A vida seria insuportável não fossem as mudanças

Mudar de roupa, de cheiro, tomar banho dia sim, dia também, com este calor, almoçar sempre a mesma hora, mesmo que a fome não venha, mudar de cama, não convém, de parceira da mesma forma não pega bem, trocar o travesseiro, que traz a sua tatuagem por inteiro, são atitudes nas quais de vez em quanto penso. Pena que este desejo quase sempre é transformado. Trasmudado. Pois não tenho como mudar certas coisas. Arraigadas dentro do meu eu desde quando me conheço.

No entanto, hão de concordar comigo. A rotina torna-se enfadonha. É como se a cada dia fizéssemos tudo sempre igual. O que acaba nos exaurindo. Daí a minha vontade de mudar de cara. Embora esta, que mostra o espelho a cada manhã, é a mesma, um tanto quanto envelhecida, nos anos todos estes vividos. Afinal são setenta anos. De enganos e desenganos. Quase uma vida.

A vida seria insustentável não fossem as mudanças.

Era este o pensamento de um amigo.

Pedro, antes de completar cinquentanos, decidiu por mudar por completo a sua rotina.

Era casado com uma linda mulher. Que o tempo, inclemente e leviano, acabou por transformar aquela pele de pêssego em rugas extemporâneas.

Com o tempo manquitolando a sua esposa, de linda rapariga, pernas lisas, cintura de viola, boca de fazer a inveja a qualquer artista de cinema, acabou se transformando em uma balzaquiana irreconhecível.

O que era bom ficou ainda pior. O que era palatável tornou-se imastigável

O que o tempo faz com a gente. Dizem que a velhice é em verdade uma fábrica de monstros.

Dona Aurora era uma boa pessoa.  Dedicada ao lar. Boa companheira. Sabia cozinhar e cozer com mãos de fada. Era uma esposa dedicada.

Pedro foi seu primeiro homem. Casou-se virginal. Embarrigou-se ainda cedo. Teve três filhas. Mocinhas prendadas como a mãe.

Acontece, com o passarinhar dos anos, sem tempo de pensar em si, dona Aurora perdeu a formosura.

Pra onde foram aquelas pernas lindas? Onde estarão escondidas aquelas nádegas sedutoras?

Pedro, homem dedicado ao trabalho, cansou-se de tudo e de todos.

Passou a beber depois dos quarenta anos. Chegava à casa trôpego. Com um hálito ético a empestar o ambiente.

Num final de semana, era uma sexta-feira de outubro, dia quente, ensolarado, Pedro chegou a casa com uma decisão inarredável de mudar de vida.

Comunicou a família, reunida à hora do jantar, que deixaria a casa ainda naquela noite.

Todos, apalermados, escutaram a palração do chefe da família.

Foi um Xororó danado. Quase um dilúvio.

Dona Aurora foi a que mais sofreu.

Afinal eram quase trintanos de casados. Uma união para ela inquebrantável.

Pedro havia se consorciado a uma amante. Uma mulher sedutora. Uma verdadeira deusa. Pernas lindas e macias. Metade da metade da sua idade.

O romance, que não era amor, e sim paixão, acabou se transformando num verdadeiro martírio.

A outra levou o pobre Pedro quase ao destempero da louquice. O dinheiro acabou. A conta bancária foi ao vermelho. Contas se amontoavam no tampo da mesa.

Foi ontem que o vi. Assentado a um banco da praça. Ensimesmado em seus pensamentos.

Foi quando perguntei ao Pedro o que havia acontecido.

Ele mal ergueu os olhos. Fitava algo indefinido.

“Pedro. O que aconteceu em sua vida”?

“Você mesmo não me havia dito que a vida seria insuportável não fossem as mudanças”?

Foi quando ouvi a reposta, daquele homem transtornado e envelhecido: “eu pensava assim. Eu era feliz e não sabia. Agora aqui estou. Perdido nesta praça. Sem onde morar. Sem família. Sem amigos em quem confiar. A vida pra mim mudou. Agora, refém da infelicidade, concluo, nem sempre. Mudar de vez em quando é preciso.  Fiz a escolha equivocada. Deixei a segurança de um lar. Perdi a minha família. Por uma outra qualquer”.

Nem sempre mudar é preciso. Cuidado. A cada curva da encruzilhada um pisão em falso pode resultar numa perda irreparável.

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