Aquela rolinha morta

Hoje desci a rua com o sol ainda encoberto. Nem sinal de chuva, nem que o calor fosse nos deixar em paz. Uma brisa suave assoprava-me o instinto alerta. Como sempre faço dos meus olhos e pernas instrumentos através dos quais nascem as crônicas, os escritos que tanto me fazem bem. Ah!, se por acaso eu andasse de carro… Nada teria acontecido, talvez nem tivesse nascido, pois jamais vi crianças, recém nascidos, sendo despejados rumo ao mundo de fora fora dos hospitais. Hoje quase ninguém nasce mais aos cuidados de parteira, no aconchego do lar. Por um singelo motivo, talvez.  São poucos os lares que exibem no seu âmago a paz que tanto merecemos. São lares desestruturados, filhos drogados, pais separados, em eterna disputa pelo pão mais e mais em falta, neste país onde o desemprego prepondera, a ambição fala mais alto, a falta de ética manda nas atitudes de cada um. Existem, nesse emaranhado túrgido, exceções à regra. Infelizmente são exceções, nada mais que elas.

Já a alguns metros abaixo, rua semi deserta, poucos madrugadores soltos da sua vivenda, ultrapassei, com meu par de tênis de boa marca, um indivíduo um tanto obeso, barriga saliente, de boné escuro, que andava como cavalo veloz montado nas suas sandálias havaianas falsas. Foi difícil, quase impossível, parear-me com ele. Assim que o fiz, naquela pressa de chegar onde estou, tinha um compromisso com meu professor de alemão a aprender a soltar a língua, entabulei um dedo de prosa com meu passante veloz.

Ele, não lhe perguntei o nome, era servente de pedreiro. Andava como cachorro sem dono. Ia e voltava ao trabalho, que não ficava perto, sempre de pé.

Quando me apresentei, e o fiz sabedor de quem era eu, o próprio eu não saberia quem de fato sou, o jovial servente de pedreiro permitiu-se abrir nos olhos escuros um sorriso de contentamento. Disse-me, e não pediu segredo, que era meu leitor e admirador inconfesso. Que lia tudo que eu publicava nos jornais, pena que os jornais impressos estão com os dias contados, pensei, antes de me despedir do meu fã de carteirinha gasta.

Cheguei ao consultório, local onde mora o escritor, que por acaso era médico, com o dia ganho. Não o ganho que se conquista em consultas pagas. E sim o ganho que se ganha em satisfação de ser admirado, não a pessoa que se mostra nos trajes de esculápio, e sim o escrevinhador voraz que se deixa admirar através dos seus escritos.

Antes das dez horas deixei o consultório em direção ao ambulatório de especialidades médicas onde atuo como urologista.  Aquela casa, na zona norte da cidade, recebe no nome pomposo de AME. As vezes penso, por insatisfação de não conseguir resolver em plenitude, nem mesmo meia, os casos que ali comparecem, pessoas sem condição de pagar ao médico privado, quando deixo o ambulatório, via de sempre lotado em direção a minha casa, de ônibus circular, penso, imaginando repetir aquela máxima, do: “ame-o ou deixe-o”, acabo resolvendo ficar. No mesmo lugar, sem receber em dia, com um salário de quase fome, sem poder, nem que deseje, pelo menos amainar as necessidades dos pacientes imersos pela cabeça no SUS, letrinhas que unidas nada dizem. A não ser esperar.

Hoje me procurou uma criança bastante enferma. Ela, meninazinha fraquinha como uma rolinha caída do ninho sem asas prontas a voar me foi encaminhada por uma médica despreparada. Por certo aquela profissional de saúde apressada, enforcada pela forca do tempo que ruge faminto como o leão na savana africana, para se ver livre dos pais daquele bebê prematuro, que deve ter nascido com apgar baixíssimo, antes de partir rumo a dois ou mais plantões rabiscou no papel, aquela folha de encaminhamento ao médico especialista, no meu caso urologista, um pedido de socorro ao deus dará.

Quando aquela meninazinha, em estado terminal, lastimável, cadavérica, que deveria ter sido levada às pressas a UTI de um verdadeiro hospital, não aquele postinho de saúde desapetrechado de tudo, menos de boa vontade de quem ali atende, passou-me pelas mãos de especialista em vias urinárias e outros órgãos afins, percebi quão o encaminhamento havia sido equivocado. Ela não deveria estar aqui. Nem ali. Muito menos acolá.

De fato soube, depois, que aquela pobre pacientezinha inocente, vinda ao mundo de fora sem pode escolher pra onde ir, ou ficar onde estava, estaria melhor, muito melhor no útero da mãe, falecera precocemente.

Deixei o AME com um peso enorme apenso às costas. Muito mais que o peso da mochila cheia de livros que carrego quase sempre.

Uma vez perto de casa, já dentro do condomínio onde vivo, feliz da vida por estar vivo e bem de saúde, não sei por quanto tempo mais, ao passar por uma porta de uma casa linda, porta a qual nunca mirei, avistei, sem saber primeiro o que seria, uma rolinha morta, caída de frente à entrada da tal residência chique.

Tentei fazer voltar à vida o tal passarinho morto. Debaldes foram as tentativas malogradas.

Agora, tarde no começo, lá fora uma chuva avidamente esperada por quem mora na roça despenca do céu escuro.

Ao me lembrar da rolinha morta acabei por me recordar da pobre meninazinha falecida antes que soubesse de que cor ou sabor era a vida.

 

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