Naquela noite sonhei sonhos antigos. De repente acordei ancião

Não é sempre que sonho. Durmo pouco. Penso muito.

Era noite de formatura. Lá estava eu, junto a uma centena de colegas, envergando becas escuras, cabelos longos, lá se vão os anos.

Era o ano de dois mil novecentos e setenta e quatro. Quarenta e seis longos anos se vão.

Quase conto, no tempo, cinquenta anos de formatura.

Aqueles jovens médicos, amigos, celebravam a graduação. Foi um longo caminho até então.

Éramos esculápios cheios de sonhos. Muitos vindos de longe. Eu, do interior do meu interior.

Saímos vencedores do vestibular. Passamos seis anos inteiros nos bancos da faculdade.

No entanto, ainda não terminara neste dia de festa a nossa formação profissional. Restavam alguns anos a mais.

Precisávamos estudar um pouquinho mais. A residência médica era outro obstáculo em nosso caminho. Muitos optavam por uma especialidade cirúrgica. No meu caso a escolhida foi a Urologia.

A colação de grau foi uma festa da qual nunca me esqueci. Uma velha fotografia, em branco e preto, ainda guardo pertinho de onde estou.

E lá estava eu, cabelos longos, um bigode escuro, um sorriso tímido, fazendo pose junto a outros colegas. Muitos já não mais estão por aqui. Já partiram rumo ao céu. Por certo, seja onde estiverem, espero felizes, deixaram saudades nos seus rastros luminosos.

Por onde andam os dois Pedros? O de Capelinha e o de Campina Verde? E o meu amigo, colega, que escolheu a otorrinolaringolia como especialidade? Será que ele ainda exerce a profissão. Ou se jubilou, por excesso de idade.

E o Tufi, entendedor de vinhos, que mora aqui pertinho, na Tres Corações? E o Fernando Trindade, uma capacidade de olhar nos olhos. Que, um dia encontrei a caminho de Portugal.

As mulheres de antão eram lindas como uma bailarina em plena dança. Muitas delas elegeram a ginecologia como especialidade.

Encontramo-nos poucas vezes durante estes anos todos. Precisamos nos encontrar outras vezes mais. Antes que a morte nos encontre pelo caminho. Única certeza que nos resta.

Dezoito de outubro, deste mês corrente, comemora-se o dia do médico.

Bem sei que temos poucos motivos para celebrações.

A medicina mudou. E nós, médicos de então, mudamos ainda mais.

Somos de outra época. Não mais usamos o branco. Agora usamos máscaras. Não para nos protegermos durante o atos cirúrgicos. E sim para evitar contaminações.

Ontem, a noite, sonhei com minha festa de formatura. La se vão quarenta e seis longos anos.

De muitos colegas ainda me lembro. Não vou nomeá-los a todos. Éramos cento e sessenta.

Ai que saudades eu tenho da minha mocidade perdida. Daquele dezembro distante. Daqueles jovens cheios de sonhos. Da nossa amizade tão fraternal.

Ainda ontem sonhei com todos eles. Éramos unidos por um ideal.

Na noite de ontem sonhei um sonho antigo. Não costumo sonhar. Apenas recordo. E como me fazem falta velhas recordações. Através delas me renovo. Volto aos velhos anos. Que, infelizmente, não voltam mais.

Deixe uma resposta