Tudo fazia crer que seria um ano complicado.
Empregado numa fábrica de autopeças, depois de quase trintanos de trabalho duro, o pobre Zé, casado, pai de três filhos, de repente, não mais que num repente, se viu no olho da rua.
Seria mais um desempregado neste país desarvorado. Depois que a tal pandemia instalou-se por aqui, milhares de trabalhadores foram demitidos. Mal sabiam eles que a situação se complicava a cada dia.
Zé, de carteira assinada, pensando na aposentadoria, tentou arrumar outra colocação.
Entretanto, no entanto, quem diria que, um trabalhador, com mais de quarenta e cinco anos, experiente profissional, conseguiria outro emprego.
Zé passou tempos difíceis. Com as contas se amontoando no tampo da mesa, prestes a ser ver no escuro, devia a conta de luz entre outras, tentou a vida como ambulante.
Comprava frutas numa feirinha de bairro. Abacates, abacaxis, mamões prestes a madurar, faziam parte de seus produtos.
O lucro era pequeno. Não o suficiente para prover a casa. Os filhos estavam fora da escola.
A esposa, dona Margarida, nunca teve saúde. De vez em quando era levada a um postinho de saúde da periferia. E ali permanecia por tempos insuficientes para que ela se restabelecesse. Novamente era internada.
Numa sexta-feira, dia fatídico, Deus a levou para junto dele. Foi uma despedida dolorida.
A partir de então as coisas só complicavam na vida sofrida daquela família.
Faltava de tudo. Menos amor uns aos outros.
A pandemia se alastrava pelo mundo inteiro. Mortes eram anunciadas a cada momento. Dor, sofrimento, mais e mais violência, eram noticiados na mídia cada vez mais ensandecida.
Zé Miguel vivia à custa do auxilio emergencial. De repente foi cortado. A casa onde moravam foi à penhora. E foram parar no olho da rua.
E como chovia neste mês de fevereiro.
Zé, e os três filhos menores, foram morar debaixo de um viaduto.
Naquela manhã, era uma sexta-feira, meados de fevereiro, quase carnaval, acordaram com água até o pescoço. Salvaram-se por pura sorte. Desta veza a fatalidade não os pilhou como de uma vez anterior.
Mesmo assim Zé Miguel perseverava na sua desgraça. Perambulava pelas ruas em busca de trabalho.
Os filhos menores vendiam balas nos semáforos. A escola, ainda sem aulas, naquela indefinição de abre ou fecha, era a única chance de as crianças se darem bem.
Mas a vida corria sem pressa para aquela família igual a tantas outras.
Foi quando me deparei com o desafortunado Zé Miguel. Ele estava assentado à porta de um banco. Esmolava. Percebi que ele estava faminto. Seus olhos se mostravam chorosos.
Depositei uma nota de vinte reais naquela mão estendida.
E ele me agradeu com um lacrimejante “vai com Deus”.
Nunca mais nos vimos.
Meses depois soube noticias do Zé Miguel. Ele foi sepultado numa cova rasa. No seu atestado de óbito estava escrito: “causa mortis. Inanição, miséria, pobreza extrema.”
Mais um miserável enterrado num cemitério sem indicação de quem seria ele. Dentre tantos neste país afora.
Dai concluo. Muito mais grave do que esta doença é a miséria em que grande parte de nossa gente se encontra. A pobreza, a fome, mata mais do que esta virose. O que fazer?
É de mais valia o trabalho, o emprego, a renda, do que tentar vacinar todo mundo.
A vacina em verdade é importante. Mas nunca se esqueçam de oferecer trabalho a quem precisa. Dura e inconteste realidade.