De tempos idos para aqui tenho tentado ler e escrever sem o uso de óculos.
Letras grandes são fáceis de enxergar. Mas, quando as bulas de medicamentos se apresentam aos meus olhos sensíveis, aí, neste exato momento, as meninas dos olhos se tornam anciãs, turva-se-me a visão, e de novo lanço mão daquele artifício receitado pelo médico dos olhos, receita que me escapou da gaveta, e hoje reside impassível em um lugar recôndito escondido no passado, ao qual sempre desejo retornar.
Por falar em passado, um dia um adorável professor de português, pessoa pela qual tenho o maior apreço, quando desenhou as linhas do último prefácio de um livro que ainda não saiu do prelo, afirmou, em letras miúdas, que sou um memorialista de carteira rabiscada.
Como me apraz falar ou me lembrar do passado!
Daqui de cima, do sétimo andar de onde escrevo, ao olhar pro norte, para onde aponta a mão esquerda, passeio os olhos pelo meu passado.
Primeiro avisto uma casa amarelecida pelos anos. Foi ali que moraram meus pais. Tendo eu, e meu irmão, meninos ainda, como companhias indelevelmente inseridas no contexto daqueles verdes anos.
Ao nosso lado, bem no meio, ainda vive ali uma menina que pouco cresceu. Ela, a Rosinha, um anjo de candura, olhos verdes, nossa prima irmã, recebe a visita diuturna de seu irmão mais longevo, que por acaso sou eu.
Foi naquela rua, de tantas lembranças ainda eternas, onde passei os melhores dias de minha existência.
Foi lá que aprendi a domar aquela bicicleta de rodinhas, cuja cor ficou esquecida, qual seria?, não me recordo. Foi ali que fiz os primeiros amigos. Muitos deles não mais estão comigo, por certo estarão no azul do céu. Foi naquela rua de tantas lembranças, do tempo em que fui criança, bem perto de um clube que tem a minha idade, de um hospital que me viu, orgulhoso, vestindo branco, empunhar o bisturi de talho afiado, que me fiz gente grande, mesmo sonhando ser Peter Pan, o menino que relutava em crescer.
Nos fundos daquela rua encantada existia um cafezal. Era lá, entre os pés de café, naquelas ruinhas de roça, onde brincava de pique – esconde, me escondendo do quê, ainda não sei.
Aquela rua, de nome Costa Pereira, sempre me vê ao entardecer. Andando por ela me ajuda a sufocar as saudades, de um tempo bom, que se foi, para onde, nem sequer imagino.
Hoje, na pressa do afogadilho, mês de agosto se despedindo, as flores do ipê se despetalando adornando a relva ressequida que as recebe, passei por outro hospital.
Foi lá que empunhei, com mãos trôpegas, outros bisturis, até me acostumar a ver, olhos treinados, as entranhas do corpo humano.
Foram tempos bons, entre sobressaltos e angústias de não conseguir a cura, de operar sem conseguir milagres, de amainar dores, dissabores, de aliviar sofrimentos, atenuar lamentos, onde passei anos extensos em convívio com colegas de fino trato.
As enfermeiras daqueles tempos talvez tenham tido uma impressão equivocada do que fui. Talvez, pela inexperiência do jovem médico, recém chegado onde estou, daqui não desejo sair jamais, a não ser para um futuro desconhecido, elas, adoráveis parceiras, tenham feito outro juízo de mim.
Ainda agora, prestes a viver a aurora da minha vida, deixando atrás a minha infância perdida, no dia de hoje, 30 de agosto, ao entrar por alguns minutinhos por uma porta entreaberta do meu passado, indo em busca de uma radiografia, feita dias antes, ao ver a sala do raio xis, hoje mais bem equipada, o laboratório de análises clínicas de cara nova, velho coração de seu dono amigo, o interior do velho hospital de tantas lembranças fugidias, passou-me pelas entranhas uma doce sensação de euforia.
Aquele cheirinho doce de saudade adentrou-me pelo âmago, com sabor de nostalgia.