Será que elas entendem?

Coisas são de difícil entendimento.

Principalmente aqueles que têm poucos estudos.

Saber discernir entre o certo e o errado, trocar palavras, acentuar onde o acento é desnecessário, fazer tudo às avessas, confundir alhos com carta fora do baralho, é, com certeza, uma das questões que sempre me fazem pensar. Já que eu, de muitas letras, de vez em quando confundo fim de mundo com o começo da humanidade.

Nestes tempos de pandemia, com a doença se alastrando pelo mundo inteiro, quem nos governa bate cabeça.

Não se sabe ao certo quando tomar certas atitudes.

É um tal de fecha e abre. Isola-se ou se amontoa. Lava as mãos ou permanece com as mesmas sujas. Já que o preço do sabão esta cada vez mais fora do nosso alcance.

A cada momento uma decisão. Que provoca manifestações contrárias ou a favor.

Já manifestei aqui a minha opinião. Pior que a pandemia é a miséria que ela traz no seu rastro.

O desemprego, a fome, os preços em alta, a crise em que estamos atravessando, é bem pior que o risco de nos contaminarmos.

Hão de concordar comigo que, quando um pai de família perde o emprego, e volta pra casa de mãos vazias, e olha nos olhinhos tristonhos dos filhos, os quais não podem ir à escola, é muito pior que passar alguns dias sofrendo da tal doença da moda. Que pode ser prevenida graças à vacina que em boa hora apareceu. Como apareceu a Margarida.

Quando se fala lockdown, em toque de recolher, em isolamento, ou coisa parecida, para muitos desentendidos pode simular assombração.

Assim foi com meu amigo da roça; de nome Aparecido.

Ele é a singeleza do singelo.  Simples como uma flor de assa-peixe.

Nascido e criado ali, naquela rocinha encantada, Aparecido só vai à cidade em última necessidade. Mesmo assim contrariado.

Aparecido trabalha como um jumento. Acorda cedo. Antes do cantar do galo. As sete e meia já acabou a primeira ordenha. As oito já está tratando do gado.

As dez já está quase prontinho a almoçar. Coze no fogão a lenha. Para economizar gás.

Antes das cinco e meia, da tarde, morto de sono, se prepara pra dormir.  Toma um banho de canequinha na água da mina. Já que não tem chuveiro elétrico. Aparecido dorme sob a luz da lamparina.

Naquele dia em que foi à cidade, distante de sua  morada, encontrou um ambiente diferente ao que estava acostumado.

Fora decretado o lockdown. Tudo estava fechado. Ruas quase desertas. Apenas algumas lojas estavam abertas. Aquelas consideradas essenciais, como supermercados e farmácias.

Quando já se preparava para voltar à roça foi interpelado por um guarda, rispidamente. Ele não usava máscara. Pois, no seu desconhecimento, pensava que máscara apenas se usava no carnaval.

O guarda, bastante truculento, inquiriu-o deseducadamente: “não sabe que estamos em lockdown”?

Aparecido coçou a cabeça, tirou uma lista de incumbências do bolso, e respondeu ao guarda: “ às seis e meia tenho de apartar meu gado. As sete ponho a silagem no cocho. Antes das dez já está na hora do meu almoço. E me preparo para dormir antes da coruja empoleirar no cupim morto”.

E terminou a prosa sem muitas delongas.

“Será que minhas vacas sabem o que é lockdown?  Seu guarda, me desculpe. Vou levar você para tratar do meu gado. Quem sabe se o senhor, com sua cultura atravessada na garganta, consiga explicar a elas o que seja pandemia. Ou outras prosas ruins que na cidade a gente aprende”.

Só  sei que nada sei.

Seu Aparecido voltou à roça. Pensando nunca mais voltar à cidade.

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