Aquela senhora da varanda foi chamada a emprestar simpatia no céu

Sempre tive uma indefinível sensação, melhor seria indefinição, de como seria o céu.

Não este que se mostra azulado, acinzentado, neste começo de outubro. Muito menos aqueloutro por onde avoam os passarinhos, onde o sol brilha esparramando calor, onde nuvens encobrem a boca do sol, de onde vem a chuva tão necessária aos homens do campo, pra onde as pessoas boas irão, ou tudo isso não passa de historinhas inventadas por nossos pais, na intenção louvável de não erramos tanto. E nos tornarmos gente de bem.

O tal céu teria varandas? Árvores frondosas? Riachos cheios de lambarizinhos de rabos vermelhos? Ou até, segundo minhas concepções, anjinhos de asas branquinhas a tocarem arpas feitas de penas de avestruz?

E o tal inferno? Seria um lugar quente como se tem mostrado a terra nestes dias de forte calor? No meio um caldeirão de águas fervendo, onde, no meio dele os capetinhas dançassem frenéticos ao som de um pandeiro e um violão?

Em verdade existiria um céu e um inferno?

Ou apenas frutos de nossa imaginação?

Aquela senhora, que nos últimos tempos caiu enferma, quase sempre a via assentada, com um livro nas mãos, naquela varanda, daquela casa, onde conheci uma de suas filhas, que se tornou a parceira de quase uma vida inteira.

E como a admirava. Nos anos todos que com ela convivi. Era uma mestra em distribuir sorrisos.

Quase sempre, ao cair das tardes, ela estava de mesa pronta a receber os filhos, aparentados, genros, para o café da tarde.

E se não comparecíamos ela nos repreendia. Sempre com a doçura de uma grande mulher.

Criou seis filhos. Que lhe deram netos. Bis, perdi a conta de quantos são.

Por quantas e quantas operações ela passou. Mesmo acamada, cheia de parafusos e arruelas, ela não mostrava dor. Sempre sorria ao menos desconforto. Suportava a todos os contratempos com a coragem e valentia dos bravos. Jamais a vi se curvar a dor.

Ela viveu quase cem anos. Faltavam apenas sete quando ela se foi.

Naquela varanda, no cruzamento de duas ruas, onde ela sempre estava, assentadinha, todos que por ali passavam reverenciavam aquela grande mulher.

Ainda me lembro de um fato acontecido há anos passados. Depois de receber um telefonema intimidador, de um que se dizia sequestrador, aquela senhora da varanda foi ao banco. Graças a sua alma generosa naquela conta depositou uma soma considerável. Só mais tarde foi descoberto o embuste.

E quando a perguntaram por que razão teria feito isso, ela simplesmente respondeu ao inquiridor: “ah! Não faz mal. Decerto ele precisa mais do que eu”.

Foi numa sexta-feira que ela partiu. Não pairam duvidas que ela deixou saudades. Não só nas filhas da dona Edmeia como em toda a comunidade.

Aquela senhora da varanda daquela casa, onde a encontrava, de vez em quando, sempre com um livro nas mãos, com certeza hoje mora no céu.

Um céu de varandas amplas. Com uma linda biblioteca. Este mesmo céu agora está em festa.

Compareci ao sepultamento da minha querida sogra. Com lágrimas incontidas a escorrem pelo canto dos olhos. E, agora, dias depois, a ela pranteio. Com esta pequena homenagem.

À dona daquela casa, avarandada, as minhas sinceras homenagens, nesta segunda-feira, dia cinco de outubro.

Em tempo. Como gostaria de estar com a senhora. Para um cafezinho ao cair da tarde. Naquela varanda de tantas saudades.

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