Tião Mentiroso

Desde quando comecei na atividade leiteira lá se vão muitos anos.

Pelo cantar do galo quase quarenta.

Foi naqueles idos anos quando aqui cheguei. No estertor dos anos de um mil novecentos e setenta e sete, quase começo de oitenta.

Só tinha experiência em manejo de vacas pelas férias que passava quando criança. Na fazendinha de umas tias avós, que saudade da tia Mariana, da sua irmã Leonor, e do saudoso tido Júlio, que ordenhava uma meia dúzias de vacas, todas tatu com cobra, e, mais tarde, mais crescidinho, na fazenda de um tio por parte de pai, aquele que empresta seu nome à estrada do Madeira, poucos sabem seu verdadeiro nome – Zito Abreu.

Eram férias inesquecíveis. Acompanhado de primos de Perdões, no sítio da Cachoeira, onde havia jabuticabeiras banhadas por um corguinho que saracoteava entre elas, e tocava um carneiro que mandava água pra dentro de casa, onde existia uma mesona enorme, onde era servido um almoço apetitoso e um jantar ainda mais delicioso, feitos num fogão à lenha que aquecia as noites frias, e onde a carne de porco era guardada na própria gordura, previamente instaladas numa lata de banha pura, e comíamos ainda biscoitos de polvilho feito num enorme forno feito de cupim, movido à achas de lenha, numa varanda que existia nos fundos da casinha tosca.

De outra feita a minha curta experiência na produção leiteira foi aprendida com o mesmo tio Zito. Era um curralzão enorme. Em forma de L, onde centenas de vacas baldeiras produziam leite o bastante para suprir a renda da fazenda ao lado de um cafezal que existe até nos dias de hoje.

Uma vez deixada a infância de lado acabei me tornando um médico que pensava ser também fazendeiro.

Empenhei tudo que tinha e ainda pedi emprestado. Vendi um carro mais rodado que minha bisavó, tirei todas as economias de um banco, além daquelas que minha valente esposa tinha debaixo do travesseiro, e, contrariando as opiniões de terceiros acabei comprando uma propriedade no município de Ijaci .

Ali, naquelas terras morrudas, ladeiras que desciam e subiam, terra de primeira qualidade, segundo me diziam, tornei-me afinal fazendeiro de final de semana.

Comprei algumas vaquinhas tidas de boa qualidade. Nas mãos de quem as comprei elas enchiam o balde. Nas minhas sonegavam a produção. E dos vinte litros prometidos mal passavam de cinco, se tanto.

Entra ano e se despede outro era um entra e sai de retireiro. Eles não duravam mais que a florada dos ipês.

Era cada prejuízo, se fosse contar nos dedos nem das duas mãos eles caberiam.

Comprava caca vacona por quase o dobro do preço que elas valiam, e, na hora de passá-las adiante nem o dono do açougue pagava a metade do que gostaria.

Ainda me lembro do último retireiro. Era um pretinho mais escuro do que piche antes de virar asfalto. Quando ele comparecia ao serviço era dia sim dia não.

Ao chegar a minha rocinha prejuizenta encontrava a vacada perdida na cerração. E cadê o Tião Mentiroso? Ora ele dizia que tinha ido à cidade a fim de comprar mantimentos. Em verdade ia ao boteco encher a cara de canjibrina. Uma pinga das ruim, que nem pega fogo na lenha. E, quando chegava a minha propriedade trocava as pernas tortas como suas perninhas cambetas.

Apelidei-o de Zé Mentiroso pelo fato de contar apenas mentiras e lorotas.

Um dia ele dizia que a vaca malhada havia perdido uma das tetas. Noutros ele vinha com outra história.

Antes de ele sumir na braquiária, antes de demiti-lo por justa causa, ao chegar a minha rocinha, era antes do almoço, deparei-me com uma cena que me fez mandá-lo pro olho da estrada.

Zé Mentiroso estava dormindo debaixo de uma árvore de amoreira. Estava no primeiro sono. ainda faltava o segundo e o terceiro para acordar de vez inteira.

As pobres vacas estavam famintas. Os bezerrinhos berrando no curral. Foi o bastante. Não tive como não despedi-lo de imediato.

Zé Mentiroso olhou-me com aqueles olhinhos de paca escondida, e me disse, sonolento de sono: “quer saber? Já tirei leite da tarde. já alimentei a vacada. Já tratei da porcada. Já fiz tudo que deveria. Agora acabo de tirar um cochilo. Se quiser acreditar acredita. Pergunte a vaca Mimosa. Ela foi ensinada por mim a mentir na hora errada”.

A partir de então resolvi arrendar a minha rocinha a quem entende de vacas e suas crias. E agora aprendi – vaca não dá leite. Tem de tirar…

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