Nem que seja pela última vez

Quem ainda não disse, jurou e desconjurou de pés juntos, depois de tentativas fracassadas, que esta ou aqueloutra seria a última vez, não viveu, muito menos tentou.

Assim tem sido a minha vida. Uma luta renhida da qual, na maioria das vezes, tenho saído vencedor.

Conto nos dedos às vezes que desisti do meu intento. Foi quando as dificuldades foram maiores que minhas pernas frágeis.

No entanto, assim que tentei de novo, consegui superar os obstáculos. Uma vez na melhor idade, deixando a mocidade pra trás, aprendi que errar é humano. Mas persistir no logro uma covardia enorme. Que apenas aos fracos deve vencer. A mim não convence.

“Nem que seja pela última vez”.

Assim me disse um amigo, num final de tarde, num sábado que se perdeu na distância, no meio do caminho entre a minha roça e a cidade onde moro.

Já o conhecia de velhos festivais.

Seu nome é Benedito. Não vou declinar-lhe o sobre pois o nome é inventado.

Ele tem a idade que daqui a dez anos vou estar no mesmo intervalo. Hoje conto com setenta e um. Prestes, ao final do ano, colher mais uma primavera, apesar de ainda estarmos no inverno.

Benedito, naquele dia poeirento, uma secura imensa entupia-nos as narinas, estava assentadinho numa laje de pedra à beira da estrada.

Preparava-se para se recolher. Já que dormia cedo. E acordava ao cantar das galinhas.

Nem parecia que aquele homem contava com oitenta e um anos.

Acostumado ao trabalho duro ele nunca se lastimava das agruras da vida.

Sempre com um sorriso na face, sulcada pelos anos, algumas rugas passarinhavam-lhe no canto dos olhos.

Mas ele ainda conservava os cabelos na cor da asa da graúna. E ele jurava que não era tintura. Pois vaidade nunca lhe passou pelas andanças.

Seu Benedito, naquele fim de tarde que nos encontramos, ali parei para um dedal de prosa.

A ele perguntei como estava vivendo. Neste momento trágico por que estamos passando.

Seu Benedito olhou-me com aqueles olhinhos de um brilho raro.

Disse-me, e não pediu segredo, que lhe fora diagnosticado um câncer na próstata.

E ele estava em estágio avançado. O médico que lhe fez a advertência jurou que ele tinha seus dias contados. Que não poderia ser operado. Que de nada adiantaria se submeter a um tratamento que apenas lhe atenuaria o sofrimento.

Foi com estas palavras que nos despedimos.

“Doutor, bem sei que meu fim está perto. Mas em absoluto não tenho como me queixar da vida que tenho levado. Tenho mais do que gostaria. Levei uma vida cheia de felicidade. Os momentos de tristeza tentaram afugentar o sorriso que sempre cultivei. Tive a família que sempre desejei. Hoje tenho dez netos. Quatro bis. Minha adorada esposa já partiu. Tenho de me juntar a ela. Confesso saudades”.

Naquele exato instante, já era quase noite, ele ainda me disse: “nem que seja pela última vez vou estar aqui. Espero vê-lo novamente’.

Pena que sua profecia não se cumpriu. O amigo de longa data partiu. Numa viagem sem volta. E não pude vê-lo pela última vez.

 

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