.
Foi quando olhei atentamente a arapuca repousando por cima do telhado do meu quiosque beira lago.
Ela não foi feita para caçar passarinhos incautos. Nem ao menos para aprisionar elefantes ou leões. Muito menos para tirar dos seus domínios o desejo de viver, em liberdade plena, avoando pelos ares os urubus que aproveitam as correntes de ar para se manterem por baixo das nuvens espreitando as presas, carcaças putrefatas que por acaso apareçam. Ávidos por devorá-las.
Antes de deixar o local onde, tomara, num futuro perto, bem antes de o meu futuro virar passado, edificar uma casa singela, uma casinha tosca de campo, onde possa receber os amigos, reais ou fictícios, ao olhar, pela última vez, o alçapão enfiado entre as telhas marrons do meu caramanchão, ao constatar a solidão imensa que contorna aquele espaço verde lindo, que vista maravilhosa ele enseja!, acabei por deduzir que aquele alçapão nada mais é do que uma arapuca da solidão…