Quantas vezes quantas, naquela unidade de saúde pra onde vou, algumas vezes por semana, ali encontro uma fila enorme de consultantes, ávidos por conseguirem a receita de medicamentos de tarja preta, na tentativa inglória de atenuar-lhes a ansiedade.
Prescrevo-lhes o fármaco a que estão acostumados.
São pessoas insones. Que passam a noite de olhos esbugalhados, tentando conciliar o sono, e não conseguem.
A maioria destes pacientes ainda são jovens. Deste contingente assinalo estudantes. Pessoas a procura de emprego. Desassistidos pela sorte eles se tornam dependentes destes fármacos. Os quais não conseguem minimizar a dor que agora sentem.
Famílias inteiras acorrem àquela unidade de saúde.
Pais, filhos menores, velhos, todos eles juntos, em busca de uma vida melhor.
A consulta termina quase sempre da mesma maneira. Nestes tempos de pandemia mal posso estender-lhes a mão. Aparecem de rosto encoberto por máscaras que não escondem a sua verdadeira identidade. São pessoas depressivas, ou com alguma outra patologia inerente ao sistema nervoso. Quase são maioria nestes tempos modernos.
Trasanteontem, ou seria na semana passada, quando me preparava para deixar o recinto, interpelou-me na rua uma pessoinha com a aparência sofrida.
Ela me pediu, encarecidamente, que eu voltasse à lida.
Tinha vindo de longe. E não teve a chance de marcar a consulta.
Já era quase hora do almoço. Com o sol a castigar meus passos. Pois sempre caminho. E não uso carro para chegar aquele postinho de saúde pertinho do centro.
Não tive como não atender aquela quase súplica. Era uma jovenzinha oriunda da roça.
Seu nome era Mariazinha.
Uma vez retrocedendo meus passos, tinha pressa de voltar a casa, fomos juntos a minha salinha modesta.
Ali dentro ouvi, daquela pessoinha de olhos claros, pele alva como algodão, estes queixumes que lhes passo agora: “doutor. Sou mãe solteira. Tenho uma filhinha de quatro anos. O pai nos deixou assim que ela nasceu. Nunca mais o vi. Agora vivo por ela. Quase não tenho renda. Vivemos numa rocinha perdida no meio do nada. Graças a Deus sobrevivemos. Daí a minha ansiedade. Acordo cedo. Vendo verduras na feira. Ganho quase nada. Cuido sozinha da minha filhotinha. Que Deus me permita vê-la crescer. Que tenha um futuro melhor que o meu”.
Ao perguntar-lhe o que precisava, que medicamentos ela gostaria de levar pra casa, ela me respondeu, com olhinhos recheados de emoção: “doutor. Não consigo amainar a minha ansiedade. Por favor. Qual fármaco o senhor me indicaria”?
Olhei para os seus olhinhos claros. Receitei-lhe um ansiolítico qualquer. Mas bem o sabia que o melhor medicamento do mundo não era qualquer destes prescritos na minha rotina. Era sim conseguir a tão sonhada paz que tanto almejamos. E como tem sido difícil acalmar a ansiedade. Principalmente nesta fase cruel que estamos atravessando.