Que calor tem feito neste começo de primavera.
Nem um ventinho maroto assopra no ar. Chuva, então, passa longe daquele lugar.
Negócios estão em crise. Trocar vaca por uma égua mansa, mesmo boa de marcha, não tem sido nada fácil de concretizar.
Assim tem sido a vidinha dura de um amigo da roça.
Embora ele não clame percebe-se, em suas falas murchas, certa tristeza no linguajar.
Tião da Aroeira, daquelas que deixam marcas na pele, e não saem jamais, pegou este apelido desde quando relou as mãos cascorentas nas folhinhas daquele arbusto, num dia quando foi procurar uma vaca extraviada depois de parida.
Aquele sujeito acostumado ao trabalhou pesado nunca regateou serviço. Era pau pra toda obra. Meia colher quando se tratava de fazer uma casa. Tirador de leite com as mãos quando faltava energia. Roçador de pasto quando o capim crescia. Servia até de parteiro quando a vaca paria.
Tião, naquele outubro que entrava quase na sua metade, era tempo de arar a terra. Mas, cadê a chuva tão esperada? O céu se mostrava azul naquela manhã quase madrugada.
Era uma terça-feira quando Tião acordou bem disposto. Abriu a janela do seu quartinho minúsculo, olhou pro alto, e nada de ver indícios de chuva.
Seria mais uma semana de secume ingrato.
Tomou um cafezinho magro. Foi quando se lembrou de que era hora de esfolar um capado gordo.
Depois da ordenha, de alimentar a vacada, depois de deixar o leite no resfriador, não tinha grana para comprar um tanque de expansão, partiu rumo à morada dos porcos.
Era ele e só. Não tinha ajudante naquele sitiozinho perdido na lonjura da distância ancha.
Foi, naquele exato momento, percebeu, olhos ainda sonolentos, que o tal porco havia fugido do chiqueiro. O danado talvez tenha sido avisado da morte iminente.
Levou horas perdidas no nada para encontrar o suíno da peste. Ele escafedeu-se para um brejo cheio de taboas.
Durante a procura, naquela manhã quente, o pobre Tião caiu de costas naquele charco alagadiço.
Sujou-se até a alma. Embora a tivesse quase pura.
Depois de uma punhalada certeira o capado grunhiu até perder a vida.
Sapecá-lo foi outra dificuldade. Abri-lo, então, quase uma heresia.
Tião passou horas perdidas na limpeza do capado gordo.
Fez das tripas uma linguiça de fazer salivar a quem aprecia. Até chouriço foi feito do sangue derramado numa tigela limpinha.
Já era quase duas da tarde quando Tião da Aroeira foi almoçar. Acontece que faltou gás no botijão. Ah!, bradou ele. Já estou acostumado às agruras da vida.
De pronto acendeu uma fogueirinha do lado de fora da casinha tosca. Foi lá que requentou o arroz, fez um feijãozinho maneiro, e fritou a pele do porco. Comeu a encher a barriga. Que não via comida desde o dia de ontem.
Foi quando lhe fiz uma visitinha. Ele estava descansando à sombra de uma jaqueira.
Tião acordou meio sobressaltado. Cumprimentou-me com um sorriso molhado. De repente, sem mais que num repente, despencou uma jaca enorme sobre sua cabeça.
Foi preciso upa para acordá-lo de vez.
Um tanto atordoado, meio confuso ainda, Tião, com aquela prosa fanha, falando pelos cotovelos, tentou me explicar as dificuldades por que passava.
“É. A coisa tá difícil. O leite subiu de preço. Mas a ração subiu na contramão. A chuva não dá o ar da desgraça. Preciso plantar a roça de milho. Comprei as sementes. O adubo está estocado na tulha. Paguei um preço alto demais. Na semana próxima vence a primeira prestação. E cadê a grana”?
Passamos a tarde inteira juntos. Proseamos até altas horas.
Despedi-me do amigo Tião pensando em tudo que anda acontecendo. Não é que ele tem razão? A situação tá difícil pra todo mundo.
Mas não há de ser por isso que vou perder a esperança. Dias melhores virão.