Deveriam encurtar as noites

Nunca tive pela noite em alta estima.

Aliás, considero-a enfadonha, bisonha, escura, e péssima companhia.

Nada como as madrugadas. Ensolaradas, céu azul, poucas nuvens conseguem empanar a azulice do céu.

Um friozinho insistente até que faz bem. Dizem que no tempo de frio dorme-se melhor. Alimenta-se com mais apetite. Um cafezinho quentinho como faz bem.

No entanto, não é de agora, perdi o sono de um bebê. Confesso que tenho receio da escuridão. Não sei o que vai acontecer noutro dia. Se vou acordar ou simplesmente continuarei a dormir para sempre. Já que pouco tempo me resta.

Hão de concordar comigo que o velho dorme pouco.

Meu netinho mais novinho, Dom, espoleta como ele só, costuma se esbaldar até antes das oito. Pede que conte historinhas para ele. Mas ele sabe todas. E não me deixa seguir adiante.

Antes das oito e meia, já fechando os olhinhos de sono, pede a chupeta. E diz, com aquela carinha linda: “vovô! Agora é mamá e mimi”. E ele dorme como um anjinho. Enroladinho às cobertas. E como eu o invejo. Já fui assim.

Tenho pela noite uma ojeriza enorme. Ela deveria ser fatiada em pedacinhos. Cada vez menores. Até ser reduzida a quase nada. As noites deveriam ser feitas para dormir. E quem não tem sono? E tem medo da escuridão?

Nos meus tempos de menino, lá se vão anos, incontáveis desenganos, costumava fazer cabaninhas por debaixo dos lençóis. Ali me escondia. Deixava apenas meus pezinhos de fora. Ai que saudades da minha mãezinha querida. Que do alto me contempla. Com olhos enternecidos de carinho.

Nada como o clarume do dia. Nada como as madrugadas que me encantam à luz do dia.

A noite não me inspira. Se pudesse passaria toda ela a escrever. A retratar o medo que tenho de não acordar.

Deveriam encurtar as noites. Reduzi-las a fiapinhos quase imperceptíveis. Fazer das noites escuras uma nesga de claridade. Abolir a escuridão. Acordar o sol sempre. Já que ele, dorminhoco, costuma acordar mais tarde depois de uma noite de amor com a lua.

Tenho medo da noite. Deveriam transformá-la em dias claros. Dizem que dormir é necessário. Pra mim não. Tenho verdadeira aversão às noites escuras. Abro a janela, antes das cinco da manhã, e, quando lá fora reina a escuridão, fecho os olhos e imagino que o sol já se põe.

E como me apraz ver a claridade ofuscar-me os olhos. Olhar pro alto e ver a azulice do céu. O dia amanhecer risonho.

A partir de hoje, neste começo de junho, vou pedir uma graça. Um pedido apenas. Que alguém, que me esteja ouvindo, escute o meu clamor.

Por favor, dê um jeito de encurtar as noites. Desfaça a escuridão em que vivemos. E ponha mais luz a iluminar a todos nós. Soberbamente nestes tempos difíceis em que vivemos. Não apenas hoje. Mas para sempre.

 

 

 

 

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